sábado, 28 de fevereiro de 2009

Cristo por nós foi tentado - I Domingo da Quaresma

Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra, o mundo inteiro com os seres que o povoam. (Sl 23 (24),1). Deus no seu infinito amor cria a terra e tudo o que existe. Ele cria o homem a fim de que ele participe de Sua vida bem-aventurada e com toda a sua força ame a seu Criador. Porém, nossos primeiros pais pecaram por desobediência e por isso foram privados da amizade com Deus e, consequentemente, dessa vida bem-aventurada. E com eles todo gênero humano. “Pelo pecado é desfeita a unidade gênero humano”. (Catecismo da Igreja Católica, n. 56). Mas, Deus não cessa de estabelecer alianças a fim de salvar o homem fraco e decaído pelo pecado. Dessa forma, Deus escolhe a Noé, um homem justo, e estabelece Sua aliança com ele, na expectativa de que Cristo “congregue na unidade todos os filhos dispersos”. (Jo 11,52). Assim, a aliança estabelecida com Noé é a prefiguração da nova e eterna aliança em Cristo. “E do mesmo modo que aquela minoria de pessoas foi salva por meio da água do dilúvio, nós, hoje, somos salvos pelo batismo.” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1219). E pelo batismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus. Tornamo-nos filhos de Deus e membros de Cristo. Por isso, somos cristãos, e sê-lo consiste numa identificação total com próprio Cristo, inclusive com sua morte e morte de cruz. O apóstolo afirma: “pelo batismo nós fomos sepultados com Ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova.” (Rm 6,4). Assumindo a identidade de Cristãos no batismo pela efusão do Espírito Santo que dá a vida de verdade, nos sujeitamos também à mordedura das tentações, pois Cristo também as experimentou.
Hoje Deus, na sua condição humana, é tentado e sofre a mordedura da tentação! Que grande mistério!
“Com efeito, nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livres de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo nem tentações. Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também aonde a cabeça os precedeu. Portanto, o Senhor nos representou em sua pessoa quando quis ser tentado por satanás. Líamos há pouco no Evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque Ele assumiu a tua condição humana, para te dar a sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a sua vida; assumiu os teus ultrajes, para dar a sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para e dar sua vitória. Se Nele fomos tentados, Nele vencemos o demônio. Considera que Cristo foi tentado. Consideras que Cristo foi tentado e não consideras que Ele venceu? Reconhece-te Nele em sua tentação, reconhece-te Nele em sua em sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se Dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer a tentação.” (Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho).
Coloquemo-nos, pois, diante de Deus de coração contrito. E nesse tempo quaresmal, peçamos que Ele nos auxilie com Seu Espírito Santo, Paráclito e Consolador, nas horas difíceis das tentações. Que Ele nos ajude na prática da abstinência e da penitência, que consistem na sobriedade de nossas palavras, atos e ações e no exercício contínuo da oração, jejum e amor ao próximo.
Afinal, irmãos, não fomos criados para este mundo, mas para eternidade. Portanto, nosso fim último é a eternidade. E esta só nos é concedida por graça, pela vida no Espírito Santo de Deus e como fruto de nossos esforços e orações.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Eu Vi a Cidade - II

João 15, 1-6
Efésios 2, 1-19
A Igreja é a humanidade inteira, regenerada e unificada em Cristo.
É Jesus Cristo estendido, comunicado. O Cristo plenificado. O Redentor realizado.
Tudo de Cristo a Igreja tem – o mesmo organismo, o mesmo ser, a mesma vida, a mesma função; a mesma dúplice natureza; toda a grandeza da divindade; toda a fraqueza da humanidade; toda a virtude redentora, toda a capacidade de imolar-se e de, novamente, gloriar-se; o poder de entregar a vida e de outra vez retomá-la; o destino de ser perseguida, jamais porém derrotada.
A Igreja tudo tem de Cristo – a unidade, a universalidade, a santidade, a invencibilidade.
Cristo e a Igreja são termos conversíveis. A Igreja é o próprio Cristo.
O Cristo na Igreja e a Igreja no Cristo é um mistério só. O mistério do amor.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Convertei-vos e mudai a vossa vida - Quarta-feira de Cinzas


“Convertei-vos e mudai a vossa vida.
Renovai-vos de espírito e coração!”

