sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O Calvário da Romênia




Repassando este texto importantíssimo sobre a Igreja perseguida pelo Comunismo, que deve nos fazer pensar. Repasso como o encontro no site Doce Cristo (http://www.docecristo.com/2011/09/o-calvario-da-romenia.html).


Queridos irmãos em Cristo, estou postando um artigo de muita importancia, referindo-se a perseguição sofrida pela Igreja Católica pelos comunistas, uma parte da história não divulgada pela mídia, não contada nas escolas e universidades, e omissa pela maioria dos Padres que deveriam divulgar, para que os fiéis católicos saibam o que ocorreu e ainda ocorre pelo mundo vitimando milhóes de cristãos, católicos, ortodoxos e protestantes por todo o mundo. Nós católicos nunca ficamos sabendo sobre as perseguições que sofremos, como salientou o professor Alexandre del Valle, professor de Relações Internacionais na Universidade de Metz, França, e consultor de Geopolítica em diversas importantes instituições europeias, “as notícias divulgadas pela mídia são apenas a ponta do iceberg da perseguição que os cristão sofrem”. Por esse motivo, cabe a nós divulgarmos todas as atrocidades cometidas contra nós que professamos a fé em Jesus Cristo.



O Calvário da Romênia

O Cristianismo chegou primeiramente na Romênia em 106 a.C., quando os exércitos do imperador romano Trajano conquistaram a região conhecida como Dacia, levando com eles a nova fé.
Embora a Romênia, situada na Europa oriental, sofresse naturalmente influência eslávica há muitos séculos — principalmente pelas invasões búlgaras nos séculos seis e sete — ela conservou uma profunda conexão com a civilização latina. E mesmo hoje, quase dois mil anos após a conquista romana, o Romeno é classificado por lingüistas como uma língua basicamente latina. No decurso da longa história do Cristianismo romeno, a população dividia-se entre os Ortodoxos, de longe a maior denominação, abrangendo cerca de 87 por cento da população, os Católicos somando 6 por cento, e os Protestantes com 5 por cento. Embora as cifras do censo não sejam inteiramente confiáveis, isso significa que, em termos concretos, havia cerca de 1.560.000 católicos na Romênia antes do advento do Comunismo em 1948. (Em contraste, o Partido Comunista na Romênia não possuía mais do que mil membros quando o regime Marxista foi imposto à Nação através de tramas internas e pressão soviética.) Porém, após cinqüenta anos de uma das piores perseguições do século, ainda existiam mais de meio milhão de católicos na Romênia1.
Os católicos romenos dividiam-se principalmente em dois grandes grupos. A Igreja Católica Romana de rito latino situava-se primeiramente em Timisoara (uma grande cidade de uma região cujos católicos eram predominantemente de ascendência alemã) e na Transilvânia (uma área de concentrações relativamente grandes de católicos húngaros). Essa Igreja Latina, embora fortemente pressionada, provou-se surpreendentemente resistente às perseguições do comunismo romeno, devido talvez à sua particular composição étnica. Infelizmente isso não ocorreu com a Igreja Católica Grega romena. Conforme ocorrido na Ucrânia liderada pelos soviéticos, as autoridades comunistas romenas organizaram um conselho ilegítimo de padres dessa igreja, o qual nenhum bispo católico romeno, mesmo sob tortura e outras pressões, concordou em participar. O conselho foi forçado a declarar que era desejo dos fiéis tornarem-se ortodoxos, embora a Ortodoxia romena estivesse disponível como opção para qualquer um que desejasse se converter há muitos séculos. Em outubro de 1948, a Igreja Católica Grega foi liquidada, suas milhares de igrejas confiscadas e convertidas para o uso ortodoxo. A data foi escolhida para entrar em atrito, visto ser o 250º. Aniversário da Declaração de Unificação da Igreja com o Vaticano em 1698. A justificativa pelo ato foi propaganda pura: a de que os bispos católicos gregos “haviam se distanciado das pessoas para servir a interesses imperialistas, obedecendo ao Papa de Roma” 2. Havia seis bispos católicos gregos na Romênia nessa época. Todos foram presos no fim de 1948. Cinco morreram na prisão (Ion Suciu, Valeriu Traian Frentiu, Alexandru Rusu, Vasile Aftenie e Ion Balan). O único sobrevivente, o bispo de Cluj-Gherla, Iuliu Hossu, ficou os próximos vinte dois anos na prisão e em prisão domiciliar antes de sua morte, ainda sob detenção3.
Os secretários de dois bispos também foram aprisionados: os padres Alexander Rusu e Foisor. Mas a limpeza foi ainda maior: forças de segurança apreenderam o Vigário Geral de Blaj Victor Macavei, cônegos Victor e Nicholae Pop, Ion Moldovan, Dumitru Neda e Ion Folea, juntamente com os professores de Teologia Septimius Todoran e Eugen Popa. A Côrte de Bucareste inteira foi presa: os padres Liviu Chinezu, Ion Chertes e Mare Vasile, e muitos outros. Em todos os lugares os detidos eram claramente escolhidos para enfraquecer a liderança católica: na cidade de Cluj, o padre Joseph Bal e o cônego Dumitru Manu; em Oradea, o cônego Juliu Hirtea; e em Lugoj, o padre Vasile Teglasiu4. Ion Ploscaru, consagrado bispo em 1948, foi também aprisionado no ano seguinte.
No início, todos os bispos eram mantidos em Dragoslavele, a residência de verão do patriarcado ortodoxo. O patriarca Justinian visitava-os freqüentemente, insistindo para que se tornassem ortodoxos. O Governo criara propaganda informando que os bispos estariam fora devido a um “retiro espiritual” 5. O regime necessitava que pelo menos um bispo cometesse apostasia para alegar a unificação da Igreja Católica com a Ortodoxa como lícita. Nenhum bispo os favoreceu. Quando falhou a persuasão por meios não violentos, os bispos foram então separados e mandados para diferentes localidades. Em 10 de maio de 1950, Vasile Aftenie, após sofrer terríveis torturas na prisão de Vacaresti, enlouqueceu e morreu, embora fosse ainda relativamente jovem e gozasse de boa saúde6. Os destinos dos outros bispos logo seguiram passos similares. Seiscentos membros do clero foram presos, cerca de um terço deles na União Soviética; apenas a metade sobreviveu7. O papa Pio XII reagiu à esse massacre com um tocante manifesto, na carta apostólica Veritatem Facientes, de 27 de março de 1952: “Desejamos beijar as correntes daqueles que, aprisionados injustamente, choram e se afligem pelos ataques contra a Religião, a ruína das instituições sagradas, pela salvação eterna de seu povo, agora correndo perigo, mais do que pelos seus próprios sofrimentos e liberdade perdida”.
Infelizmente, mais ou menos um quarto do clero católico grego romeno desistiu e se tornou formalmente ortodoxo durante a perseguição, temendo as repercussões para si mesmos e suas famílias. Como, antes do início do regime comunista, houvesse diversas oportunidades para que esses homens se tornassem parte da majoritária Igreja Ortodoxa Romena caso o desejassem, não há razão para acreditarmos que nenhuma dessas conversões “voluntárias” fosse sincera. (Muitos se retrataram mais tarde8). Os meios necessários para convencê-los são a prova: um padre foi atirado num esgoto cheio de ratos por dois dias. Acabou cedendo. Outro foi lançado num pântano, com resultados similares. Na cidade de Oradea, o padre Damian foi submetido à tortura por fogo e eletricidade até que cedesse. Em Sibiu, padre Onofreiu sobreviveu miraculosamente após ser pendurado, quando a corda arrebentou. Ele ainda se recusava a aceitar a Ortodoxia, e foi então declarado como louco e liberado — temporariamente. É fácil compreender porque um quarto do clero, sujeitado a tratamento desse quilate em tantos lugares diferentes, não foi forte o suficiente para opor-se a tudo isso.
O povo católico grego, porém, não se sujeitou facilmente a essa mudança forçada. O bispo de Oradea, Ion Suciu, antes de sua prisão, apelou ao seu povo por apoio financeiro após a suspensão do pagamento dos professores católicos pelo Governo. Os paroquianos responderam fervorosamente: o bispo recebeu mais do que o necessário para manter as escolas funcionando9. Enquanto os ataques anti-católicos se fortaleciam, o mesmo se dava com a defesa dos leigos. Quando agentes da polícia secreta romena, a Securitate, pretendiam prender o monastério inteiro em Bixad, a população local forçou o destacamento a abortar a missão. Entretanto, poucos dias depois, quinze caminhões cheios de agentes retornaram e levaram os monges remanescentes enquanto cercavam as pessoas com suas armas. Os monges apanharam e eram obrigados a renunciar ao Papa. Eles se recusaram. Um membro do grupo Securitate gritou: “Esses monges idiotas se importam mais com o papa do que com Deus e a Igreja. Vamos ver se depois de calarmos suas bocas o Papa virá salvá-los” 10. Padres, monges e freiras ortodoxos foram instalados à força nesse e em outros monastérios, conventos e igrejas. Onde houvesse resistência, eram presos e mandados à cadeia. Mas o povo freqüentemente boicotava o novo regime religioso.
As catedrais de Blaj, Oradea, Cluj e Lugoj foram “reconsagradas” como ortodoxas por bispos ortodoxos colaboradores. Em Lugoj, os fiéis tiveram de ser expulsos. Um deles, observando que a polícia estava lacrando as portas, gritou: “Lacrem quantas quiserem, senhores; os judeus também lacraram a tumba de Cristo, mas ele ressuscitou no terceiro dia” 11. Desnecessário dizer que a doutrina ortodoxa não permite conversão forçada ou o confisco de igrejas de seita diferenciada. Setenta e seis corajosos padres ortodoxos recusaram-se a se responsabilizar por igrejas confiscadas e participar desse abuso de poder político e religioso. Foram, então, encarcerados12. E pelo menos um bispo ortodoxo que se recusou a colaborar com os outros, Nicolas Popovici, foi preso e morreu — talvez por envenenamento — em 195813. Mas no geral a liderança ortodoxa foi responsável por grande injustiça contra os católicos.
