sexta-feira, 24 de julho de 2009

Breve história do aristotelismo cristão - IV

Santo Anselmo de Aosta, bispo e doutor da Igreja
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Neste artigo, veremos o desenvolvimento do pensamento aristotélico nos séculos XI e XII, período no qual houve uma “revivescência da razão”, e cujas figuras de fundo são Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo.
A Baixa Idade Média (séc. XI-XV) foi um período de renovação social, cultural e religiosa no Ocidente. Quando cessaram as invasões bárbaras e as condições naturais se tornaram mais propícias, juntamente com uma série de outros fatores, possibilitou-se o surgimento de um novo modo de vida na Europa, muito mais civilizado e ordeiro e de uma generalizada ânsia de saber e de ardor religioso, ambas sendo expressas no que poderíamos chamar de “casamento” da fé e da razão, descobertas de uma nova maneira pelos europeus.
Esta época exigia uma nova forma de interpretação das verdades estabelecidas, sejam de natureza religiosa sejam de natureza secular. Isto se deveu a uma enorme curiosidade, ou sede de saber, sede de um conhecimento mais elaborado e exato. É nesse contexto que as obras de Aristóteles vão fornecer métodos e conceitos que cairão como uma luva nos anseios intelectuais dos homens medievais.
A primeira das figuras fundamentais no pensamento desta época e que mostra a efetividade deste “casamento” é Santo Anselmo de Aosta. Duas frases suas exprimem suas preocupações filosóficas sobre as relações fé-razão: “fides quaerens intellectum” (a fé que procura a inteligência) e “credo ut intellligam” (creio para compreender), que juntas querem dizer, segundo Giovanni Reale: “a fé se ilumina pela inteligência” (História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus, 1990, p 501). Também se deve a Santo Anselmo as regras dos debates intelectuais que dentro em breve iriam multiplicar-se na Europa medieval. O método consistia em reproduzir a crítica do opositor junto da própria obra, acrescentando-lhe a réplica para reafirmar a primeira asserção. Tal método, segundo Rubenstein, é a pura “dialética” de Aristóteles.
Anselmo chama a atenção para os problemas das relações dos termos e conceitos com as realidades que eles significam, num primeiro aceno sobre a questão da analogia entis. Este problema – os universais –, que é a antecipação do debate contemporâneo acerca da linguagem, constitui o cerne das questões mais tratadas na época, aquelas relativas à teoria do conhecimento.
Depois, temos a figura de Pedro Abelardo, esse gigante da dialética, famoso por sua história de amor com Heloísa pelo histórico embate com São Bernardo de Claraval, embate que lhe acabou a carreira. A principal contribuição de Abelardo está no esforço feito por ele no sentido de oferecer uma resposta mais elaborada à questão dos universais. Segundo ele, os universais existem de fato (ao contrário do que dizia Roscelin), mas não como entes reais (ou ideais, no sentido platônico), apenas como formas existentes na mente. Essa sua doutrina foi conhecida como “conceitulismo”. Abelardo surge, então, como a figura que vai dar a guinada definitiva do homem medieval em direção à razão, a qual está intrinsecamente unida, ao menos no áureo período medieval dos séculos XII e XIII até Guilherme de Occam, à fé.

Um comentário:

  1. O site está cada vez melhor... os textos tem um pouco da característica de cada um!
    Parabéns!

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