Hoje, a Igreja inicia um novo Tempo Litúrgico na sua vida: a Quaresma! Esse Tempo lembra os 40 anos que o Povo de Israel caminhou pelo deserto. Lembra os 40 dias que o Senhor Jesus passou em jejum e oração. A cor litúrgica passa a ser o roxo, convidando-nos à penitência. Para a vida da Igreja no Brasil, a Quarta-Feira de Cinzas marca o início de outro acontecimento importante: a Campanha da Fraternidade (tema: Fraternidade e Segurança Pública; e lema: “A Paz é Fruto da Justiça” (Is 32,17)).
Na Celebração de hoje, a Palavra de Deus nos convida a iniciar um caminho de conversão, de mudança radical de vida e atitudes.
No Evangelho (Mt 6,1-6.16-18), que tem como temas a esmola, a oração e o jejum, o Senhor recomenda aos seus discípulos com estas palavras: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mt 6,1). Jesus quer dizer que o que verdadeiramente importa é aquilo que fazemos por amor a Deus e não para que as pessoas vejam simplesmente. A piedade que agrada a Deus é aquela que brota do mais profundo do nosso ser, que nos transforma em homens novos e melhores. As práticas espirituais que agradam a Deus não são aquelas que nos escravizam, mas aquelas que nos libertam e geram vida para os outros. No livro do profeta Isaías, o próprio Deus diz: “Por acaso não consiste nisso o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniqüidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartir o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne?” (58, 6-7). Por isso, todo o nosso esforço espiritual feito no Tempo da Quaresma nos leva a se comprometer com o sofrimento do próximo. O cristão se torna solidário com aqueles que nada têm para comer, com os marginalizados, com os oprimidos. O cristão é chamado a levar vida nova para essas pessoas.
A Quaresma é um momento propício para conversão, para recomeçar a vida espiritual, para retomar o caminho que leva a Deus. Caminho de libertação, de revolução interior, de transformação total. A Palavra de Deus que está no livro do profeta Isaías nos diz: “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem mau seus pensamentos, e volte ao Senhor, pois terá compaixão dele, ao nosso Deus, porque é rico em perdão” (55,7). A alegria de Deus é nos ver libertos do pecado, libertos desta vida miserável e sem sentido. Por isso, mesmo que o homem desista de Deus, Deus nunca desistirá do ser humano. A Palavra do nosso Deus é insistente: “Certamente não tenho prazer na morte do ímpio; mas antes, na sua conversão, em que ele se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos” (Ez 33,11).Por fim, a Celebração da Quarta-Feira de Cinzas nos recorda a nossa condição humana, que necessita constantemente da bondade e da graça de Deus. Traçando uma cruz em nossa fronte, o sacerdote nos diz: “Lembra-te, homem, de que és pó e em pó te hás de tornar”. É o que nos diz o livro do Eclesiastes com certo pessimismo: “Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do pó e tudo volta ao pó” (3,20). Ou também: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Atendamos, portanto, o apelo que o nosso Deus nos faz, num convite à penitência: “Rasgai os vossos corações, e não as vossas roupas, retornai ao Senhor, vosso Deus, porque ele é bondoso e misericordioso, lento para a ira e cheio de amor, e se compadece da desgraça” (Jl 2,13). Assim, com a Oração de Coleta da Missa de hoje, rezemos com a nossa Santa Mãe Igreja: “Concedei-nos, ó Deus todo-poderoso, iniciar com este dia de jejum o tempo da Quaresma, para que a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.” Amém!