Entretanto, os próprios ortodoxos também sofreram. Os antigos metropolitanos ortodoxos, Mihalcescu e Criveanu, não sendo simpáticos ao Comunismo, foram trocados pelo Governo por “abades do povo”. Para atingir esse objetivo, os abades e o regime difamaram os antigos líderes e pressionaram as instituições religiosas a removê-los de seus cargos. O próprio Mihalcescu teve provavelmente uma morte digna de um mártir. Após sua substituição e exílio em um monastério, onde gozava somente de liberdade limitada, é provável que tenha sido envenenado14.
Ironicamente, algumas das personalidades católicas marcadas pelo sofrimento foram generosas com os ortodoxos quando a situação se reverteu. De 1940 a 1944, a Hungria ocupou parte da Romênia, e o bispo Iuliu Hossu defendeu os direitos dos judeus15 e também dos ortodoxos, particularmente o bispo de Cluj, Nicolae Colan. Porém, quando o regime comunista ganhou poder, o mesmo bispo Colan confiscou e reconsagrou a catedral do bispo que havia sido seu benfeitor16. Compreensivelmente, eventos como esse e outros supracitados criaram um profundo racha entre ortodoxos e católicos durante todo os anos de governo comunista e nos anos pós-comunismo.
Em Paris, o superior de mosteiro Stefan Lucaciu escreveu ao Papa pedindo que rezasse para que fosse dada graça abundante aos católicos perseguidos. Em outra carta, ele lamentou o tratamento dado aos católicos gregos e romanos na Romênia, advertindo: “O oportunismo religioso que o regime comunista exibe hoje, amanhã se voltará furiosamente contra a Igreja Ortodoxa, pretendendo-se transformar lentamente numa plataforma política para alcançar objetivos políticos” 17. De fato, o governo romeno logo estaria perseguindo todos os grupos religiosos: Judeus, Ortodoxos, Católicos e Protestantes. Um dos mais emocionantes e aclamados relatos da perseguição nesse período é do pastor protestante Richard Wurmbrand, em seu Torturado por Cristo18. O rabino chefe da Romênia, Alexandru Safran foi sumariamente deposto e exilado. A campanha anti-católica, em razão da colocação religiosa e social especial dos católicos na Romênia, foi particularmente virulenta.
Ainda assim a cruel campanha não foi completamente bem sucedida. Em 1949, o ministro de cultos Stoian Stanciu, reclamou num discurso público dos sentimentos pró-catolicismo de alguns intelectuais19. “Pró-catolicismo” aqui pode significar tanto um apoio real à Igreja quanto uma simpatia generalizada pelos cristãos injustiçados. Em ambos os casos, porém, havia claramente uma séria oposição secular à política religiosa. Havia um precedente histórico para as inclinações pró-católicas entre os intelectuais romenos. I. C. Bratianu, figura de liderança político democrata no século dezenove, converteu-se ao Catolicismo em seu leito de morte. E Iuliu Maniu, líder do Partido Camponês Nacional, o mais importante político anti-fascista e democrata da nação, era um devotado católico grego (morreu nos anos 50 numa prisão comunista). Dentre a liderança ortodoxa, entretanto, a pressão governamental e a longa crença de que o catolicismo grego era ilegítimo na Romênia acabaram causando atos vergonhosos. O ilustre catedrático de religião Mircea Eliade externou a simpatia dos romenos pelos irmãos e irmãs católicos da época e lamentou que “não soubesse de um único bispo ortodoxo que tenha declarado publicamente seu desagravo à violência” 20.
O patriarca romeno Justinian teve um papel particularmente ruim nesse processo. Após a queda do Comunismo, seu nome foi lembrado com muita afeição pelos ortodoxos romenos pelos seus enérgicos esforços em favor da Igreja Ortodoxa21. Eliade, porém, pontificou que o patriarca brincava com fogo: “Hoje, em todo o mundo, o Cristianismo está sendo inteiramente atacado sem piedade, é atacado por aqueles que tempos atrás o condenaram à morte, e essas mesmas pessoas são as mesmas que acolheram Justinian... Hoje ou amanhã os bispos ortodoxos poderão estar junto aos seus irmãos na prisão e no exílio. Eles também serão mártires, mas após terem sido expostos e degradados sob os olhos dos fiéis”. Reconhecendo que ninguém tem o direito de exigir que outro se torne um mártir, Eliade apelou aos bispos que aceitassem que, sem o desejo de se tornar mártir pela verdade, os assessores do bispo tornam-se apenas madeira e metal.
Quaisquer que fossem as racionalizações históricas dos líderes ortodoxos contra a legitimidade da Igreja Católica Grega romena, elas não poderiam ser usadas também contra a Igreja católica Romana de rito latino. As igrejas romanas estavam, em sua maioria, localizadas na Transilvânia e na Moldavia e eram ligadas por etnias minoritárias historicamente conectadas à Roma desde os séculos XII e XIII. Essas igrejas estavam florescendo, e contavam com cerca de 1.200.000 adeptos antes do advento do Comunismo. Ainda assim, seus direitos plenos não poderiam ser reconhecidos sem o risco de reivindicações do reconhecimento do Estado das igrejas católicas gregas também. O reconhecimento de qualquer uma dessas igrejas nunca foi uma real possibilidade. Gheorghiu-Dej, Secretário do Partido Comunista, anunciou peremptoriamente em fevereiro de 1948 que o único obstáculo à “democracia” na Romênia era a Igreja Católica22. E continuou: “A nova Constituição romena não permitirá que os cidadãos católicos submetam-se às diretrizes de um mandante estrangeiro; não será permitido aos romenos serem tentados pelo filhote de ouro americano, em cujos pés o Vaticano deseja levar seus fiéis.” 23.
Quando as igrejas católicas romanas insistiram no reconhecimento oficial, o Regime Comunista romeno adotou a dupla estratégia de tentar silenciá-los com uma mão enquanto, com a outra, encorajava uma Igreja Católica Romana dividida e subserviente ao Estado — tudo isso sob a cobertura legal de impedimento dos “agentes do imperialismo” e proteção da “segurança do Estado”. Dois bispos foram acusados em nome de atitudes anti-democráticas: Aron Marton de Alba Julia na Transilvânia e Anton Durcovici de Jassy na Moldavia. Atos secretos começaram a ser usados para extirpar o clero recalcitrante. Em junho de 1949, Anton Bisoc, o Superior franciscano, recebeu um telegrama, provavelmente do bispo Durcovici, pedindo que fosse vê-lo imediatamente. Bisoc partiu e nunca mais foi visto novamente. Seu assistente, padre Herciu, foi procurá-lo. Ele também desapareceu sem deixar vestígios24. A mensagem era clara: a insistência da Igreja Romana seria tratada da mesma forma que com os católicos gregos.
Os bispos Marton e Durcovici logo foram presos. As outras quatro dioceses, sem os seus bispos, já haviam sido impedidas sob um caráter técnico legal: o Governo exigia que uma diocese tivesse pelo menos 750.000 fiéis para ser reconhecida — o que não seria problema para os ortodoxos, mas um impedimento virtual para quase todos os centros católicos. Durcovici foi tão maltratado na prisão que, ao ser atirado nu na cela, estava irreconhecível. Logo depois desapareceu e nunca mais ouviu-se falar dele. Padre Rafael Friedrich, um outro prisioneiro que passava por sua cela, ouviu seus gemidos. Dizendo “Laudetur Jesus Christus” [“Louvado seja Jesus Cristo”] para que o bispo soubesse que era católico, o padre ouviu a resposta: “Hic Antonius moribundus” [“Antônio está morrendo aqui”]. Por volta de 1949 não havia mais bispos católicos romanos na ativa na Romênia. Quase todas as igrejas estavam fechadas. Os católicos romanos eram marcados em suas carteiras de identidade. Na diocese de Jassy, 106 paróquias foram ocupadas por milícias. Durante uma das ocupações em Faraoani, os militares e o povo entraram em guerra. Foram ouvidos tiros. Uma pessoa caiu morta e quatro foram seriamente feridas nos degraus da igreja25. Cenas semelhantes ocorreram em vários lugares.
Em 1950, todas as nações comunistas estavam usando suas igrejas como apoio ao movimento anti-nuclear centralizado no Apelo de Estocolmo. Em termos restritos, qualquer cristão poderia apoiar uma oposição à guerra nuclear. Mas na verdade o apelo transformou-se numa arma ideológica contra o Ocidente e um apoio internacional para a União Soviética. A Igreja Católica Romana da Romênia teve especial importância nessa campanha promocional. Se seus líderes apoiassem o Governo, poder-se-ia argumentar plausivelmente que repudiavam o Vaticano e a política supostamente pró-Ocidente da Santa Sé.
