quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O justo viverá pela fé (Hab 2,4a)


O ato de crer, com freqüência, passou a ser compreendido como um decisão de âmbito privado. Um ato sinônimo de pensamento mágico, pensamento positivo. Também se convencionou considerá-lo como crença individual em um mito. Conseqüentemente, o conhecimento adquirido pela fé é conhecimento mítico, desprovido de qualquer valor racional.
No entanto, o ato de crer é muito mais do que uma simples projeção daquelas qualidades heróicas aneladas pelo homem. Não é um alívio para as questões da existência cujas respostas não foram encontradas, depositado em um deus feito à imagem e semelhança humanas. Tão pouco é pensar que tudo será melhor e assim acontecer.
Crer é primeiramente a experiência com um Outro, é uma atitude relacional. Não se trata aqui de um diálogo interno com a própria consciência, pois isso é denominado superego. Crer é uma relação com um Outro para além do próprio homem. Esse Outro vem ao encontro do ser humano, entra em sua vida, mostra-lhe quem é, e espera dele uma resposta. Crer é dizer sim a Deus que se revela.
Esse Deus é totalmente diferente do homem. Por isso é uma relação de fé. Caso se tratasse de uma projeção humana, ocorreria o movimento contrário: era Deus quem daria uma resposta aos caprichos humanos. Não haveria conflito: deus estaria sempre pronto a acolher o homem e preenchê-lo, sem que esse diálogo gerasse uma transformação radical.
Em modo contrário, caminhar na fé é dizer sim e assumir os conflitos e desafios que virão. É apostar em Deus, abandonando-se Nele. A fé, nas palavras da Carta aos Hebreus, “é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se vêem” (Hb 11,1). Crer é experimentar Deus e suas maravilhas realizadas em Jesus, na esperança de sua plenitude. Essa experiência é tecida no dia a dia, entre desânimos e certezas, vitórias e derrotas, principalmente quando Deus e seus desígnios parecem distantes dos projetos humanos apequenados diante de um Deus imenso. Essa experiência de conflito e desafio forja um homem novo, renascido em Deus, cujo protótipo é o Cristo ressuscitado.
Para o homem novo renascido na fé, crer se torna um modo de viver. “O meu justo viverá pela fé” (Hab 2,4a). O justo, o crente, vive na fé e pela fé porque o conhecimento nascido da relação com Deus é algo vivo que ilumina a sua existência: seus afetos, sua inteligência, sua vontade. Justamente por prover de fora, por ser revelado, tal conhecimento é algo novo, inaudito, renovando no homem sua maneira de ler os acontecimentos da sua vida.
O justo vive pela fé porque sabe: embora já goze aqui da presença de Deus, ele caminha em busca da posse plena dos bens do céu, os quais somente na eternidade serão possuídos na sua totalidade.
O crente, enfim, corre com perseverança o certame que lhe é proposto, com os olhos fixos em Jesus, o iniciador e consumador da fé, o maior bem que Deus nos concedeu (cf. Hb 12, 1b-2a).

Nenhum comentário:

Postar um comentário