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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O tempo do Advento

O Tempo do Advento é um Tempo Litúrgico de quatro semanas que inicia o Ano Litúrgico e prepara para o Santo Natal. Portanto, ele tem o seu sentido de ser e está orientado para a Celebração do Natal do Senhor.
E o que é o Natal? Em uma palavra: a vinda do Filho de Deus entre os homens, na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4). Aqui se efetua plenamente o que diz o autor da Carta aos Hebreus: “Muitas vezes e modos diversos falou Deus, outrora, aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual fez os séculos” (Hb 1,1-2). Eis aqui: o Filho é Aquele por meio do qual o Pai fala agora à humanidade. Mais: a promessa de Deus feita em Ez 34 ,10 (“Com efeito, assim diz o Senhor Deus: Certamente eu mesmo cuidarei do meu rebanho e dele me ocuparei”), Jesus a cumpre em Si (Jo 10,10b-11: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o Bom Pastor: o Bom Pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas”).  De fato, aquele Menino deitado no presépio, enrolado em faixas, é o Deus bendito, Criador de todas as coisas.
Mas Jesus não é só o Enviado; é, sobretudo, o Esperado. E é essa realidade que o Advento celebra. Ele é:

1) Esperado por Israel: Gn 49,8-10; 2Sm 7,11ss; Is 7,14 (o Emanuel); Nm 24,17. E Israel clama sua vinda: Is 45,8; 63,19;
2) Esperado pelos pagãos, que possuem sede de verdade, de amor, de vida, sede inscrita por Deus em seus corações. “Tu nos fizeste para Vós, Senhor, e o nosso coração estará inquieto enquanto não repousar em Vós” (Agostinho, Confissões I,1,1.). Ver Mt 2,1-2 – Os Magos – representantes de todos os povos. 
3)  Esperado pela criação inteira: Deus criou todas as coisas e estas esperam n’Ele, caminham para Ele: “A criação (...) [está] na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,20-21)

Pois bem, o Menino-Deus que vem no Natal é este Esperado. Por isso, cumpre preparar-nos bem e convenientemente para a Sua chegada. Este é o objetivo do Tempo do Advento.
Este Tempo nos lembra e prepara para as três vindas de Cristo, segundo São Bernardo de Claraval:

1) Sua primeira vinda, em Belém, da Virgem Maria, vinda esta que se torna presente de novo, para nós, na Santa Liturgia;
2) No fim dos tempos, quando Ele vier em Sua Glória para julgar os vivos e os mortos;
3) No cotidiano: nas pessoas, nos fatos, na Sua Palavra e, sobretudo, na Eucaristia.

Origem: O Advento surge no século IV, na Gália (onde era um tempo penitencial em que se esperava o Cristo Juiz), de onde, mais tarde, será estendido à toda a Igreja Latina.
O Advento liga-se aos dois últimos domingos do Tempo Comum, que falam da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos.
Possui duas partes bem fixas:

1) 1ª e 2ª semanas: Ênfase na vinda de Cristo no fim do mundo;
2) De 17 a 24 de dezembro: é a chamada Semana Santa do Natal, período de preparação mais imediata para o Natal.

Temas dos Domingos (Ano C):
I: Jesus fala sobre sua segunda vinda, trazendo a libertação: “Levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”.
II: A pregação de João Batista: “Preparai os caminhos do Senhor”.
III: Testemunho de Jesus acerca de João Batista: “Eis que envio o meu mensageiro à tua frente”.
IV: A visitação de Nossa Senhora: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!”.
Sentimentos que nos devem orientar no Advento:

1) Vigilância
2) Conversão
3) Testemunho
4) Pobreza interior
5) Alegria

Sinais na Celebração Eucarística:
  
1) Cor roxa (róseo no III Domingo, chamado Domingo Gaudete, porque convida à alegria do Natal que se aproxima);
2) Poucas flores;
3) Não se canta o Glória;
4) Coroa do Advento

Personagens: Maria, José, João Batista, Isaías, Zacarias e Isabel, Simeão e Ana, os anawin (= pobres de Deus).
Recomendações ou sugestões pastorais:
- Celebração do Natal em família;
- Leitura e meditação do Livro do Profeta Isaías;
- Coroa do Advento (o Natal é a festa da Luz): é abençoada na Missa principal do I Domingo do Advento, seguindo um rito próprio. Composta por quatro velas (brancas ou roxas, ou 3 roxas e uma rosa), que são acendidas em número equivalente ao do Domingo. Ela é simples mas, a partir do dia 17, pode ser enfeitada com bolas, luzes, festões e enfeites natalinos.
- Presépio: é armado no dia 17 de dezembro sem o Menino Jesus, o qual é posto lá, solenemente, na Missa da Noite do Natal ou Missa do Galo. Só é desarmado (bem como a Coroa) após a Festa do Batismo do Senhor, que encerra o Tempo do Natal.
- Valorizar as Antífonas Ó: Pode-se cantar cada uma por vez junto com o Aleluia da Missa entre os dias 17 a 24 de dezembro. Pode-se, ainda, colocá-las ao lado do Presépio numa estante, como se fosse um livro, com duas velas ao lado, a partir do dia 17 até a Festa do Batismo do Senhor.
- Espiritualidade mariana: o Advento é o tempo mariano por excelência.
- Reconciliação sacramental.
- Decoração da Igreja: sóbria (exceção feita à Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria, em 08 de dezembro, ou se houver alguma grande festa da comunidade paroquial, como, por exemplo, a festa do Padroeiro ou outra festa solene própria), de modo que favoreça o clima de interioridade e expectativa.
- Recitação ou canto das Kalendas (pode ser em tom salmódico) após o Ato penitencial e antes do Glória na Missa do Galo.  