O Governo romeno levou cerca de cem padres, leigos e líderes de paróquias de rito latino para um congresso em Targu-Mures para induzi-los a assinar uma petição e aceitar a posição que desejava que ocupassem dentro da sociedade do país. Eles se recusaram, porém acabaram cedendo após extremas ameaças. Foram ordenados então a conseguirem aprovação dos vigários que haviam substituído os bispos na posição de líderes de diversas dioceses — o que não conseguiram realizar. Mas no estado de fraqueza no qual se encontrava a Igreja, o Governo tentou outra trama, preparando um Estatuto da Igreja, na verdade uma espécie de concordata, que parecia dar à Igreja Católica Romana tudo que desejava: o Papa como líder moral e dogmático supremo, os bispos como soberanos em suas dioceses, assim como concessões em outros pontos contestados. O último artigo do estatuto, porém, estipulava que o exercício desses direitos seria dado apenas com a aprovação do Governo, o que efetivamente anulava tudo que havia antes. Mais além, o contato com a Santa Sé somente poderia realizar-se através dos Ministros do Culto e de Assuntos Exteriores. Ficava claro, até mesmo para os líderes católicos restantes, que era impossível assinar tal documento. Em maio de 1950 o Governo realizou sua última cartada. O vigário geral de Alba Iuliua, Louis Boga, foi preso, e Marcu Glasser, vigário de Jassy, preso, torturado e morto em 25 de maio26.
Os comunistas romenos também aboliram qualquer contato com o Vaticano. (Até mesmo nos anos 60, aos bispos católicos romenos não era permitida a presença no Segundo Concílio do Vaticano, e padres ainda eram presos27). O Governo começou a cisão com o Vaticano ao expulsar o Embaixador Papal, Monsenhor Gerald O’Hara, americano de nascimento, marcado como espião da CIA e agente do Imperialismo americano. Sob ordens de Pio XII, O’Hara consagrou em segredo diversos bispos e administradores apostólicos. Esses homens — Ion Ploscaru, Ion Dragomir, Ion Chertes, Iuliu Hirtea e Alexandru Todea (mais tarde feito Cardeal) enfrentaram tremendas dificuldades; quase todos sobreviveram às perseguições, mostrando que a estratégia de Pio XII havia tido sucesso. Eles providenciaram uma certa continuidade à Igreja no momento de sua reerguida após a queda do Comunismo em 1989. Mais além, antes da expulsão de O’Hara, bispos católicos de rito grego e latino editaram uma declaração conjunta ao Governo protestando que “três milhões de cidadãos estão sendo tratados como inimigos do povo”. Duas centenas de padres foram presos por conta disso. Muito embora o governo tramasse lentamente contra os católicos de rito latino por medo de provocar uma reação por parte das Nações — Hungria, Alemanha, Croácia, Eslováquia e Bulgária — de cujos lugares provinham essas minorias étnicas católicas, ele se movia firmemente buscando a eliminação do Catolicismo. Todos os leais padres católicos listados na Embaixada acabaram na prisão28.
Podemos ter uma vaga idéia do notadamente terrível tratamento que os prisioneiros católicos receberam na Romênia através dos relatos dos que sobreviveram para contar suas próprias histórias e as dos outros internos. Um dos mais proeminentes dentre estes, padre Tertullian, antigo vigário-geral da diocese de Cluj, foi preso durante as primeiras ondas de repressão em 1947. Seu crime, de acordo com o juiz que deu-lhe a sentença: “Não há evidências contra você, mas desde o momento que está preso, deve ser culpado. Culpado por ter sido preso” 29. Com essa compreensão de Justiça por parte do Regime, não é surpresa para nós que tenha sido solto somente dezessete anos depois, após acumular diversas experiências na prisão.
Como muitos que sobreviveram às injustiças, padre Langa retomou a liberdade acreditando que “fui preso como parte de um plano para realizar a santificação de minha vida”. Ele confortou e acabou por converter muitos prisioneiros, aprendendo algo sobre os sofrimentos necessários à vida cristã: “A prisão para mim foi como um seminário nunca freqüentado antes”. E os dezessete anos foram “os mais belos e produtivos de minha existência” 30. É claro que somente um homem especial poderia dizer essas palavras, e os fatos terríveis que testemunhou para tirar essas conclusões fazem sua declaração ainda mais notável.
Uma das punições mais brutais era a que os presos chamavam de “maratona”. Ela consistia em fazê-los correr ou marchar enquanto um cachorro, treinado especialmente para saltar neles se parassem de se mover, seguia-os passo a passo. A ordem durava tanto que, às vezes, padre Langa começava a ter alucinações. Num episódio, “eu parecia estar andando sobre diamantes, mas na verdade as solas de meus pés tinham ficado completamente inchadas. Então comecei a ver, como se olhando através das paredes da cela, um belo jardim, um pomar cheio de maçãs...Então caí, inconsciente, batendo a cabeça na parede”. Naturalmente o cachorro o atacou e a dor o trouxe de volta. Começou então a correr novamente sem saber o que fazia. “Mais tarde, o guarda contou-me que continuei correndo por 59 horas sem parar. Parece inacreditável, mas por que o guarda iria mentir?” 31
Em outro exercício sádico, os presos descobriram que as autoridades haviam ordenados que fossem mortos por exposição ao frio. A única forma de se defenderem contra o congelamento mortal era caminharem fortemente sem parar. O preso da cela ao lado de Langa parou num dia. Ele levantou-o e fez com que se movesse novamente. O homem ressentiu ter sido acordado de um sonho belo: “Eu rezei ajoelhado para que Deus trouxesse a lua em minha cela e Ele ouviu minhas preces. Ele mandou-me a lua e estava me preparando para comê-la quando você me acordou”. Na manhã seguinte o corpo do homem foi levado embora. Seus colegas acreditaram que talvez seu sonho tivesse sido uma espécie de consolo, um símbolo Eucarístico, antes que ele deixasse este mundo32.
Vários outros também sucumbiram. Padre Langa atribui parcialmente sua sobrevivência aos “mestres espirituais” que teve a sorte de encontrar quando jovem, incluindo padre Iosif Pop, Ion Miclea (um filósofo amigo de Jacques Maritain) e Monsenhor Vladimir Ghika, todos que acabaram se tornando mártires ou confessores. Langa também fornece informações sobre alguns dos líderes religiosos que desapareceram cedo com as perseguições. Vasile Aftenie, o vigário geral de Bucareste, foi o primeiro bispo mártir na Romênia. Como sempre, as autoridades comunistas tentaram cooptá-lo, oferecendo imediatamente a ele a Sé Episcopal Ortodoxa da Moldavia, com a promessa de fazê-lo mais tarde um patriarca ortodoxo em Bucareste, se ele rompesse com Roma. Aftenie recusou-se, dizendo: “Minha Nação e tampouco minha fé estão à venda”. O resultado foi predestinado: “Ele foi subseqüentemente torturado até a morte. Seu corpo foi desfigurado, e os braços deslocados não se conectavam mais ao tronco” 33.
Igualmente corajoso foi o bispo Ion Suciu, um jovem cheio de energia que, antes de sua prisão, proclamara publicamente num discurso na Catedral de rito latino de São José em Bucareste: “Devemos ter a coragem e a dignidade de sermos cristãos mesmo nesse período de Comunismo e ateísmo”. Quando o procurador soviético Vychinski ouviu seu pronunciamento, disse: “Essa boca deve ser calada” — o que logo foi feito pelas autoridades romenas. Um outro bispo, Liviu Chinezu, consagrado secretamente, morreu em 195534 na prisão Sighet, uma instituição notoriamente terrível que era o lugar preferido para a detenção de líderes romenos religiosos e políticos. O diretor da prisão, Vasile Ciolpan, aparentemente desejou fingir que o bispo morrera de causas naturais. Ele ordenara que a janela de sua cela permanecesse aberta, apesar do tempo gelado do meio de janeiro. Chinezu então congelou até a morte35. Num período de cinco anos, sabe-se que pelo menos 52 presos de Sighet morreram, e provavelmente muitos desconhecidos morreram também36.
Essas primeiras mortes foram o prenúncio de maiores atrocidades. No início dos anos 50, aproximadamente 180.000 foram mandados aos campos de concentração, freqüentemente os mesmos campos usados pelos nazistas37. Os comunistas romenos foram os pioneiros no uso de técnicas de lavagem cerebral na Europa Oriental, muitas vezes dando a elas uma aparência satânica. O prisioneiro era forçado a denunciar todos aqueles que mais amava: “amigos e família, sua esposa ou namorada, e seu Deus se fosse um fiel” 38. O carcereiro romeno Eugen Turcanu criou um tratamento especial para seminaristas: “Alguns tiveram suas cabeças repetidamente enfiadas num balde com urina e fezes enquanto os guardas entoavam uma paródia do rito batismal. Uma vítima que havia sido sistematicamente torturada dessa maneira desenvolveu uma resposta automática que perdurou por dois meses: todas as manhãs, para grande deleite de seus re-educadores, ele mesmo enfiava sua cabeça no balde” 39.
Até mesmo uma degradação da religião como essa não foi suficiente:
Turcanu também obrigou os seminaristas a tomarem parte em missas negras regidas por ele mesmo, especialmente durante a Semana Santa ou na Sexta Feira da paixão. Alguns re-educadores participavam como coro; outros vestiam-se como padres. A liturgia de Tuscanu era extremamente pornográfica, e ele repaginava a original de maneira demoníaca.
[...]
Turcanu eventualmente foi preso e executado por “crimes contra a Humanidade, que desacreditaram o regime comunista aos olhos das pessoas e da opinião mundial” 40. De fato, ele estava cumprindo ordens de cima, provavelmente do General Nikolski, para conduzir a experiência de lavagem cerebral. Mil jovens, todos crentes, foram colocados em roda e sujeitados ao sistema “Pitesti”. De acordo com um relato: “Eram torturados de tal maneira que todos – absolutamente todos – tornaram-se delatores, porque foram privados de sua natureza humana, tornando-se meros robôs nas mãos dos oficiais políticos. Foram despersonalizados” 41. Na forma talvez mais brutal de técnicas de controle da mente do século, os meninos foram torturados, física e moralmente, até abandonarem suas antigas crenças. E, ainda pior, uma vez que estivessem dentro do processo, eram obrigados a exercer a mesma lavagem cerebral em outro grupo de estudantes, temendo todo o tempo que o mínimo esgar de fraqueza iria colocá-los novamente dentre os torturados. É fácil imaginar as dores de consciência produzidas por essa tática.
