sábado, 11 de abril de 2009

"Ele desceu à mansão dos mortos" - Sábado Santo

Hoje a Igreja se coloca junto à sepultura do Senhor. Não se celebra nenhuma ação litúrgica. Há apenas a contemplação do mistério da morte do Senhor, sua descida à mansão dos mortos.
Sim, realmenre o Senhor experimentou a morte. E essa morte causou um grande silêncio. Esse é o sábado mais silencioso da história humana, e, paradoxalmente, o mais eloqüente.
É o mais silencioso porque a morte nos deixa sem palavras, sobretudo a morte do justo, a morte vil, como foi a de Jesus. É o sábado da ausência de palavras do próprio Deus. Hoje, o Pai parece ter abandonado a humanidade à sua própria sorte. O mal que o pecado traz, aparentemente, venceu.
O silêncio de Deus nesse sábado após a Sexta-feira da Paixão do Senhor, recorda-nos a dor da ausência de palavras nos dias que se sucedem aos absurdos da vida de cada um de nós: o absurdo das perdas dolorosas, das separações inevitáveis, dos amores frustrados.
No entanto, ao se calar diante da morte de Seu Filho, Deus nos fala. É por isso que esse sábado é também o mais eloqüente de todos os sábados. Ao silenciar perante a morte de Jesus, Deus revela o seu modo de agir para salvar a humanidade. É no silêncio do sepulcro, no dia de hoje, que o Pai, no Seu Filho, está salvando a humanidade. De que modo? Jesus desce à morada dos mortos, para de lá arrancar a humanidade morta pelos pecados.
E tudo isso Deus opera no silêncio. Jesus irá arrebentar as amarras da morte no silêncio da madrugada do Domingo de Páscoa. Ninguém saberá como isso aconteceu, apenas veremos o Ressuscitado. Deus age e sempre agirá assim.
E os cristãos verdadeiros, repletos do Espírito do Ressuscitado, agirão da mesma forma: no silêncio do sábado santo da vida cotidiana, trabalham pela redenção da humanidade, para que esta possa gozar das alegrias do Domingo da Páscoa definitiva na vida eterna.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

"Ele tomou sobre si as nossas enfermidades" - Sexta - Feira da Paixão do Senhor


Hoje, dentro do Solene Tríduo Pascal, a Igreja contempla o mistério da Paixão e Morte do Senhor. Não há missa, apenas se celebra a Paixão do Senhor, escutando sua Palavra, adorando a Sua Santa Cruz, comungando do Seu Corpo, com as hóstias consagradas na Missa Vespertina da Ceia do Senhor.
O servo do Senhor, anunciado por Isaías, assume a nossas enfermidades, sofrendo Ele mesmo as nossas dores (cf. Is 52,4) E o faz até o fim, até a morte e morte de cruz.
O mistério da nossa redenção não se tratou de uma encenação. O Filho de Deus, assumindo a nossa carne, viveu os dramas humanos, até o extremo, até o maior de todos eles: a morte física. A morte, consequência do pecado, alcança Aquele que não teve pecado. O Senhor Jesus hoje é ferido pela morte, e ferido de morte, é imagem de toda a humanidade chagada, desfigurada, sem aparência nem beleza.
Ao ser atingido pela morte, Jesus também é apresentado como paradigma da obediência a Deus, de um amor incondicional, de um amor concreto. Somente o amor fiel, somente o amor que faz da vida uma pró-existência até o extremo, pode redimir. É por isso que Ele se torna causa de salvação para todos aqueles que lhe assumem como modelo (cf. Hb 5,9).
Mas a morte de Jesus não é o ponto final no plano de salvação de Deus. A fidelidade a Deus nunca fica sem resposta. Jesus, como o grão de trigo caído na terra, será transfigurado, e, na potência do Espírito Santo, ressuscitará, sendo o primeiro de uma humanidade nova. Segundo a narração da Paixão segundo João, Jesus foi colocado em um túmulo novo, onde havia um jardim (cf. Jo19,41). Na criação, Adão foi plantado em um jardim, mas, por sua desobediência o perdeu. Pela obediência do novo Adão, Jesus Cristo, também plantado em um jardim, Deus fará brotar a nova criação, a nova humanidade obediente na obediência de Jesus.