O cristão e a angústia - III


Se na Nova Aliança se impõe ao cristão a obrigação rigorosa de não ter medo, nem diante de Deus, nem diante do mundo, nem diante de qualquer outro poder que não seja o de Cristo, podemos concluir que também os “fatos” apresentados no que respeita à importância da angústia pela filosofia e a psicologia modernas, caem sob a alçada deste mandamento. É uma afirmação que, à primeira vista, poderá parecer grotesca, e o homem moderno dirá que com uma proibição não se exclui o fato de que a angústia existe.
O cristão pode responder que os “fatos” não anulam a proibição da sua existência. Se é verdade que o medo de estar no mundo, o sentimento de “estar perdido” nele, a angústia do mundo em si, com todos os seus aspectos abissais, reais ou presumidos, o medo da morte e a angústia da culpabilidade talvez obrigatória, estão na raiz da consciência moderna, e que esta angústia é a causa das neuroses modernas; se é verdade que uma moderna filosofia existencialista presume de superar a angústia aceitando-a, mergulhando nela e sofrendo-a resolutamente até o fim – é igualmente verdade, porém, que o Cristianismo não pode senão opor a tudo isto com um “não” radical, categórico. Ao cristão é simplesmente proibido ter medo, ter ligações com ele.
Se não obstante isto, ele é neurótico e existencialista, quer dizer que lhe falta autenticidade cristã, que a sua fé está doente ou é fraca. Porque esta angústia foi proibida por Cristo, o cristão não tem qualquer pretexto para ser tímidos com os tímidos, ainda que com a intenção de se tornar mais semelhante a eles, para melhor os compreender, para os poder aconselhar e remir. “Irmãos, nós somos devedores, mas não da carne, para vivermos segundo a carne” (Rm 8,12); e como poderia alguém com o tornar-se carnal e mundano, ajudar outros a vencer carne e mundo e a superá-los no Espírito? Ainda que a doença da angústia em todos os seus matizes tenha atingido hoje a humanidade, ela pode compreender-se bem, embora não a tenha experimentado em si próprio (o que é proibido), indagando, seja sobre as suas causas, seja sobre os efeitos e sobre as atitudes que delas derivam. Para curar esta doença não é preciso contraí-la, tal como o melhor remédio para um doente é o aspecto e o exemplo de uma pessoa sã. Assim foi nos primeiros tempos do Cristianismo quando os jovens cristãos penetravam, sem se contagiarem, entre os existencialistas da antiguidade em decadência, e davam aos fracos exemplo de uma vida vigorosa, que ia buscar a sua linfa em fontes e reservas completamente diferentes. Isto é válido também para os tempos modernos. E se é verdade que na atual “hora cósmica” é mais difícil aos homens manterem-se livres da angústia e da neurose, só se poderá deduzir daí que a esta geração se exige mais do que às outras e que por isso, provavelmente, há menos cristãos autênticos do que noutras épocas. Menos homens que, com a coragem objetiva da fé e fortalecidos por ela, afrontem a vida, tendo compreendido o que Deus lhes reserva: esta vocação, esta missão cristã, esse atrevimento (sem o qual o homem não alcançará nenhuma meta nobre), esta responsabilidade, esta pureza. É contra tudo isto que se opõe atualmente a angústia neurótica, arruinando tantas vocações cristãs – que exigem sempre um intrépido sim à graça divina – e daí termos de lamentar na Cristandade de hoje a sua morna e insípida mediocridade. Quelle chrétienté rampante: – exclamava o velho Bernanos – le monde regorge d’humilité, sous ses airs d’orgueil, mais d’une humilité pervertie, dégradée, qui n’est plus qu’une forme de lâcheté d’esprit et de coeur (Aquela Cristandade rasteira: o mundo transborda de humildade, sob seus ares de orgulho, mas de uma humildade pervertida, degradada, que não é mais que uma forma de covardia do espírito e do coração). Só um cristão que não se deixe contagiar pela angústia neurótica da humanidade moderna – ainda que esta, tentando transfigurar-se, se considere e se proclame o coração, isto é a parte mais preciosa da existência, e aqueles que não adoram este animal sejam excluídos do comércio entre os iniciados neste medo (Ap 13,7) – tem alguma esperança de poder exercer uma influência cristã sobre o seu tempo. Ele não se desviará orgulhosamente da angústia dos outros homens e dos outros cristãos, mas indicará os caminhos para se livrarem de estéreis tumores e saírem corajosamente para o ar livre da fé. Jamais descerá, porém, a compromissos, nem em teoria nem na prática. Ele será cônscio de que “preocupação” está entre as coisas proibidas pelo Senhor (Mt 6,25), que para o cristão não existe uma fatalidade de culpa, e que a morte perdeu o seu aguilhão por obra de Cristo (1Cor 15,55).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Quaresma: tempo de voltar ao primeiro amor!


