quarta-feira, 29 de setembro de 2010

São Vicente de Paulo - O Apóstolo da Caridade - 4


O Santo deixou a casa De Gondi em 1617, retirando-se para Bresse, em Chantillon-les-Dombes. Ali era uma paróquia abandonada. Havia cerca de quarenta anos que jazia naquele lamentável estado, sem nada; certos beneficiários de Leão sugavam-lhe os magros lucros.
Assim, depois de quase meio século, aquela cidade infortunada, composta de duas mil almas, não tinha propriamente falando, nem padre, nem pastor, nem quaisquer diretrizes espirituais.
O capítulo de Leão dirigiu-se aos Padres do Oratório para que lhe indicassem um homem capaz de remediar tal desordem. O padre Bérulle não sabia quem poderia desincumbir-se da missão, quando Vicente apareceu para comunicar-lhe que ia deixar a casa De Gondi: propôs-lhe, então a paróquia de Chantillon, que o Santo aceitou.
São Vicente de Paulo chegou em Chantillon-les-Dombes no mês de agosto de 1617, em companhia dum bom padre do país, chamado Luís Girard. Como a casa paroquial estava em ruínas, alojaram-se na casa de um tal Beynier. Esse Beynier, calvinista, com o tempo se converteu.
Eis a programação que Vicente se propôs a cumprir: levantava-se às cinco horas; meia hora de oração; o ofício e a santa missa eram feitos em horas marcadas, de modo que não se desperdiçava o tempo sem necessidade; os dois, Vicente e Luís, cuidavam da parte da casa que lhes coubera: eles mesmos tratavam da arrumação dos quartos e faziam as camas. Vicente não queria que a enteada do hospedeiro fizesse mais do que já fazia no resto da casa.
O novo pastor visitava regularmente, duas vezes por dia, uma parte do rebanho. O resto do tempo era empregado no estudo e no confessionário.
O desejo de ser útil tanto aos pequenos como aos adultos, fez Vicente estudar com dedicação o dialeto usado familiarmente. Aprendeu-o em pouco tempo e passou a falá-lo corretamente, com grande proveito no catecismo.
O ofício divino era celebrado com a maior decência possível. As danças foram banidas, bem como certos escandalosos excessos que desonravam as festas, sobretudo a da Ascensão de Nosso Senhor.
Havia na paróquia seis velhos padres que eram a negação do bom exemplo: Vicente empenhou-se e conseguiu exortá-los a viver em comunidade, obedecendo à regra. A cidade inteira, surpresa e edificada, acompanhava as mudanças que se operavam devagar, mas eficientemente. Tudo estava ficando transformado, caminhando para a perfeição. Os mais sábios acreditavam que aquele homem, a quem a reforma dum clero como o daquele lugar, regularizando-se como estava, sem muitas dificuldades, era assaz competente e conseguiria ganhar para Deus a paróquia toda inteira não demoraria muito tempo.
Efetivamente quatro meses depois, quem visse Chantillon-les-Dombes ficaria de boca aberta, tal a diferença. Os maiores pecadores, em fila, contritos, compareciam ao tribunal da penitência, de modo que o santo passava um tempo enorme no confessionário. Tão compenetrado estava das coisas espirituais, que se esquecia das mais urgentes necessidades da natureza.
Houve em Chantillon duas conversões extraordinárias: a de duas mulheres nobres, que viviam senão para o mundo e que acabaram modelos de piedade e de caridade. Naqueles tempos, quando a peste se declarou, foram devotíssimas aos pobres e aos doentes.
O conde de Rougemont, esgrimista, um dos mais terríveis duelistas da França, intrépido, ágil como gato, converteu-se, e tão completamente, que se desfez das terras que possuía, as célebres terras de Rougemont. Vendeu-as para fundar mosteiros e socorrer os indigentes. O castelo onde vivia, enorme, transformou-se em hospital para religiosos e pobres. E o conde, pelo resto da vida, satisfeito, foi modelo de penitência e de mortificação.
Mais tarde, Beynier, calvinista, como vimos, acabou por abraçar a vida religiosa, com o dom de arrastar para Jesus um grande número de calvinistas.
Um dia, era dia de festa, Vicente estava subindo ao púlpito, quando uma das duas mulheres convertidas o deteve, pedindo-lhe recomendasse à caridade dos paroquianos uma família extremamente pobre, da qual a maior parte dos habitantes estava doente, numa propriedade afastada, a mais ou menos três quilômetros de Chantillon.
