Não quero a morte do pecador, diz o Senhor, mas que ele volte e tenha a vida. (Ez 33,11) Nesta última semana da Quaresma que precede da Semana Santa, o Senhor mais uma vez nos exorta à conversão e ao arrependimento dos nossos pecados.
Hoje em dia, a mentalidade moderna presente em muitos membros da Igreja, às vezes até entre os pastores, quer fazer-nos pensar que a bondade de Deus é tanta que Ele, no fim, salvará a todos sem distinção: basta que sejamos sinceros. Dessa forma, ser um muçulmano sincero, um judeu sincero, um protestante sincero, um espírita sincero, um ateu sincero, bastaria para se alcançar a salvação. Para tanto, usam esta palavra de Jesus aos fariseus: Os publicanos e as meretrizes vos precederão no Reino de Deus (Mt 21,31); e também: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores (Mt 9,13). Usam também estes versículos e outros para justificar a situação pecaminosa de alguns cristãos que se encarquilham no pecado mas não querem saber de converter-se. Mas este é um pensamento vão; mais: é um pensamento mundano e anti-evangélico. De fato, o Senhor veio para salvar os pecadores, mas somente os pecadores arrependidos. Ao mesmo tempo em que revela a bondade e misericórdia de Deus para com os pecadores – que afinal somos todos nós: Quem afirma que não tem pecado é mentiroso, nos adverte São João (cf. 1Jo 1,8.10) –, Eu também não te condeno; revela um Deus exigente: de agora em diante, não peques mais (Jo 8,11). Da mesma forma, diz ao enfermo curado: Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa pior (Jo 5,14). Assim, vemos esta dupla face de Deus: ao mesmo tempo misericordioso e justo. Pai e Juiz. Deus é Juiz, e Ele julga com justiça, mas é um Deus que ameaça cada dia. Se para Ele o coração não converterem, preparará a sua espada e o seu arco, e contra eles voltará as suas armas. (Sl 7,12-13). Mas, nestes tempos, facilmente nos enganamos a respeito deste aspecto da justiça divina. “Da imagem de Deus e de Jesus, no fim de contas, admitimos apenas o aspecto terno e amável, enquanto tranqüilamente cancelamos o aspecto do juízo?” (Cardeal Ratzinger, Via-Sacra no Coliseu, 2005, Oitava Estação).
Convertamo-nos, portanto, sabendo que se reconhecemos os nossos pecados, Deus aí está, fiel e justo, para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniqüidade (1Jo 1,9). Ele nos oferece a mesma misericórdia que usou para com a pecadora, contanto que não abusemos de seu amor misericordioso, nos colocando como aqueles que cospem, batem e humilham Jesus com seus pecados. Dessa forma, nós mesmo nos condenamos. Mas escutemos hoje a voz do nosso Deus (cf. Sl 94), abandonemos as nossas más obras e voltemos para o nosso Pai como fez o filho pródigo (cf. Lc 15).

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