Eis mais uma vez o Santo Tempo da Quaresma! Com esse dia de jejum e abstinência de carne, denominado liturgicamente Quarta-Feira de Cinzas, a Igreja inicia um período de quarenta dias em preparação à celebração do Tríduo Pascal do Senhor Morto e Ressuscitado.
E o que a Igreja faz nesse tempo? Para respondermos à essa pergunta tomemos como base a carta dirigida à Igreja de Éfeso (cf. Ap 2,1-7), uma das sete igrejas que aparecem no livro do Apocalipse. O remetente dessas cartas é o próprio Cristo. A comunidade de Éfeso é uma igreja de lutas e perseverança, que não suporta os malvados e que sabe sofrer por causa do nome de Jesus (cf. Ap 2,2s). É uma igreja fiel à vida nova recebida no batismo. No entanto, Cristo lhe dirige uma reprovação: Éfeso abandonou o seu primeiro amor, aquele ânimo do começo da caminhada cristã. É preciso, então, reconhecer onde caiu, onde começou a esmorecer, converter-se e retomar a conduta de outrora.
Éfeso torna-se paradigma da Igreja nesse tempo quaresmal. A Igreja sempre será indefectivelmente santa porque recebe a santificação permanente do Espírito de Cristo, por meio da Palavra e dos Sacramentos, principalmente da Eucaristia. Porém, os filhos da Igreja, na sua fragilidade humana, muitas vezes esquecem o entusiasmo do primeiro amor. Nossas debilidades, nossos vícios e más inclinações nos fazem capitular no fervor apaixonado por Jesus Cristo. É preciso, então, parar e refletir o que nos fez deixar a nossa conduta cristã inicial.
É justamente essa a finalidade da quaresma: introduz-nos em um grande retiro de quarenta dias, nos quais pela prática mais fervorosa da oração, da caridade (o amor ao próximo) e do jejum (ascese corporal), encontramo-nos diante de Deus, e, na sua luz, percebemos onde caímos e encontramos forças para retomar o nosso amor inicial.
Ainda na carta dirigida à igreja de Éfeso, o Espírito de Cristo dirá: Ao vencedor, conceder-lhe-ei comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus (Ap 2, 7). Todo aquele que perseverar no bom combate durante a quaresma, voltando-se ao primeiro amor, ser-lhe-á permitido saborear da árvore da vida. Essa árvore da vida é a própria cruz do Senhor, sinal de ressurreição e de nossa vitória.
Durante essa quaresma peçamos com as palavras do salmista: Convertei-nos, ó Senhor Deus do universo, e sobre nós iluminai a vossa face! (Sl 79, 8a). E assim possamos gozar as alegrias pascais.
A todos os nossos leitores desejamos uma santa e frutuosa Quaresma!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Caríssimos leitores,
neste período de carnaval vamos ter uma breve interrupção nos artigos do blog, já que seus colaboradores participam de Exercícios Espírituais. Por isso antecipamos a publicação de alguns artigos.
Para os que também participarão de Exercícios Espirituais, desejamos um bom retiro e que seja de grande proveito.