Vicente atendeu o pedido da mulher. E Deus lhe deu tal eficácia às palavras, que um grande número de ouvintes foi visitar a pobre família, e ninguém de mãos vazias. Uns levaram pão, outros vinho, este carne, aquele farinha. Vicente, depois das orações das vésperas, também lá foi, com alguns habitantes da paróquia. E ficou abismado com o movimento que havia na estrada: grupos que iam, carregando embrulhos, grupos que vinham, a conversar e a comentar, grupos de pessoas que descansavam sob as árvores, porque, naquele dia o calor era excessivo.
- Oh, exclamou, que bela caridade, mas desregrada, infelizmente! A família pobre terá muita provisão duma vez e, pois, não poderá consumi-la. E uma parte se perderá. É pena, porque outras famílias, nas mesmas condições, há por aí.
Esta reflexão de Vicente, que tinha um espírito regrado, todo ele sistemático, principiou a imaginar o meio pelo qual todos os necessitados pudessem receber auxílio com ordem. Não só uma família, mas todas as que estivessem em semelhantes aflições.
Reuniu, então, um dia, as mulheres piedosas da paróquia e com elas conferenciou, depois de orar a Deus, pedindo-lhe que o inspirasse. As idéias foram surgindo, juntando-se, definindo-se. Foi como surgiu a primeira confraria, a primeira sociedade das Damas da Caridade, instituição que, como todas as de Vicente de Paulo, se propagou por todos os países cristãos.
O Santo, voltando à casa De Gondi, em fins de 1617, apenas para uma inspeção geral sobre o andamento da educação dos filhos de Filipe Emanuel, teve grandes folgas para dedicar-se ao que o atraía: tratar da gente do campo.
Assistido por vários padres virtuosos, por seculares e religiosos, empreendeu um grande número de missões nas dioceses de Paris, de Beauvais, de Soissons e de Sens, onde a casa De Gondi possuía terras. Tais missões, nas quais a condessa de Joigni trabalhava à sua maneira, visitando os doentes, consolando os aflitos, fazendo esmolas, produziram um bem imenso e renovaram as paróquias – e muitos heréticos foram convertidos à fé.
Aquela experiência fez sentir a Vicente e à condessa de Joigni, a importância e a necessidade das missões no campo. Desde 1617, a piedosa condessa passou, então, a reservar um fundo de seis mil libras para tal empreendimento, quantia que renovaria de cinco em cinco anos.
Quem se encarregaria das missões? Em vão Vicente recorreu, sucessivamente, aos jesuítas, aos Oratórios e comunidades outras. A condessa concluiu que ele mesmo era quem devia tomar as rédeas da fundação, com alguns dos seus virtuosos padres, aqueles mesmos que o haviam ajudado.
Em abril de 1625, a 17, o ato foi redigido. João Francisco de Gondi, cunhado da condessa e primeiro arcebispo de Paris, doou o colégio Bons-Enfants para que nele se alojasse a nova comunidade; tratava-se de um casarão antigo, que depois passou a chamar-se seminário de São Firmino, tornando-se célebre, tristemente célebre, dado o massacre de setenta e cinco padres, ocorrido em setembro de 1792. Tempos depois, abrigava cegos.
A condessa de Joigni falecia meses mais tarde. Vicente retirou-se, então, para o Bons-Enfants, seguido de Antônio Portail, um dos primeiros companheiros, padre da diocese de Arles. Principiavam as missões. Vinte anos mais tarde, Vicente assim se expressava sobre aqueles começos:
“Fomos enviados por nossos senhores, os bispos, para evangelizar os pobres, como fizera Nosso Senhor. E trabalhávamos, fazendo Deus, por seu lado, o que já havia previsto na eternidade. Abençoou nossos trabalhos, e tudo corria a contento. Diante disso, outros eclesiásticos juntaram-se a nós, pelos anos em fora. Ó Salvador, jamais pensei que tudo ficasse como agora ficou!”.
Luís XIII autorizou a nova associação por cartas-patentes do mês de maio de 1627, sob a denominação de “Padres da Congregação da Missão”. Continuava-se a evangelizar o povo nos campos, não somente na França, mas na Itália.

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