A lavagem cerebral seguia os passos do método Pavloviano. Primeiramente pedia-se aos alunos que abjurassem suas antigas crenças ou seriam torturados. Quando se recusavam, o que a maioria inicialmente fazia, apanhavam, eram obrigados a limpar o chão com um farrapo entre os dentes, e tinham de comer feito animais em tigelas nas quais também defecavam. À noite, um aluno já “re-educado” sentava-se na cabeceira da cama de outro ainda em processo. No momento que o novo aluno adormecia, o outro batia em seus pés com um tubo de borracha. A dor funcionava para condicionar o jovem a ter uma reação inconsciente negativa a tudo que anteriormente era tido como bom42.
Após esses reflexos terem sido estabelecidos, a lavagem cerebral atacava as crenças religiosas. Cometiam-se sacrilégios como os descritos acima. Os sujeitos eram forçados a realizar crimes monstruosos e desvios sexuais tão freqüentes que, confusos pelas pancadas e a falta de sono, começavam a acreditar nos opressores e perder o contato com a verdade. Nesse ponto, eram induzidos a uma nova lealdade ao regime comunista, aos seus próprios torturadores. Eles mesmos tornavam-se torturadores, tendo de demonstrar sua sinceridade sob a constante ameaça de retorno à tortura: “O grande obstáculo... era o medo apavorante, debaixo de cada poro da vítima, de que um dia o terror pudesse recomeçar” 43. Temos a impressão que a experiência somente era interrompida para dar a eles um intervalo para computarem sua efetividade. Um dos jovens que sobreviveram para contar, Roman Braga, eventualmente tornou-se padre ortodoxo. Ele descreve a experiência de forma rigorosa: “Acredito que não haveria outra mente além de Lúcifer capaz de imaginar o sistema Pitesti, que mantém homens perdidos entre ser ou não ser, no limite entre a loucura e a realidade, torturados pela idéia de que possam desaparecer — não como entidade física, mas como um ser espiritual” 44. Embora as torturas fossem calculadas cuidadosamente para não matar os jovens, cerca de quinze deles morreram durante sua re-educação45.
Dentre tanto sofrimento e blasfêmia nas prisões, notavelmente podemos notar também pontos de grande luz. Um deles referia-se à grande figura de Monsenhor Vladimir Ghika, cujo processo de beatificação está em andamento. Ghika era neto do último Príncipe da Moldavia e também obtivera o título de mártir. Sua dedicação à causa católica era inabalável. Ele havia se convertido ao catolicismo anteriormente porque acreditava que ser católico era ser “ainda mais ortodoxo”46. Um homem de imensa cultura e inteligência e de muitos contatos internacionais, ele escolhera permanecer na Romênia após a Segunda Guerra Mundial, mesmo sabendo dos riscos dessa decisão para alguém com seu passado familiar e religioso. Muitas pessoas nos anos 90 ainda atestavam o fato, na Romênia, de que “deviam tudo a ele”, incluindo a resistência ao Comunismo, suas vocações, e sua própria fé47. Nas prisões, ele fora responsável pelo retorno à crença de muitos fiéis, e também por descrentes que desenvolveram ardentes vocações. Tragicamente terminou sua vida durante esse trabalho, ainda preso48.
Outro heróico líder religioso foi Aron Marton, bispo de Alba Iulia. Conforme já havíamos visto, foi logo preso e ficou de 1949 a 1955 na prisão. Foi gravemente ferido num “acidente de automóvel” criado por agentes do Governo, porém também sobreviveu. Os protestos de seu povo conseguiram soltá-lo e deixá-lo sob carceragem domiciliar. Sua coragem e seu ativismo, porém, a despeito de todas as ameaças, faziam dele uma figura muito adorada. Marton assistia ao culto da igreja grega tanto quanto podia, o que era incomum para um bispo de rito latino. Por décadas, antes de sua morte em 1980, ele precisou fazer seu caminho cuidadosamente por entre restrições impostas pelo Governo, censura, a presença de prováveis padres-espiões, e inúmeras outras dificuldades.
Padre Alexandru Ratiu, um sobrevivente de dezesseis anos no sistema prisional romeno (de 1948 até a anistia geral aos prisioneiros políticos ocorrida em 1964, quando Nicolae Ceaucescu tomou a liderança do país), comenta que a prisão teve efeito inesperado em padres e outros crentes, assim como em antigos ateus: “Na prisão, ou a pessoa enlouquece ou se torna um santo” 49. Para muitos que sofreram encarcerados, com freqüência este era o primeiro momento em suas vidas que eram obrigados a confiar somente na oração e no apoio de Deus: “Nunca fomos tão felizes. Nunca sentimos tão intimamente a presença de Deus; e nunca rezamos tão seriamente, confidencialmente e com tanto sucesso quanto dentro dos alojamentos da prisão” 50. Após os relatos angustiados das torturas, mortes e do sádico tratamento experimentado por todos os presos, essas palavras não devem ser ditas com leveza. Este foi, claro, um caminho terrível em direção à piedade e à virtude. Mas tantas pessoas de países diferentes, mesmo sob regimes divergentes como o Nazismo e o Comunismo, deram relatos similares, que podemos acreditar que talvez essas experiências tenham mesmo um efeito estimulante à espiritualidade, agora que em várias partes do mundo está novamente assegurada a liberdade religiosa.
[...]
A história da perseguição e do martírio romeno não encontra similares no século vinte ou em nenhum outro. Como foi escrito no Osservatore Romano em 1948, quando as perseguições ainda iniciavam: “Nenhum caso similar de violência moral, de perseguições, de Via Crucis pela liberdade, pela personalidade e pela dignidade humana pode ser encontrado em todas as páginas da História” 51. Pelo fato de que a Igreja já existe há dois milênios, essas são palavras fortes, porém verdadeiras. Talvez esse terrível exemplo da Romênia encoraje os povos de boa vontade a tentarem se certificar de que as páginas da história futura nunca mais tolerem tamanha infâmia.
(Robert Royal, “The Catholic Martyrs of the Twentieth Century”, Crossroad Publishing Company, New York, 2000)
  1. 1. Didier Rance, Roumanie: Courage et Fidelité, L’eglise gréco-catholique unie ( Paris: Bibliothèque AED, 1994 ), 22.
  2. 2. Abbé Pierre Gherman, L’âme roumaine écartelée: Faits et documents ( Paris: Les Editions du Cèdre, 1955 ), 135.
  3. 3. R.G.Roberson, “The Church in Romania”, New Catholic Encyclopedia, supplemental vol. 14, 335.
  4. 4. Gherman, L’âme roumaine écartelée, 135-36.
  5. 5. Alexander Ratiu e William Virtue, Stolen Church: Martyrdom in Communist Romania, ( Huntington, Ind.: Our Sunday Visitor Press, 1979 ), 27.
  6. 6. Gherman, L’âme roumaine écartelée, 136.
  7. 7. Alexander F. C. Webster, The Price of Prophecy: Orthodox Churches on Peace, Freedom, and Security ( Washington, D.C.: Ethics and Public Policy Center, 1993 ), 119.
  8. 8. Ion Ploscaru lista esses que se retrataram posteriormente em Lanturi si teroare (Timisoara: Signata, 1993).
  9. 9. Rance, Roumanie, 39.
  10. 10. Gherman, L’âme roumaine écartelée, 136.
  11. 11. Ibid.,142.
  12. 12. Webster, the Price of Prophecy, 119.
  13. 13. Ratiu e Virtue, Stolen Church, 17.
  14. 14. Ibid., 119.
  15. 15. S. A. Prundus, O.S.B.M., e C. Plaianu, Cardinalu Iuliu Hossu (Cluj: Unitas, 1995), 131-32.
  16. 16. Ratiu e Virtue, Stolen Church, 17.
  17. 17. Citado em sua carta de 12 de outubro de 1948 ao Cardeal Tisserant na Alemanha, L’âme roumaine écartelée, 148.
  18. 18. Richard Wurmbrand, Tortured for Christ: Today’s Martyr Church (London: Hodder & Staughton, 1967).
  19. 19. Gherman, L’âme roumaine écartelée, 147.
  20. 20. Ibid., 153.
  21. 21. Webster, The Price of Prophecy, 91.
  22. 22. Janice Broun, “The Latin-Rite Roman Catholic Church in Romania”, Religion in Communist Lands 12, no. 2 ( Summer 1984 ): 168.
  23. 23. Ratiu e Virtue, Stolen Church, 126.
  24. 24. Gherman, L’âme roumaine écartelée, 162.
  25. 25. Ibid., 163.
  26. 26. Ibid., 172.
  27. 27. Broun, “The Latin-Rite Roman Catholic Church in Romania”, 1970.
  28. 28. Ibid., 169.
  29. 29. Rance, Roumanie, 167.
  30. 30. Ibid., 167-68.
  31. 31. Ibid., 170.
  32. 32. Ibid., 172.
  33. 33. Ibid., 166.
  34. 34. Ibid.
  35. 35. Ratiu e Virtue, Stolen Church, 158.
  36. 36. Stéphane Cortois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Karel Bartosek e Jean-Louis Margolin, The Black Book of Communism: Crimes, Terror, Repression, trans. Jonathan Murphy e Mark Kramer ( Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1999 ), 400.
  37. 37. Ibid., 419.
  38. 38. Ibid., 420.
  39. 39. Ibid., 421.
  40. 40. Ratiu e Virtue, Stolen Church, 111.
  41. 41. Extraído do relato de D. Bacu, The Anti-Humans, em Ratiu e Virtue, Stolen Church, 92.
  42. 42. Ratiu e Virtue, Stolen Church, 100-101.
  43. 43. De Bacu, citado em ibid., 108.
  44. 44. Ibid., 110.
  45. 45. Ibid., 98.
  46. 46. Rance, Roumanie, 186.
  47. 47. Ibid., 187.
  48. 48. Em Ghika, veja Hélène Danubia, Prince et Martyr: Monseigneur Vladimir Ghika, l’apôtre du Danube (Paris: Pierre Téqui, 1993).
  49. 49. Ratiu e Virtue, Stolen Church, 26.
  50. 50. Ibid., 73.
  51. 51. Citado em Ratiu e Virtue, Stolen Church, 175.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Derrubando mitos: a Igreja excomungou o nazismo desde o início