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Cruz, mistério e caminho de salvação


A Igreja celebra hoje a Festa da Exaltação da Santa Cruz. O que dizer, pois, do “culto” da Igreja à Cruz do Senhor? Em primeiro lugar, não se trata de culto ao objeto em si, ao madeiro da Cruz, mas ao mistério que ela não apenas representa, mas efetua em si. É na morte de Jesus na Cruz que se consuma a nossa salvação (cf. Jo 19,30). Por isso, a Igreja proclama: “Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo”. A Cruz é, portanto, o instrumento da nossa salvação, o meio pelo qual fomos salvos.
A Cruz é o altar do Cristo-Rei. Aquele que será elevado para a salvação do mundo, como outrora foi a serpente no deserto, é o que será o caminho de salvação para quantos creem nele. (cf. Jo 3,14-15; Nm 21,4-9). “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que Eu Sou” (Jo 8,27). Este trono do Rei dos reis que é a Cruz confunde os homens: aos que pensavam num reino esplendoroso, num reino glorioso, vemos um rei humilde, que vem montado num jumento e cuja coroa é de espinhos. O trono... a Cruz. Este trono, ainda hoje, é escândalo para muitos. Ainda hoje, com as devidas emendas, manifesta-se o que São Paulo disse a respeito: “A linguagem da Cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus. (...) Os judeus (e, hoje, tantos protestantes ou alguns católicos protestantizados, que só falam em milagres, milagres, milagres) pedem sinais, e os gregos (hoje os ateus e agnósticos, embora raramente) andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos a CRISTO CRUCIFICADO, que para os judeus (e afins) é escândalo, para os gentios (e afins) é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus quanto gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,18.22-24).
A Cruz é o símbolo que condensa o seguimento do fiel em Cristo. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23). A nossa cruz pessoal, DE CADA DIA, é participação na Cruz de Jesus, de forma que nós completamos na nossa carne, isto é, na nossa existência humana, o que faltou à Paixão de Cristo (cf. Cl 1,24). Efetivamente, a cruz na nossa vida significa as dificuldades, os sofrimentos. “É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). Assim exorta São Paulo a Timóteo: “Assume a tua parte de sofrimento como bom soldado de Cristo Jesus” (2Tm 2,3). E prossegue: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos, da descendência de Davi (...). Fiel é esta palavra: Se com Ele morremos, com ele viveremos. Se com Ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm 3,8.11-12a).
Diante de tudo isso, santificamos as palavras irônicas de Tomé aos Apóstolos: “Vamos também nós, para morrermos com Ele!” (Jo 11,16). Sim, tomemos nossa cruz, nossa cruz de cada dia e sigamos ao Senhor, que se dirige a Jerusalém para morrer. Não é preciso procurar o sofrimento: ele é inevitável. Ele vem cada dia; de diversas formas ele bate à nossa porta. Não desanimemos nem rejeitemos o sofrimento: como Jesus, que abraçou a sua Cruz por amor a nós, também abracemos nossa cruz por amor a Jesus e com Ele prossigamos o caminho da nossa vida, unidos a Ele. Não tem jeito: ou sofremos com Jesus ou sem Ele. Tertium non datur, não há outra opção. A cruz é o caminho impreterível e único para a salvação. Não se poderá salvar quem rejeita a cruz. Isso nos garante o próprio Salvador: “Pois aquele que quiser salvar sua vida a perderá, mas o que perder sua vida por causa de mim, a salvará” (Lc 9,24).

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Cristianismo e a salvação

O Cristianismo (...) não se afirma simplesmente como continuação da história de Israel ou como simples retomada de sua trajetória, mas como a realização das promessas anunciadas pelos profetas e como a inauguração dos tempos últimos da salvação. Cristo constitui a ação decisiva de Deus na história, ação que muda “uma vez para sempre” o sentido da condição humana e traz novidade que, a partir daí, torna-se absolutamente adquirida: ninguém poderá mais separar a união da natureza humana com a natureza divina realizada em Cristo. E ninguém mais poderá cancelar a redenção que ele já adquiriu para todos. Não é mais possível qualquer recaída. No plano objetivo, a humanidade já está irrevogavelmente salva. Resta apenas fazer todos os homens participarem daquilo que foi realizado uma vez por todas em Cristo: agora, cada homem decide o sentido de sua própria existência e de sua própria eternidade em função da acolhida ou da rejeição desse mistério de salvação operado na história. Em Cristo, tem-se o evento que introduz mudança qualitativa na história do mundo, a tal ponto definitiva que não se pode mais voltar atrás. Tudo isso impede de fazer do cristianismo uma espécie de gnose ou concepção do mundo ideal, mais ou menos fora das realidades humanas e às quais viria como que sobrepor por fora. O cristianismo não nasce de um sistema filosófico ou de um conjunto de verdades abstratas, mas de um evento, único e irrepetível, determinado e determinável no espaço e no tempo, embora absolutamente transcendente.
A fé cristã representa a afirmação de que o mistério da salvação há séculos esperado já se cumpriu em Cristo, nada mais havendo agora a esperar senão sua extensão à humanidade inteira e sua manifestação visível com a escatologia definitiva.