Via Sacra - Meditação final

Depois de termos acompanhado o Senhor no seu caminho de sofrimento, no seu caminho de calvário, chegamos ao fim da caminhada, chegamos ao nosso destino, o destino de todo cristão: a cruz!
A cruz é a recompensa que o Senhor nos oferece por segui-Lo. Para a razão humana, isso pode parecer injusto e sem sentido. Perguntamo-nos: “Mas Senhor, é isso que recebemos, é isso que merecemos?” Sim... o verdadeiro discípulo, aquele que procura ser fiel e obediente, terá o mesmo destino do seu mestre. Não poderia ser diferente para nós, os cristãos, pois o nosso mestre, o Salvador da humanidade, sofreu injustamente pelos nossos pecados, e com o seu sofrimento nos libertou da escravidão.
Viver com Cristo é, antes de tudo, uma opção: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz de cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Ele nos convida e nos oferece uma vida nova, vida nova que brota de sua entrega na cruz. Ele nos transforma em homens novos.
Abracemos, portanto, a cruz de Cristo, que também é nossa, pois “Aquele que não toma sua cruz e não me segue não é digno de mim” (Mt 10,38), diz o próprio Senhor. O caminho da cruz é o mesmo que nos levará ao encontro de Cristo ressuscitado, vencedor da morte, o Cristo que nos comunica o dom da vida divina, que é viver no Espírito. A Páscoa de Cristo é também a nossa Páscoa.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim - Missa na Ceia do Senhor

Neste primeiro dia do Tríduo Pascal que começa na quinta-feira à tardinha com esta celebração, a Igreja faz memorial da entrega do Senhor, agora de forma incruenta e sacramental, e algumas horas mais tarde, na Nona Hora do dia, de forma cruenta na cruz. Mas é o mesmo sacrifício oferecido; o mesmo sacerdote que oferece; o mesmo altar no qual é oferecido; é Cristo. O que difere é a forma.
“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Foi durante a ceia.” Estas palavras do Evangelho desta missa introduzem-nos no sentido pleno de todo o mistério que celebramos no Sagrado Tríduo da Paixão e Ressurreição do Senhor.
A incrível realidade celebrada nesta Missa é expressa nas palavras da Consagração usadas no Cânon Romano: “Na noite em que ia ser entregue, para padecer pela salvação de todos, isto é, hoje, ele tomou o pão em sua as mãos, elevou os olhos a vós, ó Pai, deu graças e o partiu e deu a seus discípulos dizendo: Tomai todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós”. Neste hoje entramos, pela força do Espírito Santo, naquela ceia derradeira como se estivéssemos lá realmente. Por isso essa missa se diz “in Cena Domini”, na Ceia do Senhor. Nela, o Senhor Jesus entregou, no meio da ceia pascal judaica, o ritual para que se celebrasse o mistério de sua entrega ao Pai pelos homens e mandou que o celebrasse perpetuamente: “Fazei isto em memória de mim”, e como diz S. Paulo: “De fato, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26).
O Evangelho, soleníssimo, nos relata o gesto de Jesus de lavar os pés dos discípulos. O próprio Senhor explica este gesto: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós” (Jo 13,14-15). O gesto do lava-pés é, portanto, simbólico: ele serve para ilustrar aos discípulos o mandamento que o Senhor vai dar mais adiante: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34; cf. 15,12). E “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,13). Assim, a maior prova de amor, o maior serviço, o maior lava-pés de Jesus é sua entrega na cruz. Neste sentido, o diálogo entre o Senhor e Pedro assume um sentido contundente: Pedro não deixar que o Senhor lhe lave os pés é o mesmo que não aceitar a morte de Jesus por ele e, em consequência, não ter parte com o Senhor pela ressurreição e vida nova. Assim, o Senhor faz entender a Pedro que aceitar com fé o sacrifício, o serviço, o lava-pés de Jesus, é condição sem a qual não é possível participar da morte e da ressurreição do Senhor.
Coloquemo-nos com humildade diante do Senhor que foi humilde para conosco, para que Ele, vindo Ressuscitado nesta Páscoa que se aproxima, nos faça participar da sua realeza já agora, nesta vida, e na vida no mundo que virá.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O cristão e angústia – VIII

Aquele que caminha tem um terreno debaixo dos pés. Fé, esperança e caridade são precisamente o terreno firme oferecido ao homem para caminhar. Nem mesmo no parêntesis entre o pecado (que rejeita este terreno para estar sobre o próprio) e o retorno a Deus no arrependimento, se dá cristãmente falando, uma perda total deste terreno. Quem crê, quem se agarra solidamente à fé, anda para diante, e, enquanto avança, não pode pôr-se a filosofar sobre a possibilidade desse avanço, não pode refletir em si mesmo a própria passagem para Deus e ao mesmo tempo realizá-la. Isto sim, seria uma contradição, e semelhantes reflexões não poderiam gerar senão outras contradições e jogos dialéticos. Desde que há a possibilidade, de um ponto de vista cristão, da passagem para Deus – e Deus concede-a como graça – a passagem, sempre em linguagem cristã, não é tarefa que nos deva preocupar.