Santos Doutores do Oriente

O Filho do homem tem poder para perdoar os pecados - VII Domingo do Tempo Comum


As maravilhosas leituras deste Santo Domingo que celebramos na Assembléia Eucarística nos falam da grandiosa misericórdia divina. Deus criou o homem para viver em comunhão perfeita consigo; e, como penhor dessa comunhão, como maior expressão de seu amor criativo, deu-nos o livre-arbítrio, isto é, a capacidade de corresponder ou não ao seu amor. Mas os nossos primeiros pais caíram, enganados pela serpente, e se esconderam de Deus (cf. Gn 3,8). Foi assim que o pecado entrou no mundo. No entanto, Deus em sua misericórdia, que dura para sempre (cf. Sl 117(118), 1), não deixou o homem abandonado a si mesmo. Apesar do histórico de queda e de esquecimento de Deus por parte de seu povo, o Senhor sem voltava atrás e o perdoava, como atesta o salmo 105(106): “Quantas vezes o Senhor os libertou! Eles, porém, por malvadez o provocavam, e afundavam sempre mais em seu pecado. Mas o Senhor tinha piedade do seu povo, quando ouvia o seu grito na aflição” (vv. 43-44). É neste sentido a queixa do Senhor: “Tu, Jacó, não me invocaste, e tu Israel, de mim te fatigaste. Com teus pecados, trataste-me como servo, cansando-me com tuas maldades” (Is 43,22.24). Mas logo em seguida, o Senhor promete o perdão: “Sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não me lembrarei de teus pecados” (Is 43,25).
Pois bem, a misericórdia de Deus prometida por toda a Antiga Aliança, cumpre-se, realiza-se, encarna-se em Jesus. “Com efeito, é nele que todas as promessas de Deus têm o seu ‘sim’ garantido. Por isso também, é por ele que dizemos ‘amém’ a Deus, para a sua glória” (2Cor 1,20). É isto que vemos no Evangelho de hoje. Primeiro, Jesus é o cumprimento da Palavra de Deus – Ele mesmo é a Palavra (cf. Jo 1,1.14). É por essa Palavra que as tantas pessoas que se reuniram em sua casa em Cafarnaum anseiam. A sede dessa Palavra é tanta que não há espaço para todos. E aqui vemos uma das páginas mais belas dos Evangelhos: aqueles quatro amigos, que tinham uma fé tão grande em Jesus que nos faz envergonhar a nós, cristão de hoje, chegam ao cúmulo, quase à loucura, de destelhar a casa para fazer seu amigo paralítico ficar perto de Jesus. E como isso o comove! “Quando viu a fé daqueles homens, Jesus disse ao paralítico: ‘Filho, os teus pecados estão perdoados’” (Mc 2,5). Eis aqui: por causa da fé de uns, vem a cura para outros. Este fato nos mostra a irrecusável realidade da intercessão dos santos – sejam eles peregrinos ou já na glória – e ligação espiritual que os membros de Cristo possuem entre si – eles possuem o Espírito derramado nos corações (cf. 2Cor 1,22) e, por isso, formam um só corpo (cf. 1Cor 12,12.27).
Um outro fato de significado extremamente importante que é mostrado pelo ato de Jesus é que o pecado é o pior mal de que o homem pode sofrer, infinitamente mais do que qualquer moléstia física. É por isso que, diante da fé daqueles quatro amigos – e a fé aqui é um elemento preponderante, como o foi na cura do servo do centurião (cf. Mt 8,5-13) – o Senhor, emocionado perdoa os pecados ao paralítico. Isto é o mais importante. Somente por causa da incredulidade dos mestres da lei a respeito da autoridade de Jesus de perdoar pecados – o que é um atributo divino – é que o Senhor faz o paralítico andar. Assim, Jesus mostra a verdadeira face de Deus: por palavras, ou melhor, por Palavra, e por atos, prefigurando, desta forma, a dupla ação que Cristo continua realizando através de sua Igreja, o anúncio da Palavra e o agir pelos Sacramentos, o Senhor materializa para quem quiser ver as promessas feitas por seu Deus e Pai, que é adorado com o Filho na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