Carlo Rocchetta, Os Sacramentos da fé, Paulinas, p. 34-5.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O descanso em Deus

O descanso em Deus

Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem, diz Cristo no Evangelho (Lc 11,13). Deus é nosso Pai, um Pai extremoso que nos ama mais do que todos os pais e mães juntos. Ama-nos a tal ponto que entregou-nos o seu Filho Unigênito, para que, resgatados, pudéssemos ser amados com o mesmo amor com que Ele ama desde a eternidade a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se fez carne por nós. Deus ama-nos em Cristo, porque vê em nós um decalque, uma réplica, digamos assim, de Cristo. Ou a gozosa possibilidade de o sermos.
Que observamos em Jesus, sob o ângulo do nosso tema? Uma frase que pronunciou, com todo o ar de um testamento, pode encaminhar estas reflexões: Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz (Jo 14,27).
Deixa-nos a sua paz. De onde lhe vinha? Da sua permanente visão do Pai e da sua união com Ele: Eu e o Pai somos Um (Jo 10,30). Daí que dissesse: Aquele que me enviou está comigo; Ele não me deixou sozinho, porque faço sempre o que é do seu agrado (Jo 8,29). E no fim da sua vida terrena poderá dizer ao Pai: Completei a obra que me destes a fazer (Jo 17,4). Esse foi o sentido da sua vida entre nós, o elemento unificador de todos os seus trabalhos e vicissitudes. Não foi uma paz que lhe tivesse vindo de fora, pois a nada se poupou nem nada lhe foi poupado do que cansa um ser humano.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Meditação da Liturgia de hoje: quinta-feira da quinta semana da Quaresma

Quem tu pretendes ser? (Jo 8,53) Eu sou (8,59). O clímax da discussão de Jesus com os fariseus é atingido com a autorevelação divina de Jesus: Ele é Deus. Pura e simplesmente, Ele é o Filho de Deus enviado como Cristo, como Messias para salvação dos homens. Filho participante da natureza do Pai: Deus como Deus, Homem como os homens, as duas naturezas, divina e humana, juntas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação (Concílio de Calcedônia, 451). Tudo foi feito por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito (Jo 1,3). Ele é o Deus que, no Antigo Testamento, chamou Abraão de sua terra e lhe prometeu descendência abundante como as areias do mar, fazendo com ele uma aliança eterna, para que eu seja teu Deus e o Deus de teus descendentes (Gn 17,7); Ele é o Deus livrou o povo da escravidão do Egito, que conduziu o povo para Terra Prometida, que o instalou na terra, que estabeleceu uma aliança com Davi e a sua descendência; foi Ele quem enviou os profetas para pregarem a conversão do povo. Ele, enfim, na plenitude dos tempos, por nós homens e para a nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem. Por isso, aqueles que ouvem e guardam a Sua Palavra, que é Palavra de vida, não verão a morte (cf. Jo 8,51). Aqueles, porém, que não a ouvem e não a guardam, andam nas trevas e cairão no buraco escuro do vazio, da agonia e da morte. Pode acaso viver quem não quer aceita a Vida? Condenam-se à morte eterna. Creiamos, irmãos, no Senhor e guardemos a Sua Palavra: que ela seja para nós luz para iluminar os nossos pés, luz para o nosso caminho (Sl 118(119),105), sentido para as nossas vidas vazias, alimento para a nossa fome de plenitude, água para a nossa sede de vida. 