O homem não deve pensar senão em avançar, visto que Deus cuida previamente de tornar-lhe possível o avanço, resolveu o problema do continuum, e todos os paradoxos do espaço espiritual, incluindo o de Aquiles e a tartaruga, estão ultrapassados. A má consciência, e, por conseguinte, a angústia que atormenta muitos cristãos, não deriva tanto do fato de serem pecadores e reincidentes, mas de que cessaram de crer na eficácia e na verdade da sua fé; medem a força da fé pela própria impotência, projetando o mundo de Deus na própria psicologia, em vez de se deixarem medir por Deus. Fazem o que, como cristãos, lhes é proibido: consideram a fé de fora, desesperam da força da esperança, fecham-se ao poder do amor, instalam-se na vala que se forma entre a exigência cristã e a sua falência, vala que, em termos cristãos, é domínio do nada. Não é, pois, de admirar que, numa tal posição, a angústia se apodere deles. (...)

Estas linhas de pensamentos [a visão da angústia segundo a dialética oscilante de Lutero, que não admite nem uma verdadeira emancipação da angústia do pecado, nem uma autêntica participação na angústia da cruz do Senhor e a consequente linha que segue Kierkergaard, a visão da predestinação de Calvino e a da finitude da redenção de Jansênio] estão interditas ao católico. Não lhe é lícito recorrer a uma dialética, seja qual for, para tranquilizar aquele que se desesperasse ou duvidasse da sua verdadeira passagem para Deus: ele não tem de fazer mais do que indicar-lhe a fé viva como sendo o ato da passagem. A isto tendem, no fundo, também as duas formas de protestantismo, mas a vertigem provocada pela reflexão impede o elemento de presença de produzir o seu efeito ao mesmo tempo que o elemento escatológico. O católico não pode limitar-se a considerar a redenção como um fato objetivo, consumado na cruz e do qual basta que o crente tome conhecimento para beneficiar-se de seus efeitos. Pelo contrário, ele sabe que a redenção para se tornar subjetiva exige participação e apropriação; por isso o caminho da angústia do pecado para uma angústia redentora é, para ele, um verdadeiro progredir. Se ele se vira para esta última, não pode deixar a primeira atrás de si. Se se aproxima desta, afasta-se da outra. E entre as duas estende-se necessariamente uma zona de isenção da angústia, caracterizada pelo resplendor da fé, da caridade e da esperança.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Da imersão na morte à emersão para a vida