Importante descoberta da “Pave the Way Foundation”

Por Antonio Gaspari
NOVA YORK, quinta-feira, 1º de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Nada de "Papa de Hitler". Nada de colaboradores voluntários do nazismo. Alguns documentos encontrados na Alemanha pela Pave the Way Foundation (PTWF) provam que, desde setembro de 1930, os bispos católicos haviam excomungado o Partido Nazista de Hitler.

Nos documentos achados por Michael Hesemann, colaborador da PTWF, consta que, em setembro de 1930, três anos antes que Adolf Hitler subisse ao poder, a arquidiocese de Mogúncia condenou de forma pública o Partido Nazista.
Segundo as normas publicadas pelo Ordinário de Mogúncia, estava "proibido a qualquer católico inscrever-se nas filas do Partido Nacional-Socialista de Hitler".
"Aos membros do partido hitleriano não era permitido participar de funerais ou de outras celebrações católicas similares."
"Enquanto um católico estivesse inscrito no partido hitleriano, não podia ser admitido aos sacramentos."
A denúncia da arquidiocese de Mogúncia foi publicada em primeira página pelo L'Osservatore Romano, em um artigo de 11 de outubro de 1930.
O título do artigo é: "Partido de Hitler condenado pela autoridade eclesiástica". Nele se declarava a incompatibilidade da fé católica com o nacional-socialismo.
Nenhuma pessoa que se declarasse católica podia converter-se em membro do partido nazista, sob pena da exclusão dos sacramentos.
Em fevereiro de 1931, a diocese de Munique confirmou a incompatibilidade da fé católica com o Partido Nazista.
Em março de 1931, também a diocese de Colônia, Parderborn e as das províncias de Renânia denunciaram a ideologia nazista, proibindo de forma pública qualquer contato com os nazistas.
Indignados e furiosos pela excomunhão emitida pela Igreja Católica, os nazistas enviaram Hermann Göring a Roma com a petição de audiência com o secretário de Estado Eugenio Pacelli. No dia 30 de abril de 1931, o cardeal Pacelli rejeitou encontrar-se com Göring, que foi recebido pelo subsecretário, Dom Giuseppe Pizzardo, que tinha a tarefa de anotar tudo o que os nazistas pediam.
Em agosto de 1932, a Igreja Católica excomungou todos os dirigentes do Partido Nazista. Entre os princípios anticristãos denunciados como hereges, a Igreja mencionava explicitamente as teorias étnicas e o racismo.
Também em agosto de 1932, a Conferência Episcopal alemã publicou um documento detalhado no qual eram dadas instruções de como relacionar-se com o Partido Nazista. Nele, estava escrito que era absolutamente proibido aos católicos que fossem membros do Partido Nacional-Socialista. Quem desobedecesse, seria imediatamente excomungado.
Também estava escrito que "todos os Ordinários declararam ilícito pertencer ao Partido Nazista", porque "as manifestações de numerosos chefes e publicitários do partido têm um caráter hostil à fé" e "são contrárias às doutrinas fundamentais e às indicações da Igreja Católica".
Em janeiro de 1933, Adolf Hitler chegou ao poder e as associações católicas alemãs difundiram um folheto intitulado: "Um convite sério em um momento grave", no qual consideravam a vitória do Partido Nacional-Socialista como "um desastre" para o povo e para a nação.
No dia 10 de março de 1933, a Conferência Episcopal alemã, reunida em Fulda, enviou um apelo ao presidente da Alemanha, o general Paul L. von Beneckendorff und von Hindenburg, expressando "nossas preocupações mais graves, que são compartilhadas por amplos setores da população".
Os bispos alemães se dirigiram a von Hindenburg manifestando seu temor de que os nazistas não respeitassem "o santuário da Igreja e a posição da Igreja na vida pública". Por isso, pediram ao presidente uma "urgente proteção da Igreja e da vida eclesiástica".
Os bispos católicos haviam previsto isso, mas não foram escutados.
Os documentos encontrados pela PTWF são de notável importância porque põem um fim às repetidas calúnias que pretenderam manchar a Igreja Católica como diligente colaboradora do nazismo, quando na verdade foi a primeira em denunciar sua periculosidade.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cristo, esperança e consolo no cotidiano


ANCONA, domingo, 11 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos as palavras do Papa Bento XVI pronunciou hoje ao introduzir a oração do Angelus no estaleiro de Ancona (Itália), ao concluir a missa de encerramento do 25º Congresso Eucarístico Nacional.

* * *

Queridos irmãos e irmãs,
antes de concluir esta solene celebração eucarística, a oração do Angelus nos convida a refletir sobre Maria, para contemplar o abismo de amor do qual procede o sacramento da Eucaristia.
Meditando o mistério da Encarnação, nos dirigimos todos, com a mente e o coração, ao Santuário da Santa Casa de Loreto, do qual só poucos quilômetros nos separam. A terra de Marche é toda iluminada pela presença espiritual de Maria em seu santuário histórico, que torna ainda mais belas e doces estas colinas. A ela confio neste momento a cidade de Ancona, a diocese, Marche e toda Itália, para que no povo italiano esteja sempre viva a fé no mistério eucarístico, que em cada cidade e em cada povo, dos Alpes à Sicília, faça presente Cristo Ressuscitado, fonte de esperança e de consolo para a vida cotidiana, especialmente nos momentos difíceis.
Hoje nosso pensamento vai também para o 11 de setembro, 10 anos atrás. Ao recordar o Senhor da Vida junto das vítimas dos ataques que aconteceram naquele dia, e suas famílias, convido os líderes das nações e os homens de boa vontade a rejeitar sempre a violência como solução para os problemas e a resistir à tentação do ódio e a trabalhar na sociedade, inspirando-se nos princípios da solidariedade, da justiça e da paz.
Por intercessão de Maria Santíssima, peço, por fim, ao Senhor que recompense todos aqueles que trabalharam na preparação e organização deste Congresso Eucarístico Nacional, e a eles calorosamente dirijo os meus sinceros agradecimentos.
Angelus Domini…

[Traduzido por ZENIT
©Libreria Editrice Vaticana]

Festa do Santíssimo Nome de Maria


AFesta do Santo Nome de Maria foi concedida por Roma, em 1513, a uma diocese naEspanha, Cuenca. Suprimida por São Pio V, foi restaurada pelo Papa Sixto V em 1671e, em seguida, estendido para o Reino de Nápoles e Milan. Em 12 de setembro de1683, tendo João III Sobieski com seus poloneses vencido os turcos que estavamsitiando Viena e ameaçando a Cristandade, o Bem-Aventurado Inocêncio XI, emação de graças, estendeu a festa à Igreja universal e fixou para o domingo dentroda Oitava do Natal . O santo Papa Pio X a levou de volta para 12 de setembro.

O Martirológio Romano diz:
Santíssimo Nome de Maria: neste dia se evoca o inefável amor da Mãe de Deus paracom seu Santíssimo Filho e é proposto aosfiéis a figura da Mãe do Redentorpara que seja devotamente invocada.
* * *
Na história daexegese, houve diferentes interpretações do significado do nome de Maria:

1) "Amargura”
Este significado é dado por alguns rabinos: o nome vem da raiz MRR =Miryam, em hebraico "ser amargo." Estes rabinossustentam que Maria, irmã de Moisés,foi chamado assim porque, quando ele nasceu, o Faraó começou “a tornar amarga a vida dos israelitas”, e tomou a decisão de matar as crianças hebreias.
Essa interpretação pode ser aceita pornós cristãos se pensarmos quanta dore amargura sofridos por Maria na corredenção:
Todos vós quepassais pelo caminho, olhai e vêde se há dor como aminha dor...” (Lm 1,12)
Além disso, o diabo, de quem o Faraóé a figura, faz guerra à descendência damulher, tornando amarga a vida para verdadeiros devotos de Maria, que, poroutro lado, nada temem, protegidos por sua Rainha.

2) "Mestra e Senhora do Mar"
De acordo com essa interpretação, o nome de Maria deriva do hebraico Moré (Mestra-Senhora) + YAM (=mar): como Maria, irmã de Moisés, que era a condutora das mulheres hebreiasna travessia do Mar Vermelho e Mestra no canto da vitória (cf. Ex 15,20), então "Maria é a mestra e Senhora do Mar desteséculo, que nos faz atravessá-lo,  conduzindo-nos para océu" (Santo Ambrósio, Ex. às Virg.).
Outros autores antigos sugerem esta interpretação: Fílon, São Jerônimo,Santo Epifânio.
Este paralelo tipológico entre Maria,irmã de Moisés e de Maria,Mãe de Deus, é tirado de Santo Agostinho, que chama Maria "tympanistria nostra” (Maria, airmã de Moisés, é a musicista dos tímpanos (timpanista) doshebreus; Maria Santíssima é a nossa timpanista, a timpanista dos cristãos: ocântico de Moisés do Novo Testamento seria o Magnificat, cantadoprecisamente por Maria: esta interpretação é apoiada hoje pelo Pe. Le Deaut, um dos maiores conhecedores da literatura targúmica judaica: segundo este autor, São Lucas teria feito voluntariamente este paralelismo.

3) “Iluminadora,Estrela do mar "
Deacordo com essa interpretação, o nome de Maria deriva do prefixo nominal (ou particípio)M + 'OR (hebraico = luz) + YAM (= mar): assim pensam São Gregório o Taumaturgo,Santo Isidoro, São Jerônimo.
Algunsautores acreditam que S. Jerônimo, na realidade, não interpretou o nome como"Stella Maria”, Estrela do mar, mas como "Stilla maris", ou seja,gota do mar.
Apresença do radical "mar" no nome de Maria sugeriu diferentes interpretaçõese comparações de Maria com o "mar":
Pedrode Celles (+1183) entende Maria por “mar de graças", donde São Luis Montfortcompleta: "Deus Pai reuniu todas as águas e chamou o mar, reuniu todas asgraças e chamou Maria" (Tratado da verdadeira devoção, 23).
Eclesiastes1,7  diz: "todos os rios entram nomar". São Boaventura sustenta que todas as graças (= todos os rios) quetiveram os anjos, os apóstolos, os mártires, os confessores, as virgens, são"confluem" em Maria, o oceano de graças.
Santa Brígida assevera: "É por isso que é o nome de Maria é agradável aosanjos e terrível aos demônios"
___
Ave MarisStella, Mater Deialma, atque Sempervirgo, Felix porta coeli...(Ave, Estrela do Mar, Mãe de Deus e Sempre Virgem, Feliz Porta do Céu)
Este hino pareceuma meditação sobre o nome de Maria, em referência à Maria, irmã deMoisés: “Ave Maris Stella” (cf. o significado 3); "MaterDei ALMA atque Sempervirgo": Maria, irmã de Moisés, é chamado emÊxodo 2,8, `Almah = "virgem" e, etimoligamente “escondida”; “felix porta coeli”,ou seja, “Senhora do Mar desteséculo, ao qual Ela nos faz atraversar (cf. significado 2).

4) CHUVASAZONAL
De acordo com essa interpretação, o nome de Maria deriva deMoré (em hebraico, primeira chuva sazonal). Maria é considerada como Aquela que envia do céu uma "chuva de graça" e "chuva de graça em si."
Esta interpretação, que C. A. Lapide atribui à Pagninus, éparcialmente recuperada por São Luisde Montfort na Oração Ardente: comentando o Salmo 67,10 que diz “pluviam voluntariam elevasti Deus, hereditatemtuam laborantem confortasti"(Derramastas lá do alto uma chuva generosa e vossa herança, jácansada, renovastes), Montfort diz: “Qual é, Senhor,essa chuva voluntária que separastes e escolhestes para vossa enfraquecidaherança senao esses santos missionários, filhos de Maria vosssa Esposa, aosquais deveis congregar e separar do mundo, para bem de vossa Igreja, tão enfraquecidae maculada pelos crimes de seus filhos?” (Prece Ardente, 20). Maria, chuva de graças, formará e enviará à terra uma chuva de missionários.

5) ALTURA
De acordo com essa interpretação, deriva o nome de Maria de Marom (Heb.Altura, excelsis): esta hipótese é apoiada, entre os antigos por Caninius e, entre os modernos,a partir de Vogt, especialmente com baseem descobertas recentes dostextos ugaríticos, que têmpermitido a compreensão de muitasraízes judaicas.
Canta Lucas 1,78:Per viscera misericordiae Dei nostri in quibus visitavit nos oriens EX ALTO”. Este versículo,segundo o texto grego e retroversão emhebraico, pode ser traduzido:Visitou-nos do alto um sol nascente:Cristo é o sol nascente que vem de cima (o Pai); ou visitou-nos um sol quesurgiu “do alto” ou seja, de Maria.
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De todas essas hipóteses, qual é a correta? Talvez a Providência nos deixou em dúvida, para que no nome de Maria possamos encontrar ao mesmo tempo todosos significados que sugere a analogiada fé.

