sábado, 8 de janeiro de 2011
O Salvador foi batizado e renovou o velho homem - Festa do Batismo do Senhor
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Amai-vos uns aos outros como eu vos amei –V Domingo da Páscoa

Neste quinto Domingo da Páscoa, a Sagrada Liturgia nos faz contemplar o céu, destino de todos os santos, e o caminho para se chegar até ele.
Céu, o que significa esta palavra tão enigmática, a que realidades ela se refere? Seria uma realidade puramente física, material, seria o céu aquilo que vemos ao olhar para o alto, lugar onde ficam as estrelas e os elementos espaciais? O astronauta russo Yuri Gagarin, primeiro homem a chegar ao espaço sideral, disse: “Fui ao céu e não vi Deus”. Não, não é, definitivamente, a primeira coisa que nos vêm à mente quando falamos de céu. A primeira delas é Deus. Não é a Ele que nos referimos quando falamos às crianças sobre o “Papai do céu”? De fato. Na consciente coletivo, a palavra céu está ligada diretamente a Deus e às realidades divinas. O céu, assim nos foi ensinado, é o lugar para onde vão as almas justas após a morte – enquanto as más vão para o inferno. No entanto, quando falamos de céu, efetivamente, a que nos referimos? A segunda leitura, do Livro do Apocalipse, nos mostra esta realidade de forma belíssima: em primeiro lugar, após a consumação dos séculos e o julgamento escatológico, o mundo será inteiramente renovado: “Um céu novo e uma nova terra” (Ap 21,1), conforme diz o Senhor: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Neste mundo renovado, o mar, símbolo da violência, do pecado e do mal, já não existirá; assim como o Mar Vermelho foi aberto para que o povo santo de Deus rumasse para a libertação, assim o mar do mundo, no fim dos tempos, será definitivamente varrido da face da terra, para que o povo eleito, o povo santo de Deus, passe, triunfante, vitorioso, para a Terra Prometida e definitiva que é Deus mesmo. Eis aqui, o céu: o povo eleito de Deus habitando junto com Ele, o Deus conosco, o “‘Deus-com-eles’ [que] será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,3-4). Que palavras consoladoras! Tudo pelo que o nosso coração almeja será dado de presente àqueles que guardarem a Palavra fielmente até o fim e alvejarem suas vestes no sangue do Cordeiro imaculado, que tira o pecado do mundo (cf. Ap. 7,14; Jo 1, 29).
Mas há uma outra coisa importante: o “lugar” dessa salvação de Deus, o “lugar” no qual Deus habita junto de seu povo é a Jerusalém Celeste, a Cidade Santa, que desce do céu de junto de Deus, pronta como uma esposa que se enfeitou para o marido (cf. Ap. 21,2). Esta Jerusalém Celeste é a Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica, o novo Povo de Deus, Povo da Nova e Eterna Aliança firmada no sangue de Cristo, do qual ela se alimenta cotidianamente na Eucaristia e que será, para ela, penhor da salvação futura.
O que fazer, pois, para ganhar a salvação, o que fazer para participar do banquete das núpcias do Cordeiro, o que fazer para tornar-se cidadão da Cidade Santa? O Senhor Jesus nos diz no Evangelho de hoje, em seu discurso de despedida após a Última Ceia, ao dar a seus discípulos o seu novo mandamento: “Que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.” (Jo 13,34). É novo este mandamento? Já não existia na Lei Antiga, quando se dizia: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10,27; cf. Dt 6,5; Lv 19,18)? Não: a medida do amor ao próximo, que na Antiga Lei era o amor a si mesmo, é mudada: a medida agora é o amor de Cristo. E o amor de Cristo foi a sua entrega total ao serviço da humanidade, desde sua Bendita Encarnação, passando por toda a sua existência humana, e culminando com a sua Paixão, Morte e Ressurreição. Sim, a medida é outra, o amor é muito mais exigente! O Senhor dirá mais adiante: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). É preciso que meditemos profundamente sobre esta realidade: será que estamos amando, por Cristo, ao nosso próximo, independentemente de quem ele seja? É grave a palavra do Senhor: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros”. Por que será que muitos se escandalizam com os cristãos e não creem por causa deles? Não será porque nós não nos amamos e, ao contrário, estamos em constante contenda uns com os outros? Não foi à toa que o Evangelista João destacou um capítulo inteiro, o décimo sétimo de seu Evangelho, para a oração sacerdotal de Jesus, que implorava do Pai a unidade para seus irmãos: “Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17,20-21) Portanto, “amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus”, porque “Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1Jo 4,7.16), assim Deus se torna “Deus-conosco”.
domingo, 17 de janeiro de 2010
Manifestou a Sua gloria e seus discípulos creram n'Ele - II Domingo Comum
“Nas bodas de Caná da Galileia, Jesus iniciou os seus sinais, e assim manifestou a sua glória e nele acreditaram seus discípulos.” Esta antífona do Magnificat deste II domingo do Tempo Comum demonstra com grande clareza o mistério celebrado hoje e como ele está em íntima união com os mistérios celebrados nos dois últimos domingos, ainda no Tempo de Natal. A palavra-chave é “manifestação”. Na Epifania celebrávamos a manifestação do Senhor aos povos pagãos; no domingo passado, festa do Batismo do Senhor, celebramos a manifestação que o Pai fez do Senhor Jesus ao povo de Israel, apontando-o como o Seu Eleito, o Seu bem-Amado, em Quem Ele punha toda a sua afeição. Pois bem, junto com a manifestação de hoje, aos seus discípulos, completa-se o celebração do único mistério da manifestação do Senhor. De fato, na Epifania, a festa da Manifestação por excelência, rezávamos na antífona do Magnificat: “Recordamos neste dia três mistérios: Hoje a estrela guia os Magos ao presépio. Hoje a água se faz vinho para as bodas. Hoje Cristo no Jordão é batizado para salvar-nos”. Mas de tal forma é grande o mistério, que a Igreja, na sagrada pedagogia, resolveu desdobrar este mistério em três domingos para que pudéssemos colher mais abundantemente dos diversos aspectos deste mistério. Contudo, detenhamo-nos apenas no aspecto da manifestação do Senhor. O sinal de Caná, o primeiro realizado por Jesus, é dado para que os discípulos creiam no Senhor. Todos os sinais, todos os milagres realizados por Jesus, tem este sentido. Jesus não teve outra intenção a não ser auto-revelar-se aos discípulos, à Igreja nascente: Ele é o verdadeiro Esposo que deve desposar a verdadeira Esposa, a Nova Jerusalém, o Novo Israel, a Igreja. Na verdade, Jesus se mostra como o verdadeiro Deus que tinha prometido desposar o seu povo, segundo a imagem muito utilizada pelos profetas. Não é à toa que o sinal de Jesus é realizado dentro de uma festa de casamento: esta é imagem das bodas escatológicas de que falam o Apocalipse: “Eis que as núpcias do Cordeiro redivivo se aproximam” (19,7).
domingo, 29 de novembro de 2009
A vossa libertação está próxima - I Domingo do Advento
Os trechos da Palavra de Deus que a Igreja nos propõe neste primeiro Domingo do Advento falam da segunda vinda de Jesus. Deus foi paulatinamente revelando ao povo de Israel o seu desígnio de salvação: haveria um dia em que o seu povo seria salvo definitivamente, um momento em que a história humana chegaria ao seu zênite e onde todas coisas teriam a sua finalidade. Este dia final, chamado Dia do Senhor pelos profetas, é dia de salvação para o seu povo e dia de perdição para os que rejeitaram a Deus e viveram fora do seu amor. Vejamos, portanto, esses dois aspectos do desenlace escatológico da história humana.