Estamos potencialmente mergulhados na morte. E esta é a mais terrível de todas as mortes, pois é aniquilação do que nos é mais valioso, nosso próprio ser. A clarividência de que o homem é um ser espiritual e que está destinado a evoluir em sua espiritualidade, se encontra em todas as tradições religiosas. A espiritualidade se apresenta como algo intrínseco e próprio ao ser humano. Este não é somente corporeidade. E se assim o fosse, não viveria de verdade, mas apenas vegetaria. Nós cristão, cremos nisso. Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois – espírito, alma, corpo –. (1Ts 5,23). Por isso, se afirma de forma unânime que há, na pessoa, uma dimensão que a distingue de todos os outros animais. A saber, a dimensão espiritual. Esta corresponde à dimensão mais nobre, pois ela identifica o homem consigo mesmo que, simultaneamente, se percebe como ser existente. Em outras palavras, a dimensão espiritual torna o homem consciente de seu próprio ser. Nesta consciência ele se percebe tal como ele é, homem, criatura. E consciente de si mesmo se torna um ser responsável. Percebe- se assim, que a existência no seu sentido pleno, só é de fato, existência, sob a óptica espiritual. Assim, só há existência se houver uma espiritualidade, de forma que, na ausência desta, aquela se extingue. É aniquilada. Por isso, a firmação “estamos mergulhados na morte”. Mas, em que sentido?
Começamos a mergulhar na morte quando começamos a viver. Nesse sentido, viver está estritamente ligado ao conceito de vida medíocre que temos, no qual a vida se resume em força física e atividade. Dessa forma, “matamos” o que temos de melhor, nosso espírito e, conseqüentemente, morremos com ele. No nosso agir cotidiano temos muitos tipos de preocupações: estudo, trabalho, lazer, “tenho que fazer isso, aquilo...”. Estas ações estão ligadas, de certa forma, somente a nossa dimensão física. No entanto, mergulhados nosso corpo esquecemos nosso espírito e, ao poucos, esquecemos nós mesmos. E nos matamos a cada dia. Mas, o espírito é vida e a vida não morre. E mesmo que não tenhamos consciência, a dimensão que aniquilamos, aguarda o nosso sim à vida de verdade, para ela possa emergir da profundeza do ser da pessoa. Contudo, para que essa nobilíssima dimensão nos venha à tona, devemos ir onde ela está adormecida. Para que ela emirja à nossa consciência devemos imergir a profundeza de nosso próprio ser. Quando isso acontece nos deparamos com a nossa verdadeira realidade e identidade. Deparamos-nos com nosso próprio “eu real” tal e qual, na perfeita realidade, livre de ilusões e auto-afirmações de nós mesmos. Encontramo-nos como Deus encontrou nossos primeiros pais depois deles terem pecado: nus e totalmente humanos necessitados da graça de Deus, tal como eles eram, criaturas. Essa auto-percepcão nos é concedida por Deus a fim de nos mostrar quem realmente somos.
É a partir da descoberta dessa nossa dimensão – a espiritual – que começamos a evoluir espiritualmente. Pois, é nela que nos vemos como somos. Mas, o elemento que é a chave para uma verdadeira espiritualidade, além dessa descoberta, é aceitação de nós mesmos como somos de fato. Do que serviria nos conhecermos no mais alto grau, senão nos aceitássemos a nós mesmos com nossas capacidades e incapacidades e limitações? Mas não esqueçamos de que nesta vida, a morte que nos assalta é potencial. Eis que virá o dia, a hora e o “lugar” onde a potência se tornará ato. E em ato já não será a morte, mas vida e vida no sentido pleno. E a morte será de uma vez por todas aniquilada. Pois, Cristo disse: Ó morte eu serei a tua morte.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

XIV Estação: Jesus é depositado no sepulcro

-Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos!
- Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo!

Mc 15,46-47

Deus em sua condição humana morreu e morreu numa cruz. Sendo descido dela, o corpo de Jesus é acolhido por sua mãe de coração trespassado de dor. É dos braços de Maria que os discípulos recebem o corpo do salvador da humanidade decaída. Com grande e verdadeira piedade, os discípulos, Madalena e Maria, a Mãe de Jesus, acompanhados por outras pessoas, seguiram o cortejo ao calvário. Foi num fim de tarde de sexta-feira. O corpo foi perfumado, coberto com um lençol e envolto de faixas, como era de costume judeu. Um homem de bom coração, José de Arimatéia, cedeu o túmulo que havia preparado para sua família. E sepultaram Jesus. Maria, beijando seu Filho pela última vez, vê o túmulo sendo fechado. Que grande dor!
Eis que a mãe, os discípulos e amigos de Cristo se depararam com o mistério da morte, que causa dor! Diante disso, seus corações são invadidos e tomados por grande tristeza e atordoamento. Como viver sem Aquele que se disse ser a vida? Como poderia a Vida morrer? Certamente eles ficaram, por instantes, atordoados. No entanto, eles tinham fé na promessa de Cristo e, por isso, viveram na esperança da eternidade e no amor a Cristo e ao próximo. Na fé, esperança e amor eles compreenderam que não iriam viver sozinhos e que a Vida não morreu. Mas, compreenderam que o caminho de Cristo deve ser os seus. E eles entenderam a afirmação de próprio Cristo: Se o grão de trigo cair no chão e não morrer ele permanece só, mas se morrer produzirá, a seu tempo, muito fruto”.
A vida de verdade humanamente plena nos é dada quando morremos para nós mesmos. E isso Cristo nos mostrou com seu testemunho sendo obediente a vontade do Pai até a morte e morte de cruz. Morrendo para nós, viveremos para Deus pela ação do Espírito Santo. Jesus viveu e morreu neste mundo para nos salvar e nos mostrar como devemos viver, enquanto somos peregrinos aqui na terra. Para chegarmos à vida ele nos mostrou o caminho. Qual é o caminho? O próprio Cristo. E Ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim”.

