Os bons católicos da França e da Europa devem a São Vicente alguma coisa mais preciosa mesmo que a vida – a pureza da fé católica, que a seita janseniana queria raptar nos começos do século XVII.
Um magistrado dizia ao historiador Fleury: “O jansenismo é a heresia mais sutil que o diabo já teceu. Os partidários, vendo que os protestantes separados da Igreja são excomungados, têm por máxima fundamental de conduta, jamais se separarem exteriormente, e protestam sempre submissão às decisões da Igreja, com a condição de procurar todos os dias novas sutilezas para explicá-las, de sorte que parecem submissos sem mudar de sentimentos.
De fato, como pode-se ver no tomo XXV da História Universal da Igreja Católica, os sectários diziam cruelmente, na intimidade de São Vicente de Paulo, que a intenção formal do jansenismo era destruir a Igreja e a religião.
Ora, depois de Deus, foi São Vicente de Paulo que preservou a França e a Europa de tão grande mal.
De todas as personalidades do tempo, foi o santo quem refutou a nova heresia com mais ardor, quem mais se rodeou de zelo para combatê-la. Basta ver-lhes as cartas. São um monumento histórico do zelo e do gênio de São Vicente. Não o vemos mais como o pai dos órfãos, mas como Doutor da Igreja. Nele, vêem-se o espírito, o coração e a alma católica da França. Foi dele que partiu o primeiro impulso que movimentou o rei, a rainha e os bispos. Vê-se agora porque a Providência o colocou na corte e à frente do conselho de consciência; era para ser o anjo tutelar do reino num dos momentos mais perigosos.
Uma das últimas ações de São Vicente de Paulo foi distribuir exemplares da regra aos membros da sua comunidade. Relembra sucintamente de que maneira começara a obra das missões, o retiro dos ordenandos, as confrarias de caridade, a obra das crianças encontradas. E acrescenta:
“Não sei como tudo se fez. Não o posso dizer. Eis, Monsieur Portail, que tudo foi aparecendo. Os exercícios da comunidade, como surgiram? Não saberia dizê-lo. As conferências, por exemplo (oh! Ainda outras faremos juntos!) com elas nem sonhávamos. A repetição da oração, que outrora era desprezada, e que agora se pratica com bênçãos em muitíssimas comunidades, passou jamais por nosso pensamento? E os vários exercícios que se empregam na comunidade? Não sei de nada! Fez-se a pouco e pouco, sem que déssemos conta. As coisas vieram assim, diríamos, de mansinho, uma após a outra. Foi Deus, unicamente Deus, quem inspirou tudo”.
Rogava, então aos padres, notadamente a Portail e Alméras, que viessem receber as regras que estabelecera, uma vez que lhe era impossível ir a cada qual, como, todavia, desejava.
Vieram eles, pois, e de joelhos as receberam beijando o livro, as mãos de Monsieur Vicente, com profunda humildade. E Vicente, a cada um deles, dizia:
- Vem, para que Deus te abençoe.
Terminada a distribuição, Alméras ajoelhou-se e pediu ao santo que o abençoasse e a todos, igualmente de joelhos.
Vicente, também prosternado, orou a Deus:
- Ó Senhor, vós que sois a lei eterna e a razão imutável, vós que governais todo o universo por vossa infinita sabedoria; vós, de quem emana, como duma fonte, toda a conduta das criaturas e as regras do bem viver, abençoai, por misericórdia, os que aqui recebem as regras, como se vindas de vós. Dai-lhes, Senhor, as graças necessárias para que as observem até a morte. É com confiança, pensando na vossa infinita bondade, que eu, pecador, e pecador miserável, pronuncio as palavras da bênção: “Que a bênção de Nosso Senhor Jesus Cristo desça sobre vós e em vós permaneça para sempre! Em nome do Padre, e do Filho e do Espírito Santo. Assim seja”. (7)
O santo homem fez ainda perto de trinta conferências aos missionários sobre o espírito e a prática de suas regras. Era-lhe o testamento, o testamento de Elias à Igreja.
São Vicente de Paulo morreu a 27 de setembro de 1660.
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