Autor: Don AlfredoMorselli
Tradução: Henrique Albuquerque

sábado, 10 de setembro de 2011


MADRI, 30 Ago. 11 / 01:41 pm (ACI/EWTN Noticias),
via blog.bibliacatolica.com.br

Em sua habitual coluna no jornal espanhol El Pais, o ganhador do prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, assinalou este domingo que o êxito da recente Jornada Mundial da Juventude em Madrid fez evidente que ocidente necessita do catolicismo para subsistir.
Em seu artigo chamado “A festa e a cruzada”, Vargas Llosa, que se declara agnóstico e é um constante caluniador dos ensinos da Igreja, elogia o espetáculo de Madrid “invadida por centenas de milhares de jovens procedentes dos cinco continentes para assistir à Jornada Mundial da Juventude que presidiu Bento XVI”.
No texto recolhido também em sua edição de hoje pelo jornal vaticano L’Osservatore Romano, Vargas Llosa, nascido no Peru mas de nacionalidade espanhola, afirma que a JMJ foi “uma gigantesca festa de moças e rapazes adolescentes, estudantes, jovens profissionais vindos de todos os lados do mundo a cantar, dançar, rezar e proclamar sua adesão à Igreja Católica e seu ‘vício’ ao Papa”.
“As pequenas manifestações de leigos, anarquistas, ateus e católicos insubmissos contra o Papa provocaram incidentes menores, embora alguns grotescos, como o grupo de energúmenos visto jogando camisinhas em umas meninas que… rezavam o terço com os olhos fechados”.
Segundo Vargas Llosa existem “duas leituras possíveis deste acontecimento”: uma que vê na JMJ “um festival mais de superfície que de entranha religiosa”; e outra que a interpreta como “a prova de que a Igreja de Cristo mantém sua pujança e sua vitalidade”.
Depois de mencionar as estatísticas que assinalam que apenas 51 por cento de jovens espanhóis se confessam católicos, mas só 12 por cento pratica sua religião, Vargas Llosa diz que “desde meu ponto de vista este paulatino declínio do número de fiéis da Igreja Católica, em vez de ser um sintoma de sua inevitável ruína e extinção é, aliás, fermento da vitalidade e energia que o que fica dela –dezenas de milhões de pessoas– veio mostrando, sobretudo sob os pontificados de João Paulo II e Bento XVI”.
“Em todo caso, prescindindo do contexto teológico, atendendo unicamente a sua dimensão social e política, a verdade é que, embora perca fiéis e encolha, o catolicismo está hoje em dia mais unido, ativo e beligerante que nos anos em que parecia prestes a rasgar-se e dividir-se pelas lutas ideológicas internas”.
Vargas Llosa se pergunta se isto é bom ou mau para o secularismo ocidental; e responde que “enquanto o Estado seja laico e mantenha sua independência frente a todas as igrejas”, “é bom, porque uma sociedade democrática não pode combater eficazmente os seus inimigos –começando pela corrupção– se suas instituições não estiverem firmemente respaldadas por valores éticos, se uma rica vida espiritual não florescer em seu seio como um antídoto permanente às forças destrutivas”.
“Em nosso tempo”, segue Vargas Llosa, a cultura “não pôde substituir à religião nem poderá fazê-lo, salvo para pequenas minorias, marginais ao grande público”; porque “por mais que tantos muito brilhantes intelectuais tentem nos convencer de que o ateísmo é a única conseqüência lógica e racional do conhecimento e da experiência acumuladas pela história da civilização, a idéia da extinção definitiva seguirá sendo intolerável para o ser humano comum, que seguirá encontrando na fé aquela esperança de uma sobrevivência além da morte à qual nunca pôde renunciar”.
“Crentes e não crentes devemos nos alegrarmos pelo ocorrido em Madrid nestes dias em que Deus parecia existir, o catolicismo ser a religião única e verdadeira, e todos como bons meninos partíamos de mãos dadas ao Santo Padre para o reino dos céus”, conclui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A proximidade de Deus - Bento XVI

O Santo Padre Bento XVI continua as suas catequeses semanais sobre a oração. A seguir, a última, do dia 7 de setembro, traduzido por zenit.org.


Queridos irmãos e irmãs:
Retomamos hoje as audiências na Praça de São Pedro e a “escola de oração” que estamos vivendo juntos nestas catequeses das quartas-feiras. Eu gostaria de começar meditando sobre alguns salmos que, como comentei no mês de junho, formam o “livro de oração” por excelência. O primeiro salmo no qual eu gostaria de me deter é um salmo de lamentação e de súplica, imbuído de uma profunda confiança, no qual a certeza da presença de Deus é o fundamento da oração que se produz em uma condição de extrema dificuldade do orante. Trata-se do salmo 3, que a tradição judaica atribui a Davi no momento em que ele foge de Absalão (cf. vers. 1). É um dos episódios mais dramáticos e sofrentes da vida do rei, quando seu próprio filho usurpa o trono real e o obriga a abandonar Jerusalém para salvar a vida (cf. 2 Sam, 15 ss). A situação de angústia e de perigo experimentada por Davi é o pano de fundo desta oração e uma ajuda para a sua compreensão, apresentando-se como a situação típica em que um salmo é recitado. No grito do salmista, todo homem pode reconhecer estes sentimentos de dor, de amargura, e ao mesmo tempo de confiança em Deus, que, segundo a narração bíblica, acompanhou Davi em sua fuga da cidade. O salmo começa com uma invocação ao Senhor.
“Ó, Senhor, como são numerosos meus adversários! São muitos os que se erguem contra mim; muitos dizem a meu respeito: 'Deus não vai lhe dar a salvação!'” (v. 2-3).
A descrição que o salmista faz da sua situação está marcada, portanto, por tons fortemente dramáticos. Ele afirma três vezes a ideia da multidão - “numerosos”, “muitos”, “muitos” – que, no texto original, se realiza com a mesma raiz hebraica, para destacar mais ainda a enormidade do perigo, de forma repetitiva, quase maçante. Esta insistência no número e grandeza dos inimigos serve para expressar a percepção, por parte do salmista, da desproporção total existente entre ele e seus perseguidores, uma desproporção que justifica a urgência da sua petição de ajuda: os opressores são muitos, têm o controle da situação, enquanto o orante está sozinho e indefeso, à mercê dos seus agressores. E a primeira palavra que o salmista pronuncia é “Senhor”; seu grito começa com uma invocação a Deus. Uma multidão surge e se levanta contra ele, provocando-lhe um medo que aumenta a ameaça, fazendo-a parecer ainda maior e terrível; mas o salmista não se deixa vencer por esta visão de morte, mas mantém firme sua relação com o Deus da vida e é a Ele a quem se dirige, em primeiro lugar, buscando sua ajuda. No entanto, os inimigos tentam também destruir este vínculo com Deus e destruir a fé da sua vítima. Estes insinuam que o Senhor não pode intervir, afirmam que nem Deus pode salvá-lo. A agressão, portanto, não é somente física, mas afeta também a dimensão espiritual: “Deus não vai lhe dar a salvação” – dizem –, agredindo o núcleo central da alma do salmista. É a última tentação que o crente sofre, a tentação de perder a fé, a confiança na proximidade de Deus. O justo supera a última prova, permanece firme na fé, na certeza da verdade e na confiança plena em Deus. Assim encontra a vida e a verdade.
Parece que o salmo nos afeta pessoalmente: são muitos os problemas em que sentimos a tentação de que Deus não me salva, não me conhece, talvez não tenha a possibilidade; a tentação contra a fé é a última agressão do inimigo e devemos resistir a ela porque assim nos encontramos com Deus e encontramos a vida.
O salmista do nosso salmo está chamado, portanto, a responder com fé aos ataques dos ímpios: os inimigos, como comentei, negam que Deus possa ajudá-lo, mas ele, no entanto, o invoca, o chama pelo seu nome – “Senhor” – e depois se dirige a Ele com um “tu” enfático, que expressa uma relação firme, sólida e recolhe em si a certeza da resposta divina: “Mas tu, ó Senhor, és minha defesa, és a minha glória, tu que ergues a minha cabeça. Quando com minha voz eu invoquei o Senhor, ele me respondeu do seu santo monte” (v. 4-5). A visão dos inimigos desaparece agora, não venceram porque quem crê em Deus está certo de que Deus é seu amigo: resta somente o “Tu” de Deus; aos “muitos” se contrapõe somente um, mas que é muito maior e potente que muitos adversários. O Senhor é ajuda, defesa, salvação; como escudo, protege quem confia n'Ele, fazendo-o levantar a cabeça com gesto de triunfo e de vitória. O homem já não está só, os inimigos já não são tão imbatíveis como pareciam, porque o Senhor escuta o grito do oprimido e responde do lugar da sua presença, do seu monte santo. O homem grita na angústia, no perigo, na dor; o homem pede ajuda e Deus responde. Este entrelaçar-se do grito humano e da resposta divina é a dialética da oração e a chave de leitura de toda a história da salvação. O grito expressa a necessidade de ajuda e interpela à fidelidade do Deus que escuta. A oração expressa a certeza de uma presença divina que já se experimentou e na qual se acreditou, e se manifesta plenamente na resposta salvífica de Deus. Isso é importante: que, na nossa oração, esteja presente a certeza da presença de Deus. Assim, o salmista que se sente assediado pela morte, confessa sua fé no Deus da vida que, como escudo, o cerca com uma proteção invulnerável; quem pensava estar perdido pode levantar a cabeça porque o Senhor o salva; o orante, ameaçado e humilhado, está na glória porque Deus é a sua glória. A resposta divina que acolhe a oração dá ao salmista uma segurança total; termina também o medo e o grito se aquieta na paz, na profunda tranquilidade interior: “Eis que me deito e durmo, e me acordo, pois o Senhor me sustenta. Não tenho medo da multidão de gente que se lança contra mim de todo lado” (v. 6-7).
O orante, inclusive no meio do perigo e da batalha, pode dormir tranquilo, em uma atitude inequívoca de abandono confiante. Ao seu redor, os adversários acampam, assediam-no, são muitos, erguem-se contra ele, zombam dele e procuram derrubá-lo, mas ele, no entanto, se deita e dorme tranquilo e sereno, certo da presença de Deus. E, ao despertar, encontra Deus ao seu lado, como guardião que não dorme (cf. Sal 121,3-4), que o segura pela mão, que não o abandona jamais. O medo da morte é vencido pela presença d'Aquele que não morre. É justamente a noite, povoada de medos ancestrais, a noite dolorosa da solidão e da espera angustiante, que se transforma: o que evoca a morte se converte em presença do Eterno.
À visão do assalto inimigo, enorme, imponente, contrapõe-se a invisível presença de Deus, com toda a sua invencível potência. E é a Ele a quem, novamente, o salmista, depois das suas frases de confiança, dirige sua oração: “Levanta-te, Senhor, salva-me, ó Deus!” (v. 8a). Os agressores “se levantavam” contra a sua vítima, mas quem, no entanto, “se levantará” é o Senhor, e o fará para destruí-los. Deus o salvará respondendo ao seu grito. Por isso, o salmo termina com a visão da libertação do perigo que mata e da tentação que pode fazer-nos perecer. Depois da petição dirigida ao Senhor para que se levante e nos salve, o orante descreve a vitória divina: os inimigos, que, com sua injusta e cruel opressão, são símbolo de tudo o que se opõe a Deus e ao seu plano de salvação, são derrotados. Atingidos na boca, não poderão agredir mais com a sua violência destrutiva e não poderão insinuar o mal da dúvida sobre a presença e a ação de Deus: seu falar insensato e blasfemo é desmentido finalmente e reduzido ao silêncio pela intervenção salvífica de Deus (cf. v. 8bc). Assim, o salmista pode concluir sua oração com uma frase com as conotações litúrgicas que celebra, na gratidão e no louvor, o Deus da vida: “Do Senhor é a salvação. Sobre o seu povo desça a sua bênção!” (v.9).
Queridos irmãos e irmãs, o salmo 3 nos apresenta uma súplica repleta de confiança e consolo. Rezando este salmo, podemos fazer nossos os sentimentos do salmista, figura do justo perseguido que, em Jesus, encontra seu cumprimento. Na dor, no perigo, na amargura da incompreensão e da ofensa, as palavras do salmo abrem o nosso coração à certeza consoladora da fé. Deus sempre está perto – escuta, responde e salva do seu jeito. Mas é necessário saber reconhecer sua presença e aceitar seus caminhos, como Davi fugindo humilhado do seu filho Absalão, como o justo perseguido do Livro da Sabedoria, como o Senhor Jesus no Gólgota. E quando, aos olhos dos ímpios, Deus parece não intervir e o Filho morre, então é quando se manifesta a todos os crentes a verdadeira glória e o cumprimento definitivo da salvação. Que o Senhor nos dê fé, nos ajude na nossa fraqueza e nos torne capazes de crer e de rezar em toda angústia, nas noites dolorosas da dúvida e nos longos dias de dor, abandonando-nos com confiança n'Ele, que é o nosso “escudo” e a nossa “glória”.
Obrigado.