Oração: Ó Deus, que enviando vosso Filho unigênito ao mundo, nos tornastes participantes de vossa natureza divina, e Nele nos deixastes o modelo de santidade, fazei que, unindo-nos a Ele morto e sepultado, mereçamos ressurgir com Ele, pela ação do Espírito Santo, para uma vida nova. Amém.

Pai-nosso...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O cristão e a angústia - VII

Uma primeira lei sobre a angústia cristã poder-se-ia, pois, formular como se segue:
O Cristianismo quer e pode redimir o homem da angústia do pecado, se o homem se abre à redenção e se submete às suas condições; em lugar da angústia do pecado, ele dá-lhe acesso a Deus sem angústia, na fé, na caridade e na esperança; as quais, porém, derivando da cruz, podem por si mesmas provocar uma nova, carismática, coexpiante forma de angústia, no âmbito da solidariedade universal.
Com esta primeira verdade, simples e linear, cruza-se, porém, uma outra que ameaça velar-lhe a pureza. Para o filho de Deus, crucificado, sem pecado, a oposição da angústia redentora à angústia do pecado (infrutífera, que Ele não pode experimentar) é coisa óbvia. Pode-se também chegar a compreender que algo desta angústia redentora possa ser comunicado a um crente pela graça superabundante da cruz. Mas os cristãos, ainda que remidos e crentes, amantes e esperançados, não continuarão, apesar disso, sempre pecadores?; seja porque caiam em pecado grave, prevaricando com isso – segundo a ameaça do Apóstolo – de um modo muito mais terrível do que um pagão que não sabe (Hb 6,3-8); seja porque se debatem na penumbra, entre o amor e a concupiscência , entre a esperança e a dúvida, sem uma direção fundamental definida; como “almas salvas pela metade”, que merecem a qualificação tanto de “pecadores” como de “justos”? É claro que um homem não pode possuir a graça santificante e ao mesmo tempo odiar a Deus, no sentido em que Lutero ou o catecismo de Heidelberg interpretaram o simul justus et peccator. Mas quanto de verdade não contém ainda esta definição, como muito bem deveriam saber todos aqueles que são fracos, desencaminhados, que recaem sempre, tépidos, surdos aos mandamentos de Deus!
E nesta tepidez que se mantém à força de compromissos, não serão assaltados por uma nova, bem compreensível todavia unicamente ao cristão, ou seja: a angústia de verificar que é impossível estar “ao mesmo tempo dentro e fora” ou, pior, “nem dentro nem fora”? Não é esta exatamente a específica angústia cristã, ou, ao menos, aquela que com maior frequência se encontra e que, pela sua ambiguidade, mais desagradavelmente impressiona os estranhos, os pagãos, neste ponto mais inequívocos, menos decididos? Se “estes redimidos têm um ar tão pouco redimido”, se os cristãos não convencem, isto deve atribuir-se, e não em último lugar, à sua falta de segurança, produzida pela consciência de fazer mal as suas coisas, de representar tão mal a sua causa, ou , o que é ainda mias lamentável, ao medo de que se descubra que não são de modo algum o que pretendem ser.
Recai-se assim, de certo modo, na angústia da Antiga Aliança. Nela a angústia era superada graças a uma promessa; mas, uma vez que tal promessa não era atual, não tinha força para arrancar completamente os homens à angústia do pecado. Este estar suspenso entre o presente pecaminoso e a promessa que não podia ser nunca plenamente atualizada provocava uma nova forma de angústia. O mesmo parece repetir-se em plena Nova Aliança: na medida em que a redenção já vinda conserva um caráter escatológico e o pecador permanece a caminho da plena justiça; na medida em que não se dissipa nunca a ambiguidade entre “temor e esperança”, ou melhor, entre o medo que o pecador tem de Deus e da condenação divina e a esperança do crente na redenção. Não favorece o Novo Testamento esta ambiguidade enquanto acentua e torna definitivos os dois aspectos, tanto a promessa como a ameaça? Mas ao fazer isto, e ao submeter o homem que se encontra dentro do seu campo de força a tensões sobre-humanas – temer e esperar, estar certo e suspenso ao mesmo tempo – não pediu ele demasiado às nossas pobres forças, que como que são por ele fulminadas? Pode viver-se dentro desta contradição? Os muitos desvios e deformações não vêm comprovar que se exigem aqui ao homem coisas impossíveis? Não se perde o cristão, quando trata a sério com o pecado e com a redenção, numa dialética sem saída, em que cada grau a mais de graça corresponde um grau a mais de indignidade e culpa, e a religião nesta selva obscura se torna um verdadeiro inferno? E não tem precisamente aqui a mais impiedosa psicanálise um campo favorável?
Que o homem, ainda que crente, possa ser tomado de uma espécie de vertigem nesta situação transitória entre medo e esperança, é um fato inegável, confirmado pela experiência de todos os dias. Este sentir faltar o terreno debaixo dos pés, porém, não se pode imputar ao Cristianismo mas tão-somente ao homem que não quer tomar verdadeiramente a sério o Cristianismo. O Cristianismo não cava diante do homem um abismo, mas, ao contrário, oferece-lhe um terreno sólido; este terreno porém está em Deus, não no próprio homem, e o acesso a ele implica que o homem abandone o seu próprio terreno. O pecador é exatamente aquele que quer estar em si mesmo e sobre Deus ao mesmo tempo, acaba por cair num vazio intermediário. Verificar (ou mesmo apenas sentir) que se está sem terreno debaixo dos pés, pressupõe que se deixou de caminhar; de caminhar no terreno de Deus ou de efetuar a passagem do próprio terreno para o terreno de Deus. A fé, se é viva e operante, não é mais do que um caminhar, passar de um a outro ponto.