Cristo: nosso Sacerdote, nossa Cabeça, nosso Deus


Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo

Deus não poderia conceder dom maior aos homens do que dar-lhes como Cabeça a sua Palavra, pela qual criou todas as coisas, e a ela uni-los como membros, para que o Filho de Deus fosse também filho do homem, um só Deus com o pai, um só homem com os homens. Por conseguinte, quando dirigimos a Deus nossas súplicas, não separemos d’Ele o Filho; e, quando o Corpo do Filho orar, não separe de si sua Cabeça. Deste modo, o único Salvador de Seu Corpo, nosso Senhor Jesus Cristo, é o mesmo que ora por nós, ora em nós e recebe a nossa oração.
Ele ora por nós como nosso sacerdote; ora em nós como nossa cabeça e recebe a nossa oração como nosso Deus.
Reconheçamos n’Ele a nossa voz, e em nós a sua voz. E quando se disser sobre o Senhor Jesus, sobretudo nos profetas, algo referente àquela humilhação aparentemente indigna de Deus, não hesitemos em Lhe atribuir, já que Ele não hesitou em fazer-se um de nós. É a Ele que toda a criação serve, porque todo o universo é obra de Suas mãos.
Por isso, contemplamos sua divindade e majestade, quando ouvimos: No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por Ela e sem Ela nada se fez (Jo 1,1-3). Mas se nesta passagem contemplamos a divindade do Filho de Deus que supera as mais excelsas criaturas, ouvimos também em outras passagens da Escritura o mesmo Filho de Deus que geme, ora e louva.
Hesitamos então em atribuir-Lhe tais palavras, porque nosso pensamento reluta em passar da contemplação de Sua divindade à Sua humilhação, como se fosse uma injúria reconhecer como homem Aquele a quem orávamos como a Deus; por isso, o nosso pensamento fica muitas vezes perplexo, e esforça-se por alterar o sentido das palavras. Porém, não encontramos na Escritura recurso algum para aplicar tais palavras senão ao Filho de Deus, sem jamais separá-las d’Ele.
Despertemos, pois, e estejamos vigilantes na fé. Consideremos Aquele que assumiu a condição de servo, a quem há pouco contemplávamos na condição de Deus; tornando-se semelhante aos homens e sendo visto como homem, humilhou-se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até à morte (cf. Fl 2,7-8). E quis tornar Suas as palavras do salmo, ao dizer, pregado na cruz: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Sl 21,1).
Ele ora na sua condição de servo, e recebe a nossa oração na sua condição de Deus; ali é Criatura, aqui o Criador; sem sofrer mudança, assumiu a condição mutável da criatura, fazendo de nós, juntamente com Ele, um só Homem, Cabeça e Corpo. Nossa oração, pois, se dirige a Ele, por Ele e n’Ele; oramos juntamente com Ele e Ele ora juntamente conosco.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Meditação da Liturgia de hoje: quarta-feira da quinta semana da Quaresma


Jesus continua sua discussão com os fariseus. Alguns acreditam nele. E todos os que creem em Jesus, que aceitam a verdade de Sua doutrina e da Sua Pessoa, tornam-se livres, porque Jesus é a Verdade e a Verdade liberta. Quem anda na Verdade anda na luz: não tem porque temer a realidade porque a aceita tal como ela é. Não se engana, não anda nas trevas. Não precisa maquiar as coisas. Abandona a falsidade do pecado, que é o auto-engano de se fazer deus, ditando para si mesmo o que é o bem e o mal. Eis: a Verdade liberta e a Liberdade é andar na Verdade.
Mas atenção, muita atenção: a Verdade não é uma coisa abstrata, etérea; a Verdade é uma Pessoa, é Jesus: Eu Sou o caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). A Verdade é exigente e não admite compromissos. Seja o vosso 'sim', sim, o vosso 'não', não, dizia Jesus (Mt 5,37).
Mas como é difícil para eles, os fariseus! E como é difícil par nós, também! Significa renunciar ao nosso modo de pensar para acolher a Verdade de Deus, do mundo, da pessoa não como queremos que seja, fabricando as nossas ilusões a respeito da realidade, os nossos planos de transformação do mundo; não, só pode seguir Jesus aquele que renega a si mesmo, o seu modo de pensar, o seu modo sentir, o seu modo de raciocinar, o seu modo de viver e adota o modo de pensar de Cristo, o modo de sentir de Cristo, o modo de raciocinar de Cristo, o modo de viver de Cristo; aceita, em última análise, a estrutura da realidade como ela realmente é. É preciso muita coragem para isso! Coragem porque uma atitude dessas é ir na contra-mão do mundo: o que este quer é que cada um pense com a sua cabeça, tenha a sua própria criatividade, não seja um papagaio qualquer; que invente planos e soluções para um mundo melhor, para acabar com os problemas do mundo, para moldar o mundo segundo a nossa imagem... doce ilusão: esses projetos de construir um mundo novo se esfacelam diante da realidade – e quando eu digo a realidade, quero dizer a realidade inteira, material e, sobretudo, espiritual, porque somente quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode corresponder-lhe de modo adequado e realmente humano. (...) Deus é a realidade instituinte, dizia Bento XVI na abertura da Conferência de Aparecida. Daí vemos que tudo se origina em Deus e tudo volta para Deus, fim último de todas as coisas.
Tenhamos, pois, amados irmãos, a coragem de dizer sim ao Senhor, de crer nele, de crer na Verdade e realidade de Sua Pessoa e missão para que ele nos transforme em novas criaturas, não mais escravas do pecado e do mundo, mas inteiramente livres para amar a Deus e aos irmãos.