Em primeiro lugar, o Dia do Senhor é dia de salvação para seus fiéis, aqueles que permanecem n’Ele, em Seus Mandamentos, dia em que ele cumprirá plenamente as promessas de felicidade eterna que fez a seus amados ao enviar o seu Messias, que resgatará e salvará os que são do povo de Deus. É o que diz o profeta Jeremias na primeira leitura da Solene Liturgia de hoje: “Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra. Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa justiça’”. No entanto, percebemos que muitos dos que possuem o nome de cristãos não vivem segundo aquilo que são, renascidos na água e no Espírito Santo, mas vivem de modo que desagrada ao Senhor, desprezando os seus mandamentos, não aceitando que Deus seja realmente Deus em suas vidas, mas divinizando a si mesmo ou outras pessoas ou coisas, elevando-as à condição de critério absoluto da vida. Eis, portanto, o critério para se saber quem será salvo, ou seja, quem pertencerá ao número dos eleitos: o critério é guardar os mandamentos de Deus, porque, assim nos diz São João em sua primeira Epístola (2,3-6): “Eis como sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos nele: aquele que afirma permanecer nele deve também viver como ele viveu”. Viver nos mandamentos de Deus, guardar a sua Palavra, é praticar as boas obras; assim, rezamos na oração da coleta para que sejamos achados, diante de Cristo, com as mãos cheias destas boas obras.
O Evangelho nos mostra a outra realidade deste dia da Parusia, ou seja, da manifestação do Senhor. Esta será aterrorizante e catastrófica para os ímpios: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas” (Lc 21,25-26). E o Senhor nos convida à vigilância, advertindo contra os perigos e tentações que advém neste e deste mundo e que nos podem fazer temer o dia do juízo: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (Lc 21,34-36).
O dia do juízo acontecerá realmente um dia, o qual, porém, ninguém sabe, nem compete a nós sabê-lo. Entretanto, estejamos preparados, porque mesmo que nós não vejamos esse dia ele indubitavelmente ocorrerá no momento de nossa morte. E, pelo jeito com que vivermos neste mundo, procurando fazer as obras de Deus ou não, iremos recebê-lo ou com a cabeça erguida porque vem a nossa salvação, ou com pavores e desmaios se formos indignos.
sábado, 21 de novembro de 2009
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
Pois bem: chegamos ao último domingo do ano litúrgico, comemorando este fato escatológico que, celebrado na Sagrada Liturgia, acontece agora. Sim, meus irmãos, na Liturgia entramos na eternidade: o Sacrifício pascal de Cristo é tornado presente, bem como toda a economia da salvação e, inclusive, os tempos futuros. Na liturgia penetramos o “tempo” de Deus, que não é tempo, mas eternidade; utilizando as categorias de Santo Agostinho, diríamos que na liturgia deixamos o nunc transiens, o agora que passa, ou seja, o tempo, para penetrar no nunc stans, o agora que permanece, isto é, a eternidade.
Assim sendo, podemos agora entender o sentido preciso da Solenidade de hoje: no fim dos tempos Cristo virá como Rei para reinar sobre o reino que seu pai lhe deu (cf. Sl 2), sentando-se no seu trono glorioso para separar o joio do trigo (cf. Mt 13,30.41-42), os peixes bons dos maus (cf. Mt 13,47-50), as ovelhas dos cabritos (cf. Mt 25,32). Mas, na verdade, o Cristo já reina, embora de modo não-pleno ainda: reina por Sua presença (cf. Lc 17,21) que enche toda a terra e, no coração humano que o acolhe, reina como Senhor. Cristo já reina no coração dos que creem e já reina na Igreja; enquanto Deus, reina sobre toda a criação por sua virtude divina. Mas também nos incumbe de fazer que seu reinado se estenda por toda a terra, não apenas nos corações dos homens, mas nas estruturas sociais, nas leis das nações, na cultura, na economia... É dever de todo cristão impregnar o mundo com o bom odor de Cristo, espalhar pelo orbe o seu reino “de verdade e vida, santidade e graça, justiça, amor e paz” (cf. Prefácio da Missa de Cristo Rei). É preciso lutar contra as forças do mal que querem apagar da sociedade os sinais de Cristo, retirando os crucifixos dos lugares públicos, fazendo passar leis iníquas nos parlamentos, sendo conivente com as ideologias pagãs e destrutivas. Ergamo-nos, cristãos: vós formais um reino de sacerdotes (Ap 5,10) e, se Cristo é o Rei dos reis, Senhor dos senhores, é porque ele reina e domina sobre nós: nós somos reis, nós somos senhores.
domingo, 1 de novembro de 2009
Solenidade de Todos os Santos
Mas o que é santidade? A santidade é, antes de tudo, uma propriedade do próprio Deus: Ele, só Ele, é que o Santo, o separado de todas as coisas porque sua natureza de tal modo transcende tudo que nada o pode abarcar, nada o pode prender. Mas, ao mesmo tempo que é o Altíssimo, o Inalcançável, Ele, em sua bondade, se inclina para o homem e o chama à altíssima vocação da santidade, do apartar-se de tudo o que não é Deus para estar junto d’Ele.
Se é Deus quem chama e dá a santidade, este dom, este chamado, é dirigido a todos os povos, a todas as pessoas. Todos são chamados a serem amigos de Deus, a andarem em sua presença. Objetivamente, no entanto, por causa do pecado original, os homens tiveram sua mente obscurecida e passaram a viver afastados de Deus. Mesmo assim, Deus, através do Seu Filho, que viveu e morreu por nós, temos de volta a vida que Deus nos tinha dado no início. E a nossa entrada nesta vida nova, vida de santidade, se dá quando entramos na Santa Igreja, Casa Deus entre os homens, Templo Santo, Corpo de Cristo, Sinal da sua salvação entre todos os povos. Aqueles que pela fé e pelo batismo recebem o Espírito Santo e se nutrem dos sacramentos são o povo santo, a nação sacerdotal que o Senhor escolheu para proclamar as suas obras maravilhosas. Você, cristão, pelo santo batismo, possui o Espírito Santo, que o torna santo! Mesmo na sua fraqueza, mesmo que cometa pecados, mesmo assim Deus o ama e o chama a viver uma vida de santidade, continuamente se purificando das obras más do pecado e se tornando semelhante ao Cristo Nosso Deus em sua vida terrena. É Cristo, o Santo de Deus, o Bem-aventurado, o modelo primeiro e insubstituível para o cristão; mas para que não penses que este ideal é alto demais, Deus deu-nos uma inumerável multidão de homens e mulheres que foram, na vida e na morte, capazes de imitar o Senhor pela força do Espírito Santo que estava neles. É a eles que nos dirigimos hoje, suplicando suas preces junto a Deus para que nós possamos também nós imitá-los e caminhar na amizade de Deus neste mundo. Que o Senhor nos conceda a graça grandiosa de sermos, como os santos que hoje celebramos, testemunhas dignas de sua Palavra e que sejamos contados entre o número daqueles que têm seus nomes inscritos nos céus e que no fim desta vida hão de participar da bem-aventurança eterna.