[No final da audiência, Bento XVI saudou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs,
Na “escola da oração” que temos vivido, juntos, nestas catequeses de quarta-feira, desejo hoje dar início à meditação sobre alguns dos cento e cinquenta salmos bíblicos, que formam o livro de oração por excelência. Começamos pelo Salmo três, uma súplica cheia de confiança e consolação. No perigo, no sofrimento, na amargura, as palavras deste salmo abrem o coração à certeza reconfortante da fé. Quem pensava que já estava perdido, pode levantar a cabeça, porque o Senhor o salva. A resposta divina, que acolhe a oração, dá ao salmista uma segurança total. O medo da morte é vencido pela presença d’Aquele que não morre. Deus está sempre perto, mesmo nos períodos escuros da vida. Mas é preciso saber reconhecer a sua presença e aceitar os seus caminhos, como fez Jesus no Gólgota. E mesmo quando parece, aos olhos dos ímpios, que Deus não interveio porque deixou o Filho morrer na Cruz, então é que se manifesta, para todos os crentes, a verdadeira glória e a realização definitiva da salvação.
Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha saudação amiga para todos, em particular para os fiéis de várias paróquias das cidades de Santo Amaro, São João del Rei e São Paulo, desejando que este Salmo três lhes sirva de portal na sua peregrinação a Roma: da infinidade de coisas – tantas vezes duras – da vida, aprendam a elevar o coração até o Pai do Céu, repousando no seio da sua infinita bondade, e verão que as dores e aflições da vida lhes farão menos mal. Sobre todos, e extensiva aos familiares e comunidades eclesiais, desça a minha bênção apostólica.

[Tradução: Aline Banchieri.
©Libreria Editrice Vaticana]

Fonte: http://www.zenit.org/article-28789?l=portuguese

Adélia Prado: poesia, Deus, a Bíblia, a Vida Eterna

Para os leitores do Veni Creator, estas reflexões belíssimas da poetisa Adélia Prado. Quem dera tivéssemos mais bons artistas que pensassem assim! 
Senhor, Vós que tornais os artistas capazes de exprimir a vossa beleza, por meio da sua sensibilidade e imaginação, fazei de suas obras uma mensagem de alegria e de esperança para o mundo. Amém.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Natividade de Maria na Liturgia Bizantina




Neste dia alegre da Natividade da Virgem Maria, apresento-vos os belíssimos textos da liturgia bizantina sobre a festa de hoje. Para rezar e maravilhar-se pelas maravilhas que Deus realizou na Ssma. Virgem.


08 DE SETEMBRO:
«Festa da Natividade da Santa Mãe de Deus, a Bem-aventurada Virgem Maria»

Tropários da Festa:

Apolitikion (4º tom)
Tua natividade, ó Mãe de Deus,
anunciou a alegria ao mundo inteiro;
Pois de ti nasceu o sol da justiça, o Cristo nosso Deus,
o qual, abolindo a maldição, nos deu a bênção,
e destruindo a morte, deu-nos a vida eterna.


Kondakion (4º tom)

Pela tua santa natividade, ó Pura,
Joaquim e Ana foram libertos do opróbrio da esterilidade
e Adão e Eva, da corrupção da morte.
Teu povo, salvo da escravidão de pecado
te festeja, exclamando: "a estéril dá a luz,
a mãe de Deus que alimenta nossa vida!

Prokimenon

Minha alma glorifica o Senhor,
meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador (Lc 1,46)
Porque voltou seus olhos para a humildade de sua serva;
doravante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada (Lc 1,48)

Epístola
[Fp 2, 5-11]
Epístola do Apóstolo São Paulo aos Filipenses
rmãos, dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor.
Aleluia
Aleluia, aleluia, aleluia
Ouve, ó filha, vê e inclina o teu ouvido
pois o Rei se encantou por tua beleza (45,10) 
Aleluia, aleluia, aleluia!
Prostra-te a sua frente,
pois Ele é o teu Senhor!
Aleluia, aleluia, aleluia!

Evangelho

[Lc 10, 38-42; 11, 27-28]
Evangelho de Nosso Senhor JesusCristo, segundo o Evangelista São Lucas
aquele tempo, estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-lo falar. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada. Enquanto ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram! Mas Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!

Hirmós

Tomarei o Cálice da salvação
e invocarei o nome do Senhor!
Aleluia, aleluia, aleluia

Kinonikon

Louvai o Senhor nos Céus,
louvai-O nas alturas.
Aleluia, aleluia, aleluia


festividade do nascimento da Mãe de Deus tem provavelmente sua origem em Jerusalém, em meados do século V. Porque foi em Jerusalém que se manteve viva a tradição que a Virgem teria nascido junto à Porta da Piscina Probática.
Fazendo uso desta referência, encontramos citações de São João Damasceno em sua Homilia sobre a Natividade de Maria: "Hoje é o começo da salvação do mundo, porque na Santa Probática foi-nos gerada a Mãe de Deus através de quem o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, nos foi gerado." [1]
Considerado o nascimento de Maria como o início histórico da obra da Redenção, o Calendário Litúrgico Bizantino abre suas portas festejando o nascimento da Virgem: "A celebração de hoje é para nós o começo de todas as festas". [2]
Maria é apresentada pela Liturgia como a "Virgem bela e Gloriosa" que Deus amou com predileção deste a sua eternidade desde toda a Criação como sua obra-prima, enriquecida das graças mais sublimes e elevada à excelsa dignidade de Mãe de Deus e de Bem-aventurada Virgem. [3]
Segundo o espírito da Igreja, devemos celebrar a Festa da Natividade com santa Alegria, porque o nascimento de Maria é a aurora de nossa salvação. Com o seu nascimento é anunciado ao mundo a boa nova: a mãe do Salvador já está entre nós. 
«Alegrem-se, portanto, os Patriarcas do Antigo Testamento que, em Maria, reconheceram a figura da Mãe do Messias. Eles e os justos da Antiga Lei aguardavam a séculos, serem admitidos na glória celeste pela aplicação na fé dos méritos de Cristo, o bendito fruto da Virgem Maria . Alegrem-se todos os homens porque o nascimento da Virgem veio anunciar-lhes a aurora do grande dia da libertação pela qual aspiram todos os povos. Alegrem-se todos os anjos porque neste dia foi-lhes dada pela primeira vez a ocasião de reverenciar a sua futura Rainha.» [4]
Visivelmente, nenhum acontecimento extraordinário acompanhou o nascimento de Maria e os Evangelhos nada dizem sobre sua natividade. Nenhum relato de profecia, nem aparições de anjos, nem sinais extraordinários são narrados pelos Evangelistas. Só no Céu houve Festa, pois o Filho de Deus vê sua Mãe nascer. 
Na vida da Virgem Maria a ordinariedade dos fatos sempre lhe acompanhou. Aquela que vivia o seu cotidiano de maneira despercebida aos olhos dos homens dá à Luz o Salvador. A humildade também lhe era característica pois ela sendo Rainha apresentou-se sempre como serva obediente. 
Tem-se poucos registros históricos da cidade onde nascera Maria , mas por ser conhecida como "A Virgem de Nazaré", intui-se que foi lá que Joaquim e Ana (avós de Jesus) receberam de Deus a pequena Maria.
O mundo continuou seu curso dando importância a outros acontecimentos que depois seriam completamente esquecidos. Para Deus a grandeza dos fatos não está na proporção dos aplausos que o mundo lhe oferece, mas na serenidade de sua aceitação cumprindo a sua vontade. 
Com freqüência as coisas importantes para Deus passam despercebidas aos olhos dos homens. 
Cresceu como todas as jovens, mas se distinguia por ser toda de Deus, guardando tudo em seu coração". [5] A sua vida ,tão cheia de normalidade, ensina-nos a agir em tudo com olhos postos em Deus numa perpétua oferenda ao Senhor.
Maria é a aurora que preconiza a vinda Sol, o Sol da justiça que traz à luz aqueles que estão nas trevas do pecado.