O cristão e a angústia - II


De uma ponta à outra da Nova Aliança, desde a “grande luz” que surge no Evangelho, até à vitória final do Logos no Apocalipse, fala-se desta submissão, deste debelar de todas as potências do mundo por obra do Filho de Deus, eleito, ab aeterno, como seu rei. E uma vez que o Senhor foi já entronizado e o Vencedor “não espera senão que seus inimigos lhe sejam postos como escabelo sob seus pés” (Hb 10,13), também a angústia é afastada e superada de uma vez para sempre. E isto não só juridicamente ou de jure, mas, para aquele que pertence a Cristo, substancialmente. Ele pode, se vive na fé, não ter medo. A sua má consciência, que o faz tremer, é nele superada pela “paz de Deus que supera toda a inteligência” (Fl 4,7). Pedro, no dia de Páscoa, já não pode ter medo diante d’Aquele que renegou três vezes. Ele foi libertado do temor e foi-lhe dado, em lugar do temor, o amor confiante. Profundamente sabe João: “se o nosso coração nos acusa, Deus é maior do que o nosso coração e sabe tudo” (1Jo 3,20); Ele sabe daquele amor que infundiu, por obra do Espírito Santo, no coração defectível e contra o qual não pode prevalecer a auto-acusação do pecador: “tu sabes tudo, Senhor, tu bem sabes que te amo” (Jo 21,17). O pecador rende-se, não tem esperança alguma de poder opor a esta superabundante esperança, que lhe foi concedida, algo de próprio ou de diverso.
Assim em Paulo e em João, as maiores testemunhas da vida cristã depois da Paixão, toda e qualquer terrena e obscura praia é inundada pela luz de Deus, em quem – ao contrário do que acontece para o Deus da Antiga Aliança – não mais existe treva (1Jo 1,5). Esta luz é tão delicada e doce em João, tão triunfal e fulminante em Paulo, que pode mudar até o último medo, o medo do “terrível dia do Senhor”, em luminosa confiança: “A perfeita caridade de Deus em nós exige que tenhamos confiança no dia do julgamento, porque, tal como em Cristo, nós estamos neste mundo. O temor não fica bem junto da caridade; ao contrário, a caridade perfeita expulsa todo o temor, porque o temor supõe castigo, e aquele que teme não é perfeito na caridade” (1Jo 4,16-18).
“Jesus Cristo (...) não foi “sim” e “não”; o que há nele é “sim”. De fato, todas as promessas de Deus, têm nele o seu “sim” (2Cor 1,19-20); por Ele “temos a confiança de nos aproximarmos (de Deus) confiadamente, mediante a fé na sua pessoa” (Ef 3,12), “é que Deus não nos reservou para a ira mas para a posse da salvação, por Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual morreu por nós” (1Ts 5,9). Mas se o crente não deve ter medo de Deus Juiz, muito menos deverá temer as potências, quaisquer que sejam, a Ele subordinadas: nem a potência do pecado, que juntamente com a morte dominava no mundo antes da Redenção (Rm 5,12-14); nem todas as outras formas de “tribulação” que ao crente podem provir, devem provir e provêm do mundo. O sermão da montanha (Mt 5-7), as instruções aos Apóstolos (Mt 10), contém o mandamento rigoroso de Cristo aos seus de não temerem em nenhuma tribulação, por maior que ela seja. Não lhes será arrancado um cabelo. Eles não terão o cheiro de queimado quando saírem da fornalha ardente (Dn 3,27). E o “não temais” que o Senhor intercala como um refrão nas profecias de perseguição (Mt 10,19.26.28.31), atinge o auge no jubiloso cântico de louvores que se erguerá do meio da fornalha: “Felizes sereis quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos céus a vossa recompensa. Assim perseguiram, de fato, os profetas que vos precederam” (Mt 5,11-12). Ser feliz no meio das contrariedades, nos exteriores e objetivos “apertos” (a angústia deriva-se de angere – apertar) é não só possível, mas exigido. É a felicidade de Paulo: “Gloriamo-nos igualmente nas tribulações” (Rm 5,3); “estou a transbordar de alegria no meio de todas as nossas tribulações” (2Cor 7,4); é a felicidade de todos os mártires que afrontam a morte cantando.

Eu Vi a Cidade - I


A série de reflexões que vamos apresentar aqui é tirada do capítulo “Eu Vi a Cidade”, do livro Era Eu que Estava Nu, de Estêvão da Rocha Lima. Partindo sempre de textos bíblicos, ele faz belíssimas reflexões sobre a Igreja. Confiram!!!
O autor dispensa qualquer apresentação. Atualmente, é professor de Latim e Grego no Seminário Provincial de Maceió, no qual já lecionou várias disciplinas. Tem também outras publicações na área de Literatura.