domingo, 25 de outubro de 2009
Senhor, que eu veja! - XXX Domingo Comum B

O Evangelho deste Santo Domingo nos apresenta a figura de um cego mendigo, a beira do caminho que sai de Jericó. Como não nos identificarmos com o cego Bartimeu? O próprio nome não é nome próprio: é a designação de quem ele é filho, bar-timeu, filho de Timeu – como Jesus era chamado “Yehoshua bar Iossef”, Jesus filho de José. O cego filho de Timeu é imagem de muitas realidades: do povo de Israel, que pode ouvir a Palavra de Deus mas, por sua cegueira, não pode vê-la perambulando pelas estradas da Galileia e da Judeia, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, a Palavra encarnada. O cego filho de Timeu é imagem dos pagãos: cegos, não conseguem enxergar a luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem (cf. Lc 2,32), e por isso “jazem nas trevas e na sombra da morte” (Lc 1,79) sem esperança neste mundo (cf. Ef 2,12). O cego filho de Timeu éramos nós, semelhante aos pagãos, antes de conhecermos Jesus e nos deixarmos iluminar por ele no Santo Batismo. O cego filho de Timeu somos nós quando nos esquecemos de Jesus, ou quando nos deixamos levar por realidades fantasmáticas e estéreis, levando uma vida longe de Deus. Mas, se o cego filho de Timeu é imagem da humanidade ferida, fraca, incapaz de enxergar a realidade de Deus, que é a realidade por excelência – “somente quem reconhece Deus, conhece a realidade”, dizia Bento XVI na abertura da Conferência de Aparecida – a atitude concreta e histórica deste cego, conforme nos relata o Evangelho, é modelo para todo aquele que deseja sair das trevas da ignorância, do erro, e do mal. Sabendo que Jesus está a passar, ele começa a gritar com toda força: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”. E, em resposta àqueles que o queriam calar, grita mais alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”. Nesta prece simples, singela e comovente, ressoa a fé dos verdadeiros discípulos de Cristo: Ele é o Messias, o Filho de Davi, aquele que devia vir para libertar o povo de sua cegueira de Deus, o Ungido enviado a curar os cegos de corpo e de alma. É essa oração humilde que nossos irmãos orientais repetem como um mantra, que contém ao mesmo tempo a súplica, a confissão de fé e louvor: Kyrie eleison! Senhor, salva-nos! (Mt 8,25), Senhor, tende piedade de nós! Esta oração não deve nunca abandonar os nossos lábios, porque nela nos reconhecemos como aquilo que somos: cegos e mendigos necessitados de cura e salvação. Àquele cego exemplar, uma vez curado, foi-lhe dito: “Vai, tua fé te curou” (Mc 10,52). Neste “vai”, Jesus o está despedindo, ordenando que ele siga o seu caminho; mas o caminho daquele que foi iluminado por Jesus é o caminho de Jesus, e tendo recuperado a vista, passou a seguir Jesus pelo caminho (cf. Mc 10,52). Uma vez curados, regenerados, iluminados pelo Santo Batismo, sigamos o exemplo do cego filho de Timeu e ponhamos nossos passos no caminho de Jesus, já que Ele é o Caminho, o Verdadeiro Caminho para a Verdadeira Vida (Jo 14,6).
sábado, 3 de outubro de 2009
Já não são dois, mas uma só carne – XXVII Domingo Comum

Um tema fundamental perpassa todas as leituras que a Sagrada Liturgia nos propõe hoje: a família. A primeira leitura, do livro do Gênesis, começa com uma frase muito significativa: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Deus não criou o homem para que vivesse isolado, para que vivesse somente para ele. Ele quis que o homem vivesse em comunidade, em uma família, compartilhando sua vida, seus anseios e suas alegrias com uma pessoa que seria para ele “uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2,18). O homem é criado para a comunhão da família, célula mãe de toda vida social. É na família que o homem, na medida em que passa da infância para a adolescência e daí para a fase adulta, abandona o egocentrismo inicial (uma marca deixada pelo pecado) para se abrir aos poucos para uma realidade mais ampla: ele percebe que não é o centro do mundo, mas que é apenas uma porção insignificante dele. Ao mesmo tempo, descobre na família a fé em um Deus Providente que o ama e que foi capaz de entregar-se inteiramente por ele. Descobre, enfim, o amor, que constitui a essência mesma de Deus, penetrando no mistério do amor de Deus através do amor que recebe da família. Assim, a família é espaço privilegiado da vida de fé, é a primeira porção da Igreja que um homem tem contato. A família é reflexo do mistério trinitário, de um Deus que é Um, mas que é uma Comunidade de Três Pessoas, que vivem eternamente numa dinâmica recíproca de amor.
A santidade da família é algo evidente para quem crê na Revelação de Deus. O Senhor Jesus alerta para esta santidade ao descrevê-la como uma união estável e indissolúvel, justamente porque firmada em Deus, em sua vontade. Deus quis a família deste modo – é isto que o Evangelho nos ensina: indissolúvel, fiel e fecunda. Nada menos do que isso. E, ao nos depararmos com as exigências de Cristo e compará-las com a situação das famílias de hoje, não podemos ter outra reação a não ser de uma profunda tristeza pela distância de ambas. Que tipos de famílias encontramos? Famílias destruídas pelo vício das drogas, do alcoolismo, da prostituição, famílias desfeitas, famílias criadas de qualquer maneira, famílias vilipendiadas pela mídia e pelo Estado, famílias “de fato” e “famílias” gays: tudo isso se encontra no mundo de hoje. Haverá solução para a família? O sonho de Deus para ela – um homem, uma mulher e seus filhos, numa união estável, fiel e fecunda – permanecerá até o fim do mundo. E o sonho de Deus sempre prevalecerá.
Como o cristão de hoje pode ajudar a construir uma família que seja mais conforme aos desígnios de Deus? Ele não precisa se preocupar com as outras; basta que olhe para a sua e trabalhe nela os valores evangélicos e viva conforme estes, segundo sua condição de esposo e pai, ou mãe e esposa, ou filho e irmão, filha e irmã. Que valores são esses? São Paulo nos ensina: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela; Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Certamente, ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; ao contrário, cada qual a alimenta e a trata, como Cristo faz à sua Igreja - porque somos membros de seu corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja. Em resumo, o que importa é que cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher respeite o seu marido” (Cl 5,25.28-33). E ainda: “Filhos, obedecei a vossos pais segundo o Senhor; porque isto é justo. Pais, não exaspereis vossos filhos. Pelo contrário, criai-os na educação e doutrina do Senhor” (Cl 6,1.4). Estes conselhos do Apóstolo são caminho seguro para santificar a família, fazendo-a mais agradável a Deus. Tenhamos fé e coragem, irmãos e irmãs: o ideal que Nosso Senhor propõe não é irrealizável: é o mais belo plano de amor que ele sonhou para seus filhos, de modo que já aqui na terra eles saboreiem as delícias de participar da comunhão dos filhos de Deus, vivendo o céu antecipadamente na família.
sábado, 26 de setembro de 2009
Ai de quem escandaliza! - XXVI Domingo Comum
A riqueza inexaurível da Palavra de Deus permite que se escreva miríades de miríades de tratados sobre ela. Contentemo-nos, neste santo Domingo, a contemplar apenas dois aspectos que podemos depreender das leituras que a Igreja nos propõe. Estes são: a liberdade de Deus e a responsabilidade do homem.O ato amoroso e inteiramente livre de Deus de, uma vez tendo criado a humanidade e tendo esta perdido a amizade com Ele, escolher um povo para que fosse sua porção, o povo de sua preferência, o povo de sua propriedade, implica necessariamente que Deus transcende este povo, não é propriedade dele – Deus é o “proprietário” de Israel e não Israel é proprietária de Deus. A eleição de Israel serve como sinal e prefiguração da amizade, da pertença, da santidade de um povo escolhido que o é não em vista de si mesmo ou para ficar fechado em si mesmo: Israel é sinal para os outros povos. A eleição de Israel por Deus é o sinal de que Deus, na verdade, almejava estender sua eleição para todos os povos. E a missão de Israel é justamente esta: ser sinal do amor de Deus, que se estende até os confins da terra e atinge a todos os homens, sem distinção.