Angelus do 3º Domingo da Quaresma


PAPA BENTO XVI
ANGELUS
Praça de São Pedro
Domingo, 27 de Março de 2011


Prezados irmãos e irmãs
Este 3º Domingo de Quaresma é caracterizado pelo célebre diálogo de Jesus com a mulher samaritana, narrado pelo evangelista João. A mulher ia todos os dias tirar água de um antigo poço, que remontava ao patriarca Jacob, e naquele dia encontrou ali Jesus, sentado, «cansado da viagem» (Jo 4, 6). Santo Agostinho comenta: «Não é sem motivo que Jesus se cansa... A força de Cristo criou-te, a debilidade de Cristo voltou a criar-te... Com a sua força criou-nos, com a sua debilidade veio à nossa procura» (In Ioh. Ev., 15, 2). A fadiga de Jesus, sinal da sua verdadeira humanidade, pode ser vista como um prelúdio da paixão, com a qual Ele completou a obra da nossa redenção. Sobretudo, no encontro com a Samaritana no poço, sobressai o tema da «sede» de Cristo, que culmina com o seu brado na cruz: «Tenho sede» (Jo 19, 28). Esta sede, como o cansaço, tem uma base física. Mas Jesus, como diz ainda Agostinho, «tinha sede da fé daquela mulher» (In Ioh. Ev. 15, 11), assim como da fé de todos nós. Deus Pai enviou-o para saciar a nossa sede de vida eterna, concedendo-nos o seu amor, mas para nos oferecer esta dádiva, Jesus pede-nos a nossa fé. A omnipotência do Amor respeita sempre a liberdade do homem; bate à porta do seu coração e aguarda com paciência a sua resposta.
No encontro com a Samaritana ressalta-se em primeiro plano o símbolo da água, que alude claramente ao sacramento do Baptismo, nascente de vida nova para a fé na Graça de Deus. Com efeito, este Evangelho — como recordei na Catequese de Quarta-Feira de Cinzas — faz parte do antigo itinerário de preparação dos catecúmenos para a iniciação cristã, que ocorria na grande Vigília da noite de Páscoa. «Aquele que beber da água que eu lhe der — diz Jesus — jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der tornar-se-á nele a fonte de água, que há-de jorrar para a vida eterna» (Jo 4, 14). Esta água representa o Espírito Santo, o «dom» por excelência que Jesus veio trazer da parte de Deus Pai. Quem renasce da água e do Espírito Santo, ou seja, no Baptismo, entra numa relação real com Deus, uma relação filial, e pode adorá-lo «em espírito e verdade» (Jo 4, 23.24), como revela de novo Jesus à mulher samaritana. Graças ao encontro com Jesus Cristo e ao dom do Espírito Santo, a fé do homem alcança o seu cumprimento, como resposta à plenitude da revelação de Deus.
Cada um de nós pode identificar-se com a mulher samaritana: Jesus espera-nos, especialmente neste tempo de Quaresma, para falar ao nosso, ao meu coração. Permaneçamos um momento em silêncio, no nosso quarto, ou numa igreja, ou num lugar afastado. Ouçamos a sua voz que nos diz: «Se conhecesses o dom de Deus...». A Virgem Maria nos ajude a não faltar a este encontro, do qual depende a nossa verdadeira felicidade.

Depois do Angelus
Perante as notícias, cada vez mais dramáticas, que chegam da Líbia, aumenta a minha trepidação pela incolumidade e a segurança da população civil e a minha apreensão pelo desenvolvimento da situação, actualmente marcada pelo recurso às armas. Nos momentos de maior tensão, faz-se mais urgente a necessidade de recorrer a todos os meios de que a iniciativa diplomática dispõe, e de fomentar até o mais ténue sinal de abertura e de vontade de reconciliação entre todas as Partes interessadas, na busca de soluções pacíficas e duradouras.
Nesta perspectiva, enquanto elevo ao Senhor a minha prece pelo retorno à concórdia na Líbia e a toda a Região do Norte da África, dirijo um apelo urgente aos organismos internacionais e a quantos têm responsabilidades políticas e militares, para o início imediato de um diálogo, que suspenda o uso das armas
Por fim, dirijo o meu pensamento às Autoridades e aos cidadãos do Médio Oriente, onde nos dias passados se verificaram diversos episódios de violência, para que também ali seja privilegiado o caminho do diálogo e da reconciliação, na busca de uma convivência justa e fraterna.
Saúdo os peregrinos de língua portuguesa, em particular a comunidade romana dos fiéis brasileiros, que está realizando a sua peregrinação quaresmal, e os alunos e professores do Colégio de S. Tomás em Lisboa, que recordam a minha Visita a Portugal no ano passado. Agradecido pela vossa presença e união na oração, desejo a todos a água viva que Jesus ofereceu à Samaritana, dizendo-lhe que a mesma se torna uma fonte que jorra para a vida eterna. Que Deus vos guarde e abençoe!
 
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terça-feira, 12 de abril de 2011