Mateus 22, 1-10
João 10, 11-16

A Igreja é um mistério.
É uma realidade profunda, sublime, grandiosa, escondida em humildes aparências. Algo divino, vestido nas condições humanas.
A Igreja é o reino dos céus. O rebanho de Jesus Cristo. A família de Deus na terra.
Os homens todos são convidados para o grande banquete do rei. O pastor a nenhuma das ovelhas permite ficar fora do rebanho.
A Igreja é o novo Israel – alargado, engrandecido, universal. O povo de Deus, agora, são todos os povos da terra.
A Igreja é um mistério de unidade e de universalidade.
O convite para as bodas implica a adoção à casa do rei. Agregar-se ao rebanho, ter parte na intimidade com o pastor.
A Igreja é uma reunião dos homens que, reconciliados com Deus em Cristo, são chamados a viver como filhos de Deus e herdeiros do reino.
A Igreja é um mistério de santidade.
Como diz a parábola que nas bodas se encontravam bons e maus?
A santidade da Igreja não deriva dos cristãos, mas sim do próprio Cristo. Não é conquista dos homens, porém comunicação de Deus.
A Igreja não é má, porque nela se encontram pecadores.
Ao contrário, é ainda melhor, porque tem a missão de converter os maus; mais bela, porque tem o poder de reformar os feios; mais pura, porque tem o poder de limpar os sujos; mais forte, porque tem o poder de levantar os fracos; mais santa, porque tem o poder de animar os mortos; eternamente viva, porque tem de Deus a vida em si mesma.
As fraquezas e fealdades que padecemos nós, membros da Igreja, não são motivo de minguar a fé ou falecer o amor; antes, porém, de se avivar e crescerem.
Nós temos aliança com Deus. Nós somos um mistério de amor.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Pedro, Príncipe dos Apóstolos

O texto seguinte, de Santo Epifânio, bispo de Salamina dos séculos IV e V, apresenta Pedro como príncipe dos apóstolos e pedra sólida da Igreja. O ministério petrino permanece na Igreja no sucessor de Pedro, atualmente, o papa Bento XVI. Que o Senhor fortaleça sempre o nosso Santo Padre, e, uma vez fortalecido, ele fortaleça os seus irmãos.

Mesmo os que se acovardam na perseguição, se fizerem penitência perfeita diante do Senhor, chorando em vestes de saco e sobre cinzas, poderão obter de Deus misericórdia. Nada sobra do mal quando há penitência. O Senhor dá acolhida aos que se convertem, como deu a Manassés, filho de Ezequias, e também a Pedro, príncipe dos apóstolos, que antes o renegara. Pedro, na verdade, ficou para nós como a pedra sólida sobre a qual se apóia a fé e sobre a qual está edificada a Igreja. Tendo confessado ser Cristo o Filho do Deus vivo, foi-lhe dado ouvir: “Sobre esta pedra – a da sólida fé – edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Ele o confessara explicitamente como filho verdadeiro, ao dizê-lo Filho do Deus vivo. E é o que também repetimos nós ao refutar as heresias.
O mesmo Pedro nos instruiu, igualmente, a respeito do Espírito Santo, quando disse a Ananias: “Como te tentou Satanás a ponto de mentires ao Espírito Santo? Não foi a homens que mentiste, mas a Deus!” (At 5,3s). Com isso ensinava que o Espírito procede de Deus e não lhe é estranho.
Tornou-se enfim Pedro o alicerce firmíssimo e fundamento da Casa de Deus, quando, após negar a Cristo e cair em si, foi buscado pelo Senhor e por ele honrado com as palavras: “apascenta as minhas ovelhas, apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15s). Dizendo isto, o Senhor nos estimulou à conversão, e também a que de novo se edificasse solidamente sobre Pedro aquela fé, a de que ninguém perde a vida e a salvação, neste mundo, quando faz penitência sincera e se corrige de seus pecados.