Toda esta realidade é depreendida do que escutamos na primeira leitura, retirada do Livro dos Números. Deus manda que Moisés escolha setenta homens retos e prudentes para que lhes seja comunicado uma porção do espírito profético que Deus deu a Moisés para guiar o Seu povo. No entanto, dois deles não estão junto aos outros e, mesmo assim, recebem o espírito de profecia. Josué tem uma atitude muito humana, análoga a de João no Evangelho, reclamando que outros que não estavam junto com os líderes também exerciam o poder de Deus. A resposta de Moisés – “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!” (Nm 11,29) – é a afirmação da liberdade de Deus: ele não se deixa prender por esquemas humanos, nem mesmo os esquemas sagrados que ele mesmo impõe. Deus é absolutamente livre. Se nós pudéssemos enquadrar Deus nos esquemas da nossa cabeça – e mesmo nos esquemas, por exemplo, da doutrina, ou da ação de Deus nos sacramentos -; se pudéssemos fazê-lo, não seria Deus. De Deus podemos ter apenas um aceno, uma visão pelas costas, como Moisés. Só na eternidade poderemos vê-lo face a face.
Uma outra realidade, a da responsabilidade humana como resposta à liberdade amorosa de Deus é expressa na seguinte expressão do Evangelho de hoje: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço” (Mc 9,42). Quem, por sua atitude escandaliza, ou seja, põe uma pedra de tropeço no caminho do seu irmão por causa de uma atitude sua, seria melhor que pegasse essa mesma pedra de tropeço, a amarrasse no próprio pescoço e se jogasse ao mar. O que quer dizer isso? Quer dizer que, se é grave o pecado que uma pessoa comete, muito mais grave é quando este pecado tornar-se um mau “modelo” para os outros, levando os outros a pecar ou a terem abalada a sua fé. Neste sentido, quanto mais alto se está, maior a queda, maior o escândalo. Isto serve para todos, sobretudo para os cristãos. Quando o nosso comportamento não é condizente com a realidade ontológica de batizados que possuímos – somos filhos de Deus, santos de Deus – a nossa vida se torna um escândalo para os outros que estão de fora, ou para os que estão dentro mas fraquejam ou, ainda, para os que estão afastados. Isto é o escândalo: por nossos atos, afastamos os outros de Deus. Que alta responsabilidade! Ao mesmo tempo em que podemos conduzir os outros para o céu, podemos também conduzir os outros para o inferno, tornando-nos escândalo para eles. Eis aqui o que deve nos fazer tremer!
Roguemos, irmãos e irmãs, para que possamos ser transparência de Deus para os outros e nunca pedra de tropeço, que o escândalo nunca se ache em nossa vida! Peçamos ainda que o Senhor nos ajude a entender que nunca poderemos abarcá-lo, entendê-lo com nossa mente tão miúda e tão limitada! Que estes rogos e pensamentos nos acompanhem nesta abençoada semana que hoje se inicia, e que a Santa Virgem Maria nos acompanhe com sua materna intercessão. Amém.
sábado, 12 de setembro de 2009
Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo - XXIV Domingo Comum
O Evangelho deste XXIV Domingo do Tempo Comum fala da missão de Jesus e da nossa missão. O Senhor pergunta aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27). Quais as ideias que os homens têm sobre mim? Diante do que eu fiz, de minha doutrina, dos sinais que realizei, dos corações que curei, das vidas que salvei, diante de tudo isso, quem os homens acham que eu seja? “Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas” (Mc 8,28). Hoje nos diríamos: alguns dizem que sois um revolucionário como Che Guevara; outros que sois um mestre espiritual, como Buda; outros, ainda, que sois um homem bom, como Ghandi; outros, também, que sois a salvação dos nossos problemas financeiros, de nossas doenças, como se fosses um banco ou uma farmácia. As pessoas dizem muitas coisas sobre vós, Senhor Jesus!, tantas coisas que até nós mesmos, às vezes, nos confundimos! Muitas vezes, aqueles que são vossos discípulos, que deveriam saber quem vós sois para vos indicar ao mundo, deixam de falar em vós para falar em generalidades, dizendo coisas como “é preciso despertar o senso da beleza do divino” ou “nós temos que trabalhar para construir o Reino de Deus”, “os problemas sociais são os mais importantes” etc. Às vezes, é difícil acharmos alguém que nos fale de vós, que sejam simples e diretos como Pedro: “Tu és o Cristo, tu és o Messias, o Filho de Deus!” (Mc 8,29; cf. Mt 16,16) Eis uma grande desgraça para o mundo de hoje: os discípulos de Cristo, não falam mais de Cristo, da Pessoa de Cristo, mas generalidades que, sem Cristo, não passam de banalidades!Jesus é o Cristo, o Messias esperado, mas que tipo de Messias? O Senhor, logo após a confissão de Pedro os alerta: o Messias não é um chefe político, um revolucionário que vai libertar o povo de Israel do jugo dos romanos, ou qualquer outra coisa; o Cristo é aquele que “devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da lei; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias” (Mc 8,31). Que paradoxo! O Messias, o Filho de Deus, que veio ao mundo para salvar a humanidade do pecado e da morte, não foi destinado por seu Pai a vir reinar no mundo com poder e com glória, calcando aos pés todos os que o rejeitam; não, ele veio manso, humilde, fraco, plenamente homem. Ele oferece as faces para seus agressores, levando bofetadas e cusparadas, sofrendo a humilhação de ser homem e mais, de ser considerado o mais desprezível dos homens (cf. Is 50,5-9). Mas ele é, ao mesmo tempo, o homem perfeito que mesmo diante da injustiça mantém a esperança em Deus: Ele é seu libertador. Ele sabe que os sofrimentos deste mundo valem a pena ser sofridos se unidos a Deus porque a breve provação pela qual o homem passa nessa vida é um nada comparado com a glória da vida futura. Ele sabe que tem Deus a seu lado e que nada o poderá separar de seu Auxiliador. É por isso que Jesus não aceita a repreensão de Pedro: uma negação da missão sofredora de Jesus consistiria na negação do plano salvífico de Deus, seria um pecado contra a esperança em Deus, seria um puro acomodar-se a um plano meramente humano de carreira e sucesso. Mas os planos de Deus são diferentes: é através do sofrimento do Messias que a humanidade redimida pode aproximar-se de Deus purificada de seus pecados e viver diante d’Ele em santidade e em justiça. É nesse sentido que Jesus alerta: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho vai salvá-la” (Mc 8,34-35). Se nós quisermos, como Pedro queria, sermos poupados dos sofrimentos deste mundo, sermos poupados da cruz que nos cabe carregar, sermos poupados da responsabilidade a que somos chamados a ter diante do mundo, não seremos dignos de ganhar a verdadeira vida: perdê-la-emos. Mas, ao contrário, se como Jesus soubermos gastar a nossa vida, aceitando a cruz cotidiana, carregando-a não apenas com resignação mas com a alegria de sabermos que o Senhor caminha conosco, se formos generosos para não somente carregar a nossa cruz mas ajudar os irmãos a carregar suas cruzes, aí sim, embora pareça que estaremos perdendo nossa vida, estaremos, na verdade, ganhando-a. Eis o convite que o Senhor nos faz nesse Santo Domingo: seguirmo-lo integralmente, sem meios termos, sem murmurações, sem questionamentos, carregando nossa cruz e morrendo junto com Ele, para com Ele ressuscitarmos.