Meditação da Liturgia de hoje: terça da quinta semana da Quaresma



Nesta semana, começamos a ouvir o capítulo oitavo do Evangelista João, que mostra o grave confronto entre Jesus e os fariseus acerca da Pessoa de Cristo e da sua missão. Ele é a luz do mundo; aquele que o segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida (cf. Jo 8,12). Quem se põe no caminho de Jesus – e Ele é o Caminho (cf. Jo 14,6) – caminha na luz e pode ver o caminho. Quem caminha de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas quem anda de noite tropeça, porque lhe falta a luz (Jo 11,9-10). Mas os fariseus se recusam a seguir Jesus. Assim, eles se assemelham ao povo de Israel, rebelde e de dura cerviz: como o povo da Antiga Aliança, peregrinando no deserto rumo à Terra Prometida, frequentemente se impacientava e murmurava contra Deus e contra Moisés, o seu Ungido, assim os fariseus recusam-se a crer no Filho de Deus, Cristo, o Ungido. Da mesma forma, não foram suficientes os milagres que os antigos hebreus viram Deus realizar ao libertá-los do Egito e ao guiá-los no deserto: sempre se esqueciam do Senhor, voltando-se para si mesmos e não para Deus; também os fariseus recusam-se a reconhecer os sinais miraculosos que Jesus emprega para dar testemunho de sua missão divina. Desse modo, caminham nas trevas e na mentira, trevas que não receberam o Verbo (cf. Jo 1,10), mentira que se recusa a crer na Verdade: Eu sou a Verdade (Jo 14,6). Morrerão, assim, em seu pecado (Jo 8,21)
Se os fariseus não creem em Jesus pelos sinais que Ele realiza, como poderão crer no grande sinal? Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna (Jo 3,14-15). Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis que Eu Sou (Jo 8,28). Aqui estão dois mistérios estupendos: primeiro, o grande sinal é a Cruz de Jesus: o Senhor elevado da terra dará a vida eterna para todo o que n’Ele crer, como a serpente de bronze no deserto foi colocada para, à sua vista, salvar os que estavam doentes por causa das serpentes. Depois, nessa elevação, o Senhor mostra sua identidade: Eu Sou: o Seu Nome é o Nome do Deus que se revelou a Moisés. Aquele que é, o Ser subsistente, Deus: este é Jesus. Quem me vê, vê o Pai (Jo 14,9). Jesus identifica-se totalmente com o Pai, que Ele conhece e que testemunha junto com Ele que Jesus é o Seu Enviado. É isto que Jesus anuncia com Suas palavras e seus sinais: que Ele é o Deus descido do céu, de junto do Pai, para salvar os homens.
Jesus também anuncia aos fariseus, como anunciará aos discípulos, sua ida para junto do Pai. Tantos uns como os outros não entenderam as palavras de Jesus. Aqui, os fariseus se perguntam: para onde Ele vai? Na Ceia, Pedro pergunta: Senhor, para onde vais? (Jo 13,36) O Senhor responde: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Vou preparar-vos um lugar, e quando for e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também (Jo 14,2-3). Assim, para a casa do Pai nós somos convidados a seguir Jesus, para entrarmos no repouso de Deus se, como os discípulos e ao contrário dos fariseus, crermos no Senhor, abraçarmos a fé. Que o Senhor nos conceda a graça de ter a fé n’Ele aumentada e que possamos, um dia, entrar em seu repouso.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O Verbo se fez carne e habitou entre nós


Das cartas de São Leão Magno, papa

A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela imortalidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.
Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Senhor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.
Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha de seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.
Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.
Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.
Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio de Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.
A natureza divina resplandece nos milagres, a humana sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.
É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.4).

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Bento XVI: Joana d'Arc é um modelo para os cristãos empenhados na política - Catequese papal

 
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Santa Joana d’Arc

Estimados irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de vos falar de Joana d’Arc, uma jovem santa do fim da Idade Média, morta com 19 anos em 1431. Esta santa francesa, citada várias vezes no Catecismo da Igreja Católica, está particularmente próxima de santa Catarina de Sena, padroeira da Itália e da Europa, de quem falei numa catequese recente. Com efeito, são duas jovens do povo, leigas e consagradas na virgindade; duas místicas comprometidas, não no claustro, mas sim no meio das realidades mais dramáticas da Igreja e do mundo da sua época. São, talvez, as figuras mais características daquelas «mulheres fortes» que, no final da Idade Média, propagaram sem medo a grande luz do Evangelho nas complexas vicissitudes da história. Poderíamos compará-las com as santas mulheres que permaneceram no Calvário, perto de Jesus Crucificado e de Maria, sua Mãe, enquanto os Apóstolos fugiram e o próprio Pedro O tinha negado três vezes. Naquele período, a Igreja vivia a profunda crise do grande cisma do Ocidente, que durou quase 40 anos. Quando Catarina de Siena faleceu, em 1380, havia um Papa e um antipapa; quando Joana nasceu, em 1412, havia um Papa e dois antipapas. Juntamente com esta laceração no interior da Igreja havia contínuas guerras fratricidas entre os povos cristãos da Europa, das quais a mais dramática foi a interminável «Guerra dos cem anos» entre a França e a Inglaterra.
Joana d’Arc não sabia ler nem escrever, mas pode ser conhecida no mais profunda da sua alma graças a duas fontes de extraordinário valor histórico: os dois Processos que lhe dizem respeito. O primeiro, o Processo de Condenação (PCon), contém a transcrição dos longos e numerosos interrogatórios de Joana, durante os últimos meses da sua vida (Fevereiro-Maio de 1431), e cita as próprias palavras da santa. O segundo, o Processo de Nulidade da Condenação, ou de «Reabilitação» (PNul), contém as desposições de cerca de 120 testemunhas oculares de todos os períodos da sua vida (cf. Procès de Condamnation de Jeanne d'Arc, 3 vols. e Procès en Nullité de la Condamnation de Jeanne d'Arc, 5 vols., ed. Klincksieck, Paris 1960-1989).