Apascentar em Cristo

“Apascentar em Cristo”. Com este lema Pe. Henrique Soares da Costa iniciou sue ministério sacerdotal em 15 de agosto de 1992. Nesses quase 17 anos de sacerdócio esse lema tornou-se o seu jeito de ser padre, um pastor segundo o coração do próprio Cristo.
Seu pastoreio sempre foi intenso: professor do seminário e de institutos teológicos, pregador de retiros, capelão do Mosteiro das Servas da Ss. Trindade de Rovigo, reitor da Igreja Nossa Senhora do Livramento, a pérola de seu ministério, segundo ele mesmo costumava afirmar.
Em todas essas atividades, pe. Henrique fez das palavras do apóstolo, “o que se espera dos administradores é que sejam fiéis” (1Cor 4,2) uma realidade concreta. No seu trabalho pastoral buscou sempre ser fiel à ortodoxia da fé e da liturgia, frequentemente vilipendiada.
Receba hoje a nossa gratidão por sua colaboração como professor e como formador do nosso seminário. Sua nomeação como bispo auxiliar de Aracaju enobrece a nossa Igreja de Maceió e o clero diocesano. Deus lhe abençoe nessa nova missão!

XIII Estação: Jesus é descido da cruz e entregue à sua Mãe


- Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo e vos bnedizemos!
- Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo!

Mc 15, 42-43.46

Na noite de Natal contemplamos a Virgem embalando em seus braços o corpo recém-nascido do Verbo feito carne em seu seio. Agora Maria recebe em seus braços o mesmo corpo, desfigurado, sem aparência humana. Imaginemos o turbilhão de imagens que povoaram os pensamentos da Virgem Mãe: a lembrança do seu sim, a promessa de que o menino concebido seria grande, seria chamado filho do Altíssimo e Deus lhe daria o trono de Davi (cf. Lc 1,32). E eis agora o rei humilhado, escarnecido, morto. Mas Maria não perde sua fé, em nenhum momento considera a possibilidade de Deus ter falhado na sua promessa e seu sim ter sido inútil. Ela simplesmente faz aquilo que todo cristão deve fazer: guarda, como sempre fez, todos esses eventos em seu coração, meditando-os. Ou seja: Maria interpreta os fatos de sua vida na relação com Deus, buscando ver tudo pelos olhos da fé. E a fé de Maria não lhe deixará sem resposta. Sua fé lhe encherá de alegria quando encontrar seu Filho ressuscitado, pleno do Espírito Santo. Podemos até imaginar as palavras de Jesus dirigidas à sua mãe, e que servem para todos nós: “Vê mãe, crer vale a pena, quem diz sim é capaz de se doar por amor até a morte, redime o mundo, vencendo os poderes do mal, vencendo até a morte.”

Oração: Senhor Jesus, ao contemplar-vos massacrado e entregue à vossa Mãe, pedimo-vos a força de também sermos fiéis no nosso sim até a morte. Somente assim, morrendo como o grão de trigo, poderemos participar de vossa redenção, produzindo frutos para a vida eterna. Amém.