sábado, 5 de setembro de 2009
XXIII Domingo do Tempo Comum
O profeta Isaías, na primeira leitura da liturgia de hoje, nos fala dos exilados na Babilônia, e em especial daqueles que estão vivendo na dor e no desespero de uma escravidão em terras estrangeiras. Mesmo nessa situação dramática, Deus pede para o povo ter fé, porque será ele mesmo que irá libertá-lo e conduzi-lo à sua terra: “Sedes fortes, não temas. Eis que vosso Deus vem para vingar-vos, trazendo a recompensa divina. Ele vem para vos salvar” (Is 35,4).
O salmista, por sua vez, proclama a fidelidade do Senhor em cumprir suas promessas quando diz: “o Senhor é fiel para sempre faz justiça aos que estão oprimidos” (Sl 145). Por isso, apesar de nossos pecados e limitações, o Senhor nos aparece como um Deus que ama a cada um de nós e quer que todos nós alcancemos a sua salvação eterna, a verdadeira liberdade
No Evangelho, Marcos (cf. 7,31-37) manifesta Jesus obediente ao seu Pai, cumprindo com muita precisão sua missão: abrir os ouvidos, soltar a língua de um surdo mudo. Ou seja: Jesus veio anunciar o Reino aos homens para que eles pudessem se salvar. O surdo-mudo curado por Jesus é imagem da humanidade escrava das suas paixões, exiladas de Deus, como o povo de Israel, carente de libertação. Neste gesto de Jesus, ao curar o surdo-mudo, revela-se que o Reino de Deus acontece quando os nossos olhos, nossos ouvidos, enfim todos os nossos sentidos se abrem para ação de graça divina, para a ação do seu Espírito Santo.
Essa abertura dos sentidos à ação de Deus transforma a vida da cada batizado. É por isso que São Tiago se dirige aquelas pessoas que acolheram o chamado e o convite de Jesus Cristo e se comprometeram a segui-lo no caminho do amor, da partilha do acolhimento e da doação (cf. Tg 2,1-5) . É justamente por essas virtudes que se manifesta a abertura do coração humano a vida no Espírito Santo.
sábado, 22 de agosto de 2009
A quem nós iremos, Senhor Jesus Cristo? - XXI Domingo Comum
Antes de nos determos no estupendo Evangelho deste XXI Domingo Comum, Evangelho que encerra o capítulo sexto de São João e o discurso do Pão da Vida, é-nos útil rememorar brevemente este capítulo precioso que escutamos nos últimos domingos e que forma uma sequência precisa, um todo orgânico.Atraídas pelo ensinamento e pela fama de Jesus, muitas multidões vão procurá-lo. Ele teve compaixão delas – eram como ovelhas sem pastor (Mc 6,34) – e realizou a prodigiosa multiplicação dos pães, para que não desfalecessem no caminho. No entanto, ao invés de enxergarem o sinal grandioso realizado por Jesus, as pessoas quiseram fazê-lo rei, um rei que pudesse matar a sua fome, curar suas doenças, lhe dar bem-estar; em suma, um rei terreno. Jesus, cujo reino não é desse mundo (cf. Jo 18,36), esquivou-se deles e partiu para um monte, sozinho, para orar.
De noite, quando os discípulos voltavam para Cafarnaum de barco, sem Jesus, viram-no andando sobre as águas e tiveram medo. Estes dois episódios, o da multiplicação dos pães e o do caminhar sobre as águas, prefiguram simbolicamente o que Jesus dirá a seguir: Ele é o Pão da Vida descido do céu, Pão dado por Deus e não por um homem, Pão que é a própria carne de Jesus. E como Jesus pode dar sua carne e seu sangue para ser comido – já que são ambos verdadeira comida? (Jo 6,55) Ele tem poder sobre os elementos deste mundo (já que multiplica os pães) e sobre seu próprio corpo (ele caminha sobre as águas); assim, através de tal poder, Ele pode cumprir sua promessa de ser alimento para os homens. Mas os judeus e muitos dos seus discípulos não entenderam isso, e escandalizaram-se: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6, 60) Quem comerá a carne de um homem, mesmo que este homem seja grande e milagroso como Jesus, mesmo que Ele seja o Messias? Tal proposta era absurda para a mentalidade judaica dos seus discípulos. Mas eles não souberam ultrapassar o puramente terreno, não conseguiram enxergar em Jesus o transcendente, o divino. Não compreenderam que “o Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada” (Jo 6,63).Um mistério muito grande é o da incredulidade dos discípulos de Jesus: “Entre vós há alguns que não crêem” (Jo 6,64). Por que tantas vezes olhamos para a Igreja e não vemos a transparência dos outros cristos que são os cristãos? Por que não vemos resplandecer na vida de tantos batizados o Dom espiritual que possuem e que lhes dá uma vida de filhos de Deus, uma vida nova? Por que esta vida não se manifesta? Jesus nos oferece a resposta: “Ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai” (6,65). Não é por nossos próprios esforços, não é porque nós somos bons ou melhores que descobrimos os segredos de Jesus, lhe penetramos o Espírito, entendemos o que Ele fala, seguimos o que Ele manda: isso é um Dom dado a nós por Deus Pai. A fé em Cristo é um Dom, não um mérito nosso. E ela é tão fraca, tão pequena! Jesus tinha dito que se crêssemos só um pouquinho, moveríamos montanhas (Cf. Mt 17,20). Mas é comum vermos os cristãos fazendo milagres bem inferiores a mover montanhas? Não vemos e isso acontece porque a fé dos cristãos de hoje é tão pequena, tão pequena, que diante dela, um grão de mostarda é uma montanha. É por isso que devemos pedir a cada dia, a cada hora, a cada instante: “Senhor, aumenta-nos a fé!” (Lc 17,5) Senhor, que nós não sejamos como os discípulos descrentes em vós, que vos abandonam, que não andam mais convosco! Que não sejamos como os que apostatam a fé e se perdem no mundo, que não sejamos como aqueles que mesmo carregando o vosso Santo Nome nos lábios, vociferando “aleluias” e “améns”, não crêem de verdade! Senhor, o nosso desejo é que, do fundo do nosso coração, possamos dizer como Josué, como Pedro: eu e minha casa serviremos ao Senhor, pois a quem nos iríamos?, só Ele tem palavras de Vida eterna, só Ele é o Santo! Que se realize, ó Bom Jesus, ó Pastor de nossas almas, ó Pão da Vida Eterna, que se realize em nossa vida a vossa Santa Palavra, que é Espírito, que é Vida verdadeira! Que nós possamos enxergar na Santíssima Eucaristia, pelo olhar da fé, a vossa presença, o cumprimento da vossa promessa e o penhor de sua realização escatológica! Senhor, aumenta-nos a fé, vós que sois bendito para sempre, e que viveis e reinas com o Pai na unidade do Espírito Santo. Amém.
domingo, 16 de agosto de 2009
Solenidade da Assunção da Virgem Maria

O dogma da Assunção é consequência de um outro, o da Imaculada Conceição. Se Maria foi aquela que não conheceu o pecado, tendo em vista os méritos de seu Filho, ela não poderia experimentar a corrupção da morte, pois, como nos diz o apóstolo, o salário do pecado é a morte (cf. Rm 6,23). Como a Virgem não compartilhou do pecado, não poderia participar de seu soldo.