 
Joana nasce em Domremy, um pequeno povoado situado na fronteira entre a França e a Lorena. Os seus pais são camponeses abastados, conhecidos por todos como cristãos excelentes. Deles recebe uma boa educação religiosa, com uma notável influência da espiritualidade do Nome de Jesus, ensinada por são Bernardino de Sena e propagada na Europa pelos franciscanos. Ao Nome de Jesus é sempre unido o Nome de Maria e assim, por detrás da religiosidade popular, a espiritualidade de Joana é profundamente cristocêntrica e mariana. Desde a infância, ela demonstra uma grande caridade e compaixão pelos mais pobres, pelos doentes e por todos os que sofrem, no contexto dramático da guerra.
Das suas próprias palavras sabemos que a vida religiosa de Joana amadurece como experiência mística a partir da idade de 13 anos (PCon, I, pp. 47-48). Através da «voz» do ancanjo são Miguel, Joana sente-se chamada pelo Senhor a intensificar a sua vida cristã e também a comprometer-se pessoalmente pela libertação do seu povo. A sua resposta imediata, o seu «sim» é o voto de virgindade, com um novo compromisso na vida sacramental e na oração: participação quotidiana na Missa, Confissão e Comunhão frequentes, longos momentos de oração silenciosa diante do Crucifixo ou da imagem de Nossa Senhora. A compaixão e o compromisso da jovem camponesa francesa diante do sofrimento do seu povo tornam-se mais intensos graças à sua relação mística com Deus. Um dos aspectos mais originais da santidade desta jovem é precisamente este vínculo entre experiência mística e missão política. Depois dos anos de vida escondida e de amadurecimento interior segue-se o biénio breve, mas intenso, da sua vida pública: um ano de acção e um ano de paixão.
No início do ano de 1429, Joana começa a sua obra de libertação. Os numerosos testemunhos mostram-nos esta jovem de apenas 17 anos como uma pessoa muito forte e determinada, capaz de convencer homens inseguros e desanimados. Superando todos os obstáculos, encontra o Delfim da França, o futuro Rei Carlos VII, que em Poitiers a submete a um exame da parte de alguns teólogos da Universidade. O seu juízo é positivo: nela não vêem nada de mal, mas só uma boa cristã.
A 22 de Março de 1429, Joana dita uma importante carta ao Rei da Inglaterra e aos seus homens que assediam a cidade de Orléans (Ibid., pp. 221-222). A sua proposta é de verdadeira paz na justiça entre os dois povos cristãos, à luz dos Nomes de Jesus e de Maria, mas é rejeitada, e Joana deve empenhar-se na luta pela libertação da cidade, que tem lugar no dia 8 de Maio. O outro momento culminante da sua obra é a coroação do Rei Carlos VII em Reims, no dia 17 de Julho de 1429. Durante um ano inteiro, Joana vive com os soldados, realizando no meio deles uma verdadeira missão de evangelização. São numerosos os testemunhos relativos à sua bondade, à sua coragem e à sua pureza extraordinária. É chamada por todos e ela mesma define-se «a donzela», ou seja, a virgem.
A paixão de Joana tem início a 23 de Maio de 1430, quando cai prisioneira nas mãos dos seus inimigos. No dia 23 de Dezembro é conduzida à cidade de Rouen. É ali que se realiza o longo e dramático Processo de Condenação, que começa em Fevereiro de 1431 e termina a 30 de Maio, com a fogueira. É um processo grande e solene, presidido por dois juízes eclesiásticos, o bispo Pierre Cauchon e o inquisidor Jean le Maistre, mas na realidade inteiramente orientado por um numeroso grupo de teólogos da célebre Universidade de Paris, que participam no processo como assessores. São eclesiásticos franceses que, tendo feito uma escolha política oposta àquela de Joana, têm a priori um juízo negativo sobre a sua pessoa e a sua missão. Este processo é uma página devastante da história da santidade e também uma página iluminadora sobre o mistério da Igreja que, segundo as palavras do Concílio Vaticano II, é «simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação» (LG, 8). É o encontro dramático entre esta santa e os seus juízes, que são eclesiásticos. Joana é acusada e julgada por eles, a ponto de ser condenada como herege e enviada à morte terrível na fogueira. Diversamente dos santos teólogos que tinham iluminado a Universidade de Paris, como são Boaventura, são Tomas de Aquino e o beato beato Duns Scoto, dos quais falei em algumas catequeses, estes juízes são teólogos aos quais faltam a caridade e a humildade de ver nesta jovem a obra de Deus. Vêm à mente as palavra de Jesus, segundo as quais os mistérios de Deus são revelados àqueles que têm o coração das crianças, enquanto permanecem escondidos aos doutos e sábios que não têm humildade (cf. Lc 10, 21). Assim, os juízes de Joana são radicalmente incapazes de a compreender, de ver a beleza da sua alma: não sabiam que condenavam uma santa.
O apelo de Joana ao juízo do Papa, a 24 de Maio, é rejeitado pelo tribunal. Na manhã de 30 de Maio ela recebe pela última vez a sagrada Comunhão no cárcere e é imediatamente conduzida ao suplício na praça do velho mercado. Pede a um dos sacerdotes que conserve diante da fogueira uma cruz de procissão. Assim, morre contemplando Jesus Crucificado e pronunciando várias vezes e em voz alta o Nome de Jesus (PNul, I, p. 457; cf. Catecismo da Igreja Católica, 435). Cerca de 25 anos mais tarde, o Processo de Nulidade, aberto sob a autoridade do Papa Calisto III, conclui-se com uma solene sentença que declara nula a condenação (7 de Julho de 1456; PNul, II, pp. 604-610). Este longo processo, que reuniu as deposições das testemunhas e os juízos de muitos teólogos, todos favoráveis a Joana, evidencia a sua inocência e a sua fidelidade perfeita à Igreja. Joana d’Arc será depois canonizada por Bento XV, em 1920.