Notas:
[1] São João Damasceno, Homilia sobre a Natividade de Maria, 6 PG 96;
[2] Andréas de Creta, Homilia Mariana. V. Fazzo p.43
[3] Patriarca Fócio, Homilia sobre a Natividade,PG 43
[4] Lehmann, P. JB. Na luz Perpétua, 1959 p.268
[5] Lc 2,51
«O nascimento da nova Eva»

S. Bernardo (1091-1153): Louvores da Virgem Maria - homilia 2


Alegra-te, Adão, nosso pai, e sobretudo tu, Eva, nossa mãe. Fostes ao mesmo tempo os nossos pais e os nossos assassinos; vós que nos destinastes à morte ainda antes de nos terdes dado à luz, consolai-vos agora. Uma das vossas filhas – e que filha! – vos consolará… Vem então, Eva, corre para junto de Maria. Que a mãe recorra à sua filha; a filha responderá pela mãe e apagará a sua falta… Porque a raça humana será agora elevada por uma mulher.
Que dizia Adão outrora? “A mulher que me deste ofereceu-me o fruto da árvore e eu comi.” (Gn 3,12) Eram palavras más, que agravavam a sua falta em vez de a apagarem. Mas a divina Sabedoria triunfou sobre tanta malícia; aquela ocasião de perdoar que Deus tinha tentado em vão fazer nascer, ao interrogar Adão, eis que agora a encontra no tesouro da sua inesgotável bondade. A primeira mulher é substituída por outra, uma mulher sábia no lugar da insensata, uma mulher humilde tanto quanto a outra era orgulhosa.
Em vez do fruto da árvore da morte, ela apresenta aos homens o pão da vida; substitui aquele alimento amargo e envenenado pela doçura dum alimento eterno. Muda então, Adão, a tua acusação injusta em expressão de agradecimento e diz: “Senhor, a mulher que tu me deste apresentou-me o fruto da árvore da vida. Comi dele e o seu sabor foi para mim mais delicioso do que o mel (Sl 18,11), porque por este fruto me devolveste a vida.” Eis porque é que o anjo foi enviado a uma virgem. Ó Virgem admirável, digna de todas as honras! Ó mulher que temos de venerar infinitamente entre todas as mulheres, tu reparas a falta dos nossos primeiros pais, tu dás vida a toda a sua descendência.

Fonte: http://www.ecclesia.com.br/sinaxe/natividade_maria.html

Ave, Mãe de Nosso Livramento!

Na Tua imagem nosso alento,
Mãe de Jesus, Imaculada,
Serás por todos proclamada
Nossa Senhora do Livramento!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

História da Liturgia 1: O Culto na época do Novo Testamento


Este é post de número500 do blog! Agradecendo a todos os que o visitam nesses quase três anos e maisde 20 mil acessos, começarei uma série de artigos sobre a História da Liturgiada Igreja. Espero que seja útil para tantos quantos aportem por aqui. Deus osabençoe e boa leitura!

INTRODUÇÃO

E rogarei ao Pai e ele vos dará outroParáclito,
para que convosco permaneça para sempre (...)
[Ele] vos ensinarátudo e vos recordará tudo que vos disse. (Jo 14,16.26) 
Eis que estou convosco todos os dias, até o fimdos tempos. (Mt 28,20) 

Deus é fiel e cumpre as promessas. (Rm 15,8)

A promessa de JesusCristo de permanecer sempre em sua Igreja, não poderia ficar sem cumprimento; eé pelo Espírito Santo, Um com o Pai e o Filho, que Este a realiza. Assim, emtoda a história da humanidade depois de Cristo, transparece o esplendor dapresença divina pela sustentação e renovação da Igreja e pelos inúmeros sinaisdivinos de que o Senhor, não obstante a debilidade dos seus fiéis, sustenta aIgreja e a torna Santa e Imaculada.

O Espírito Santocaminha com a Igreja, a conduz nos caminhos tortuosos da história. Em cadaépoca, o Espírito guia a Igreja. Guiou-a desde a comunidade primitiva, passandopela época dos mártires, das relações com o Império Romano, da educação dospovos bárbaros, do esplendor medieval das catedrais e das cruzadas, na crise dofim da Idade Média, no Renascimento, na época do Absolutismo e das Luzes, naera das Revoluções e das Guerras, no doloroso século XX e neste novo que seinicia. Em cada época, o Espírito renova a Igreja: ela se torna nova e, aomesmo tempo, permanece a mesma: a Esposa Imaculada do Cordeiro Imaculado. Emépoca alguma o Espírito tirou férias ou cochilou: Ele sempre sustentou esustentará a Igreja Católica até o seu encontro definitivo com o Cristoglorioso.
A Liturgia é o momentoprivilegiado da ação de Cristo no Espírito. Ele é o responsável pelacomunicação sacramental da graça de Cristo aos fieis. A esse respeito, assim seexpressa o Catecismo da Igreja Católica: “Nesta comunicação sacramental domistério de Cristo, o Espírito age da mesma forma que nos outros tempos daeconomia da salvação: prepara a Igreja para encontrar seu Senhor, recorda emanifesta Cristo à fé da assembleia, torna presente e atualiza o mistério deCristo por seu poder transformador e, finalmente, como Espírito de comunhão,une a Igreja à vida e à missão de Cristo.” (n. 1092)
Nesta série de artigosque começamos hoje e que se seguirão, vamos acompanhar a história dodesenvolvimento da Liturgia da Igreja ou a história do culto cristão. Veremoscomo o Espírito conduziu a Igreja no modelar o essencial do seu culto com asdiferentes culturas, épocas e lugares. E, como o elemento humano é constitutivoda Igreja, veremos as dificuldades e vicissitudes por que passou a organizaçãodo culto cristão. Isto, longe de nos fazer rejeitar a Liturgia como obrameramente humana e campo livre para a criatividade indevida, nos fazcompreender a Liturgia como obra do Cristustotus, do Cristo inteiro, Cabeça e Corpo, o Cristo e a Igreja; Liturgiaessa que, como diz o Concílio Vaticano II, é o cume e o ápice, donde provém epara onde tendem toda a vida e a ação da Igreja. (cf. Sacrossanctum Concilium,10).

O CULTO NA ÉPOCA DONOVO TESTAMENTO – ASPECTOS INICIAIS

Assim como nosdiversos âmbitos da vida cristã, da doutrina, da fé propriamente dita, daoração etc, a vida de culto do cristianismo deve tomar como ponto de partida ecomo base última a comunidade primitiva, que condensou sua vida litúrgica noslivros do Novo Testamento. Este basear-se na Escritura é fundamental, embora,obviamente, não podemos conceber tanto em matéria litúrgica, quanto em matériateológica e estrutural, uma fixidez fossilizante e querer fazer que a Igrejaseja hoje exatamente o que era nos seus primórdios, como fazem alguns gruposcristãos, ignorando que o Espírito conduz a Igreja e a faz desenvolver-se deacordo com as culturas, povos e épocas sem, contudo, perder a sua identidade.
Os vários elementoscultuais encontrados no Novo Testamento atestam um processo dinâmico de desenvolvimento:o conjunto dos livros do Novo Testamento que vai se formando paulatinamente noséculo I d.C, constitui-se como o primeiro livro litúrgico das primeirascomunidades cristãs, mas, ao mesmo tempo, é o culto comunitário que exercepapel fundamental na confecção dos livros sagrados. As próprias tradiçõesevangélicas e apostólicas fixam-se num ambiente de celebração litúrgica: comoatestam inúmeros documentos, inclusive neotestamentários (somente a título deexemplo, cf, Lc 24,13-35 e, sobretudo, 1Cor 11), o ambiente próprio dacatequese e da educação da fé que fez nascer os Evangelhos e outros escritos éo ambiente litúrgico. Era na liturgia que se fazia a memória dos ditos e açõesde Jesus, em que se narravam a história de sua Paixão e Ressurreição, base efundamento de toda a fé, e, posteriormente e iluminados pelo evento pascal,toda a história anterior de Jesus e que seriam cristalizadas nos Evangelhos.Também as epístolas de Paulo e outros escritos que circulavam entre ascomunidades cristãs e que, mais tarde, seriam tomados como inspirados pelaautoridade de Igreja, destinavam-se a ser lidas na assembleia litúrgica. Para quêiriam se reunir os cristãos primitivos senão para cumprir o preceito da oração,ouvir os oráculos divinos e, sobretudo, realizar o mandato de Jesus “fazei istoem memória de mim” (Lc 22,19), como era próprio da reunião eucarística? Deste modo,podemos dizer com toda a segurança: o Novo Testamento nasce no seio daassembleia litúrgica.
Mas o que nos dizem oslivros do Novo Testamento sobre o culto dos primeiros cristãos?
As referênciascúlticas no Novo Testamento e nos escritos primitivos são fragmentárias eacidentais. Isso acontece por dois motivos:
a) Os atos de Jesus revelam uma certa "falta de sistemática";
b) As diversas comunidades cristãs são um todo plura que aninham sensibilidades diferentes que passam para a liturgia (por exemplo, a contraposição entre judeu-cristãos e heleno-cristãos, quanto ao relacionamento da Torá com a Nova Aliança de Cristo).
Entretanto, éabundante, no Novo Testamento, as referências a uma teologia do culto cristão. Estateologia está em continuidade e, ao mesmo tempo, em ruptura com o culto judaicoe pagão anterior ao cristianismo. O culto, manifestação fundamental dareligião, apresenta um fundo comum às religiões; mas a Bíblia é uma ruptura comas religiões da natureza, enquanto o Novo Testamento uma ruptura com a tradiçãojudaica do Antigo Testamento. Para entendermos o que há de continuidade eruptura com o judaísmo, veremos, nos próximos artigos, as raízes judaicas doculto cristão e a sua originalidade.