São Paulo diz em 1Cor 15,20-27 que em Cristo todos reviverão. Primeiramente o próprio Cristo, como o primeiro. Em seguida os que pertencem a Cristo. E não existe ninguém que viveu totalmente em Cristo como sua santa Mãe. Toda a vida de Maria foi vida na graça, graça que é o próprio Cristo. Por isso ela é a primeira criatura a participar da ressurreição plenamente, no seu corpo e na sua alma, ou seja: em todas as suas dimensões.
É por isso que Maria exulta e se alegra em Deus, que fez maravilhas em sua vida (cf. Lc 1,46-55). Maria reconhece que tudo aquilo que lhe aconteceu não se deveu aos seus méritos, mas foi tudo favor de Deus.
O hino da I e da II Vésperas do Ofício Divino de hoje canta no final da terceira estrofe: “no mais alto da Igreja estás sozinha” refedindo-se a Virgem Santa. De fato, somente Maria, depois de Cristo, encontra-se na glória. Mas ela permanece lá, sozinha, de braços erguidos, mostrando a todos os cristãos e a humanidade inteira que a meta é o céu.
E é justamente isso que a solenidade da Assunção nos recorda: não fomos feitos para vivermos aqui. Nossa vida somente tem sentido quando experimentamos caminhar aqui na certeza de que se Deus nos chamou e nos justificou no Batismo, também nos glorificará (cf. Rm 8,30). E a Virgem Santa é o sinal perfeito dessa realidade. Uma vez batizados no Espírito de Cristo, neste mesmo Espírito seremos divinizados.
Em um mundo que já não sabe viver e, consequentemente, morrer, nós cristãos devemos ser testemunhas de que Deus preparou para aqueles que Ele ama coisas que os olhos jamais viram, ouvidos não ouviram e nem sentiu o coração humano (cf. 1Cor 2,9). Dessa verdade a Virgem resplandece hoje como sinal.
domingo, 9 de agosto de 2009
XIX Domingo do Tempo Comum - Ano B

feliz o homem que nele se gloria. (Sl 34,9)
O centro da liturgia que celebramos hoje é novamente o pão. Deus concede pão como alimento corporal ao profeta Elias; Jesus, por sua vez, oferece-se a si mesmo como o “pão descido do céu” (Jo 6,41).
Na Primeira Leitura (1Rs 19,4-8), Deus se compadece de Elias, concedendo-lhe pão e água para fortalecê-lo e animá-lo a seguir a diante. Longo demais é o caminho. Sustentado pelo pão dado por Deus, o profeta prossegue a sua caminhada, continua a sua missão de guardar a verdadeira fé no Deus de Israel. Esse pão alimentou Elias, dando-lhe forças. No entanto, Elias veio a sentir fome novamente...
No Evangelho (Jo 6,41-51), Jesus prossegue o discurso sobre o pão da vida – que é Ele mesmo! São palavras duras e cheias de vida. Assim como os hebreus murmuravam no deserto (cf. Ex 16,2s), aqueles que escutavam Jesus também murmuravam. Jesus falava de um pão novo, diferente. Um pão que nos salva e nos perdoa e nos dá coragem. Um pão que é alimento para a alma. Um pão que nos conduz à vida eterna. Esse pão é dado pelo próprio Jesus: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6,51). O pão que Jesus nos oferece é o verdadeiro alimento para a nossa jornada rumo ao céu, pois quem come desse pão não sentirá fome novamente.
Jesus continua, dia a dia, oferecendo-se a nós por meio da Eucaristia, em cada Santa Missa que participamos. É o dom de Deus para a nossa vida de fé, para o nosso dia-a-dia. Assim, Jesus dá sentido à nossa existência, tão cheia de dificuldades e sofrimentos. Mas o Senhor nos liberta de tudo isso, salvando-nos. Precisamos reconhecê-Lo como nosso Salvador. Precisamos fazer da Eucaristia o centro da nossa vida: onde tudo começa e termina, pois: “Quem come deste pão viverá para sempre” (Jo 6,51).
domingo, 2 de agosto de 2009
Eu sou o pão da vida - XVIII Domingo Comum
Hoje, essa mesma multidão, com o ventre cheio, mas com o entendimento embotado, não consegue transcender o sinal dos pães e pergunta: Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obra fazes? (Jo 6,30). O Senhor lhes responde, antes, lhes propõe como matéria de fé ao dizer em verdade, em verdade vos digo: O pão que eles achavam que Moisés lhes deu de comer (cf. Ex 16,4.12-15), na verdade fora Deus quem lhes dera; e mais: Ele, o Cristo, o verdadeiro Moisés e o verdadeiro Deus, é quem pode dar o Pão da Vida, o Pão de Deus, que é Ele mesmo (cf. Jo 6,32-33.35). E Jesus diz: Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará (Jo 6,27). Aqui transparece o mistério da graça e da liberdade humana: ao mesmo tempo em que o homem deve procurar, deve se esforçar para encontrar o alimento da vida eterna, é o Filho de Deus quem o dá, como dom gratuito. Ou melhor dizendo, Ele se dá, uma vez que é Ele este alimento.
Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede (Jo 6,35). Confiados nessa promessa do Senhor, tendo fé n’Ele, realizamos a obra de Deus, conforme ele disse (cf. Jo 6,29). Alimentados com o Pão da vida, alimentados de Jesus, sobretudo de Jesus Eucarístico, podemos viver uma vida nova, em conformidade com a verdade que está em Jesus, como nos diz São Paulo na segunda leitura (Ef 4,21). É por este Alimento que revestimos o homem novo, criado à imagem de Deus (cf. Ef 4,24). Vivamos, pois, em Jesus, renovemos o nosso espírito e a nossa mentalidade (cf. Ef 4,23) para vivermos uma vida de acordo com o nosso Senhor, pensando como Ele, sentido e agindo como Ele e não como os pagãos. Vivamos aquilo que já somos pelo Batismo: Filhos de Deus, chamados a ser santos como o Pai, que está no céu, é santo (cf. 1Pd 1,16).
segunda-feira, 27 de julho de 2009
"Senhor, sem o vosso auxílio ninguém é forte, ninguém é santo!" - XVII Domingo do Tempo Comum

Devido a problemas internos, não foi possível publicarmos ontem a reflexão da liturgia dominical. Pedimos desculpas e a compreensão de nossos leitores. Segue-se, então, e reflexão, que, dessa vez, foi preparada por Pe. Thiago Henrique, presbítero da Igreja de Palmeira dos Índios, reitor do Seminário Cura D'ars da mesma diocese, e nosso amigo e irmão.