 
Prezados irmãos e irmãs o Nome de Jesus, invocado pela nossa santa até nos últimos instantes da sua vida terrena, era como que o suspiro contínuo da sua alma, como a palpitação do seu coração, o centro de toda a sua vida. O «Mistério da caridade de Joana d’Arc», que tanto tinha fascinado o poeta Charles Péguy, é este amor total por Jesus, e pelo próximo em Jesus e por Jesus. Esta santa tinha compreendido que o Amor abraça toda a realidade de Deus e do homem, do céu e da terra, da Igreja e do mundo. Jesus está sempre em primeiro lugar na sua vida, segundo a sua bonita expressão: «Nosso Senhor, o primeiro a ser servido» (PCon, I, p. 288; cf. Catecismo da Igreja Católica, 223). Amá-lo significa obedecer sempre à sua vontade. Ela afirma com total confiança e abandono: «Entrego-me a Deus meu Criador, amo-O com todo o meu coração» (Ibid., p. 337). Com o voto de virgindade, Joana consagra de modo exclusivo toda a sua pessoa ao único Amor de Jesus: é «a sua promessa feita a nosso Senhor, de conservar bem a sua virgindade de corpo e de alma» (Ibid., pp. 149-150). A virgindade da alma é o estado de graça, valor supremo, para ela mais precioso do que a vida: é um dom de Deus, que deve ser recebido e conservado com humildade e confiança. Um dos textos mais conhecidos do primeiro Processo diz respeito precisamente a isto: Interrogada se sabia que estava na graça de Deus, responde: se não estou nela, que Deus me queira pôr; se aí estou, Deus me queira conservar» (Ibid., p. 62; cf. Catecismo da Igreja Católicaa, n. 2005).
A nossa santa vive a oração na forma de um diálogo contínuo com o Senhor, que ilumina também o seu diálogo com os juízes e lhe dá paz e segurança. Ela pede com confiança: «Dulcíssimo Deus, em honra da vossa santa Paixão, peço-vos, se me amais, que me reveleis como devo responder a estes homens de Igreja» (Ibid., p. 252). Jesus é contemplado por Joana como o «Rei do Céu e da Terra». Assim, no seu estandarte, Joana mandou pintar a imagem de «Nosso Senhor que mantém o mundo» (Ibid., p. 172): ícone da sua missão política. A libertação do seu povo é uma obra de justiça humana, que Joana realiza na caridade, por amor a Jesus. O seu é um bonito exemplo de santidade para os leigos comprometidos na vida política, sobretudo nas situações mais difíceis. A fé é a luz que orienta todas as opções, como testemunhará um século mais tarde outro grande santo, o inglês Tomás More. Em Jesus, Joana contempla também toda a realidade da Igreja, tanto a «Igreja triunfante» do Céu, como a «Igreja militante» da terra. Segundo as suas palavras, «um só é Nosso Senhor e a Igreja» (Ibid., p. 166). Esta afirmação, citada pelo Catecismo da Igreja Católica (cf. n. 795), tem uma índole verdadeiramente heróica no contexto do Processo de Condenação, diante dos seus juízes, homens de Igreja, que a perseguiram e a condenaram. No Amor de Jesus, Joana encontra a força para amar a Igreja até ao fim, inclusive no momento da condenação.
Apraz-me recordar como santa Joana d’Arc teve uma profunda influência sobre uma jovem santa da época moderna: Teresa do Menino Jesus. Numa vida completamente diferente, transcorrida na clausura, a carmelita de Lisieux sentia-se muito próxima de Joana, vivendo no coração da Igreja e participando nos padecimentos de Cristo para a salvação do mundo. A Igreja reuniu-as como Padroeiras da França, depois da Virgem Maria. Santa Teresa tinha expresso o seu desejo de morrer como Joana, pronunciando o Nome de Jesus (Manuscritto B, 3r), e era animada pelo mesmo grande amor a Jesus e ao próximo, vivido na virgindade consagrada.
Queridos irmãos e irmãs, com o seu testemunho luminoso, santa Joana d’Arc convida-nos a uma medida alta da vida cristã: fazer da oração o fio condutor dos nossos dias; ter plena confiança no cumprimento da vontade de Deus, qualquer que ela seja; viver a caridade sem favoritismos, sem limites e, como ela, haurindo do Amor de Jesus um profundo amor pela Igreja. Obrigado!

Saudação
Saúdo, com afecto a todos vós, amados peregrinos de língua portuguesa, desejando que esta peregrinação a Roma vos encha de luz e fortaleza no vosso testemunho cristão, para confessardes Jesus Cristo como único Salvador e Senhor da vossa vida: fora d'Ele não há vida nem esperança de a ter. Com Cristo, ganha sentido a vida que Deus vos confiou. Para cada um de vós e família, a minha Bênção!

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