Assim hoje rezamos na missa, assim hoje reconhecemos nossa fragilidade e nossa fortaleza... assim! Caríssimos, o mistério que hoje Deus nos revela certamente nos impressiona, mas não pela grandiosidade e sim por ser simples. De onde vem nossa vida, de onde vem nossa força, de onde vem nosso sustento? Influenciados pelo paganismo de hoje e sempre, também nós cristãos nos deixamos perder em labirintos traiçoeiros de pensamentos. É fácil achar que "a vida é minha", que minha força provem dos meus ideais e exercícios, que meu sustento é fruto do meu esforço... Quem de nós nunca pediu a Deus: "Senhor, dai-me saúde e o resto eu luto e consigo! Ou, "Se o Senhor me conceder 'tal coisa' eu não peço mais nada! Ou ainda,"Permite que eu consiga aquele trabalho e eu conseguirei tudo que me falta!"... quem já não se pegou, pelo menos uma vez rezando, pensando assim? Eis, amados em Cristo, parece que nossa consciência acerca da vida está meio desviada. Por isso veio hoje o Senhor nos falar, nos curar dessa cegueira, nos fazer perceber a verdade que nos falta sobre a vida, a nossa vida!
Na primeira leitura de hoje, do segundo Livro dos Reis, encontramos Eliseu, sucessor de Elias, tendo revivificado o filho da mulher sunamita, encontra-se com o Povo de Deus que sofre com a seca e passa fome. O profeta não pode fazer nada... Ele pôde ressuscitar um morto, mas não pode impedir que o povo morra na seca... Meus irmãos, será que aquela mulher merecia ter seu filho ao seu lado mais que a outras mulheres? Por que Deus dá ao profeta poder de ressuscitar o menino e não lhe dá poder para impedir que o povo padeça e morra de fome? Na verdade, meus filhos, Deus fala na Verdade ao agir. Vejamos, como em todas as épocas, o povo se afastou de Deus e buscou sozinho seu sustento, sua força, sua vida. O povo perdeu seu rumo ao se afastar de seu Pastor e saiu errante em busca de pastagens. Deus fala, alerta, exora, lamenta, implora a volta do povo, mas seu coração esta obstinado na busca dos ídolos, tudo que traga uma certa satisfação é idolatrado em tempos difíceis e Deus vai sempre ficando de lado. Por isso o povo sofre a seca, não porque Deus o castigou impiedosamente, mas por que a consequência de andar num deserto é passar sede! O Povo escolheu outros deuses para adorar e Deus respeitou a decisão do povo.
Mas a notícia que o homem de Deus (Eliseu) havia ressuscitado um morto trouxe ânimo e esperança uma pequena parte do povo (100 homens) que pôde olhar para o lugar certo. Como quem encontra um oásis no deserto o povo olhou para Eliseu e este olhou para Deus! "Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam e vós lhes dais no tempo certo o alimento; vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura". Como foi penoso para aquele povo chegar a este momento de conversão, como foi chorada a jornada pelo deserto, como foi escaldante o sol, fria a noite, sem alegria o dia... como foi vazia e sem sentido a decisão de buscar seu sustento, sua força, sua vida sozinho, sem o Autor da vida! "Ó povo insensato, que buscas a força em tua exaustão e cansaço, que buscas teu sustento plantando em terra seca e que buscas tua vida numa estrada de morte, olha para o alto e pensa: se o sol não brilhar, se a chuva não vier e se o vento não soprar de onde virá o teu sustento e a tua força? E se de mim te afastares, se minhas palavras desprezares, se meu amor rejeitares, de onde virá a tua vida? Eu sou o Senhor que faço brilhar o sol, cair a chuva, soprar o vento. Eu sou o Senhor que ponho vida em teu barro, que te revelo meus segredos, que te renovo e te salvo por amor! Eu Sou!" . É então que, diante da dor do profeta impotente e desanimado, que Deus envia um homem de Baal-Salisa levando consigo 20 pães para Eliseu e este, ao ver o presente disse: "Geazi, dá ao povo!"; e este lhe responde: "O que é 20 pães para 100 homens?". De fato, Geazi, servo de Eliseu, tinha razão. Mas quem disse que a razão do homem pode impedir o Amor de Deus? "Dá ao povo!" - insistiu Eliseu. E todos comeram, ficaram satisfeitos e ainda sobrou!
Caríssimos, tantas vezes fazemos o mesmo! Sabemos quem é Deus, o que já fez para o seu povo amado, o que já fez para conosco e ainda somos arrastados a buscar outras seguranças, outra força, outro sustento, outra vida... é por isso que vivemos mendigando no mundo o que Deus quer nos dá com fartura, é por isso que vivemos com medo do amanhã, preocupados com as secas da vida! É por isso que nunca sobra nada! Como é mais fácil confiar nos amigos influentes, nas oportunidades, nos trabalhos, na autoridades, nas reservas... como é mais fácil endeusar o prazer, o poder a riqueza e viver por eles nossos dias. Por isso que hoje Jesus nos convida a um novo lugar: do deserto ao campo coberto de relva! Ovelhas que éramos sem pastor no domingo passado, agora nos assentamos com Ele no pasto! "Onde vamos comprar comida para eles?" Ou seja, onde buscaremos a força, o sustento, a vida para o meu rebanho? Assim como o profeta não sabia o que fazer, os discípulos também não sabem, mas um menino - assim como o homem de Baal-Salisa - vem enviado por Deus com uma porção de alimento. E os discípulos questionam da mesma maneira que Geazi: "Mas o que é isso para tanta gente? Jesus, então, toma o pão e dá graças! Vejam, meus amados, onde Jesus busca o sustento, a força, a vida para seu povo? "e deu graças", agradeceu ao Pai. É no Pai, caríssimos, no Pai que está nossa força, nosso sustento, nossa vida! Não foi à toa que Jesus rezou na cruz: "Em Tuas Mãos, ó Pai, eu entrego o meu espírito".
Quanto tempo perdemos caminhando pelo deserto de uma vida voltada para interesses particulares e mesquinhos, quanto cansaço enfrentamos tendo de buscar sozinhos nosso sustento, quanto desfalecimento frente aos problemas da "seca" de nossa caminhada, e quanta morte sem sentido ao buscar a felicidade onde ela não está! Por isso Jesus, no final do Evangelho de hoje, vai embora a um lugar deserto e não aceita ser proclamado rei. Vejam, quem rejeitaria uma promoção assim? Quem não tremeria diante da possibilidade de ser poderoso e rico instantaneamente? Quem não faria de tudo por um futuro garantido para si e os seus? Mas se Jesus aceitasse ser rei ali, naquela hora, estaria colocando sua confiança nas coisas que passam, estaria buscando a vida sem o Pai, estaria escolhendo caminhar no deserto. Não! A força, o sustento, a vida não provém do mundo, mas de Deus! O mundo passa, meus caros, tudo vai passar! Para quê procurar longe o que está perto? Para quê lutar pelo que nos é oferecido pacificamente? Para quê viver em função do supérfluo se o Essencial nos ama e nos quer? Pensemos nisso: em quem colocamos nossa esperança, em quem depositamos nossa confiança, em Deus ou no mundo? Na Graça ou no meu esforço? No amor ou no interesse? E continuemos nossa caminhada com Jesus, nosso Pastor, pedindo a Pai que não desista de nós, que nos dê sua Força, seu Sustento e sua Vida, na unidade do Espírito Santo! Amém.
domingo, 19 de julho de 2009
"Teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor" (Mc 6,34) - XVI Domingo do Tempo Comum

Já pela voz do profeta Jeremias o próprio Senhor condena aqueles pastores que descuidam do rebanho a eles confiados (cf. Jr 23, 1-2). E, mais adiante, anuncia que Ele próprio tomar conta do seu rebanho, dando-lhe fecundidade e vida em abundância (cf. Jr 23, 3-4). Deus irá suscitar um descendente de Davi que irá reunir as ovelhas dispersas (cf. Jr 23,5-6).
Esse descendente de Davi é o próprio Cristo que no Evangelho de hoje se apresenta como o Pastor entranhado de compaixão pelas ovelhas sem pastor (cf. Mc 6,34).É Cristo que, segundo S. Paulo, reaproxima os dispersos, reconciliando-os com Deus (cf. Ef 2,13-14). Por isso o Bom Pastor é a nossa paz, pois Nele estamos em paz com Deus. Em Jesus a promessa de Deus de reunir os afastados, abatidos, sem rumo e sem sentido na vida, encontra a sua plena realização.
O grupo do doze discípulos de Jesus, por sua vez, são testemunhas do amor, da bondade e da solicitude de Deus pela humanidade, por esses homens e mulheres que caminham pelo mundo perdidos e sem rumo “como ovelhas sem pastor” (cf Mc 6,30), participando de sua compaixão de Jesus pelo rebanho.
Essa participação no pastoreio de Jesus implica estar em constante diálogo com o Pai para que os chefes do povo não percam de vista a sua missão, como o próprio Cristo o fazia, recolhendo-se um lugar deserto (cf, Mc 6,31-32).
Cristo é, portanto, o verdadeiro e único pastor, prometido pelo Pai. Ele convida os seus discípulos, e de um modo particular aqueles que são seus ministros, a participarem de sua solicitude e compaixão pelo rebanho. Tal participação se dá pelo diálogo constante com o próprio Senhor.
domingo, 12 de julho de 2009
Anunciar a filiação divina, eis a missão! - XV Domingo Comum

Essa palavra da verdade anunciada por Cristo precisa ser proclamada ao mundo. Por isso, hoje, o Senhor envia os doze em missão (cf. Mc 6,7). O Senhor solicita que nada levem, além do estritamente essencial (cf. Mc 6,7-8). É porque o anúncio se faz urgente, não há tempo a perder. É preciso convencer o mundo à Boa-Nova, para que, assim, todos participem da vida em Deus.
É essa a missão de Igreja e de cada um de nós. É uma tarefa incômoda porque, assim como o profeta Amós contrariava as estruturas viciadas do coração humano de sua época (cf. Am 7, 12-15), anunciar o Evangelho será sempre o desafio de propor um estilo de vida diferente, a vida nova dos filhos de Deus.
domingo, 5 de julho de 2009
"Um profeta só não é estimado em sua pátria" - XIV Domingo Comum
Hoje Cristo prega em sua própria pátria. Nesta se encontram pessoas que o conhecem enquanto o filho de um carpinteiro e de uma mulher de sua região; o conhecem como simples cidadão. Eles não enxergam que quem está no meio deles é Deus no Seu Filho pelo poder de Seu Espírito Santo. Isso porque têm os olhos ofuscados pela mesma rebeldia e pelo pecado que outrora ofuscaram os olhos dos os antigos. (cf. Ez 2,3). Suas maldades lhes fecharam os olhos do coração e da fé! No entanto, ficam admirados e perplexos com tamanha sabedoria na qual é manifestado o poder de Deus. E Cristo não hesitou em pregar, mesmo admirado com a desconfiança daquele povo de testa dura e de coração insensível (cf. Ez 2,4) para o qual foi enviado. E por causa da dureza de seus corações e de sua falta de fé eles na aceitaram Cristo com eles. Mas o anúncio foi feito. E o salmista diz: "Ó povo, até quando tereis o coração endurecido, no amor das vaidades e na busca da mentira?" (Sl 4,3)
Irmãos, de muitos modos e maneiras também somos assaltados pelo mal, a começar pela nossa concupiscência. No entanto, quase que entregues às mãos da morte não caiamos, como aquele povo de cabeça dura e indomável, no mesmo erro. Mas, busquemos sempre a Deus no Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, pela ação do Espírito Santo. No mais, se como criaturas frágeis sucumbirmos ao pecado e, assim mergulharmos na morte, recorramos as pressas à vida pela graça de Deus. E tendo-nos sido perdoados nossos pecados, que nos impede de ver Deus, corramos ao encontro de Deus novamente. Dessa forma nossos olhos, da fé e do coração, já não estarão ofuscados, mas reconhecerá Deus Emmanuel – Deus conosco. É nós reconheceremos que não só um profeta nos veio visitar, mas Deus verdadeiro de Deus Verdadeiro.
sábado, 13 de junho de 2009
"O Reino de Deus é como a semente espalhada na terra" - XI Domingo do Tempo Comum

Nesse Domingo da XI Semana do Tempo Comum, ano B,a liturgia da igreja nos faz refletir sobre Cristo como o agricultor que lança as sementes do seu reino na vida das pessoas, a partir de suas parábolas, método usado por Jesus para explicar o seu Reino para aquelas pessoas mais simples.
Na primeira leitura, extraída do profeta Ezequiel, Deus nos revela a sua fidelidade para com o povo com o qual ele fez aliança dizendo: “eu mesmo tirarei um galho da copa do cedro do mais alto de seus ramos, arrancarei um broto e o plantarei sobre um monte alto e elevado” (Ez 17,22). A promessa que Deus fez a esse povo faz a nós mesmos hoje, porque é um Deus que é amor, fidelidade, misericórdia, justiça.Embora muitas vezes sejamos infiéis às nossas promessas ao nosso Deus. Essa nossa infidelidade acontece unicamente por causa de nossa inclinação ao pecado. No entanto, mesmo com o nosso pecado, Deus não volta atrás em suas palavras e continua com a sua obra de salvação para com todos os homens.
No Evangelho Jesus faz uma analogia do Reino de Deus com a semente, dizendo estas palavras as pessoas: “o Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda,noite e dia e a semente vai germinando e crescendo,mas ele não sabe como isso acontece” (Mc 4,26-27).
Essa semente sobre a qual Jesus nos fala no Evangelho é a própria vida Dele lançada na nossa vida para que mais tarde dê muitos frutos. É isso o que nos diz o salmo 91: “o justo crescerá como a palmeira, florirá igual ao cedro que há no Líbano”. Esse crescimento só se realiza por causa de Cristo. São Paulo nos mostra essa realidade, falando à comunidade de Corinto: “eu plantei, Apolo regou, mas é Deus quem fez crescer” (1Cor 3,6).
As palavras de Jesus sobre o Reino, que é a sua presença em nós, cumprem a profecia de Ezequiel: cada cristão é um broto, separado e colocado no mais alto, na vida do próprio Cristo.
Portanto, busquemos o agricultor que é Cristo, para que Ele possa plantar sempre em nossos corações e em nossas vidas a sua semente, para que possa germinar e crescer, e só assim poderemos dar testemunho de cristo.
