sexta-feira, 3 de abril de 2009

Da imersão na morte à emersão para a vida

Estamos potencialmente mergulhados na morte. E esta é a mais terrível de todas as mortes, pois é aniquilação do que nos é mais valioso, nosso próprio ser. A clarividência de que o homem é um ser espiritual e que está destinado a evoluir em sua espiritualidade, se encontra em todas as tradições religiosas. A espiritualidade se apresenta como algo intrínseco e próprio ao ser humano. Este não é somente corporeidade. E se assim o fosse, não viveria de verdade, mas apenas vegetaria. Nós cristão, cremos nisso. Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois – espírito, alma, corpo –. (1Ts 5,23). Por isso, se afirma de forma unânime que há, na pessoa, uma dimensão que a distingue de todos os outros animais. A saber, a dimensão espiritual. Esta corresponde à dimensão mais nobre, pois ela identifica o homem consigo mesmo que, simultaneamente, se percebe como ser existente. Em outras palavras, a dimensão espiritual torna o homem consciente de seu próprio ser. Nesta consciência ele se percebe tal como ele é, homem, criatura. E consciente de si mesmo se torna um ser responsável. Percebe- se assim, que a existência no seu sentido pleno, só é de fato, existência, sob a óptica espiritual. Assim, só há existência se houver uma espiritualidade, de forma que, na ausência desta, aquela se extingue. É aniquilada. Por isso, a firmação “estamos mergulhados na morte”. Mas, em que sentido?
Começamos a mergulhar na morte quando começamos a viver. Nesse sentido, viver está estritamente ligado ao conceito de vida medíocre que temos, no qual a vida se resume em força física e atividade. Dessa forma, “matamos” o que temos de melhor, nosso espírito e, conseqüentemente, morremos com ele. No nosso agir cotidiano temos muitos tipos de preocupações: estudo, trabalho, lazer, “tenho que fazer isso, aquilo...”. Estas ações estão ligadas, de certa forma, somente a nossa dimensão física. No entanto, mergulhados nosso corpo esquecemos nosso espírito e, ao poucos, esquecemos nós mesmos. E nos matamos a cada dia. Mas, o espírito é vida e a vida não morre. E mesmo que não tenhamos consciência, a dimensão que aniquilamos, aguarda o nosso sim à vida de verdade, para ela possa emergir da profundeza do ser da pessoa. Contudo, para que essa nobilíssima dimensão nos venha à tona, devemos ir onde ela está adormecida. Para que ela emirja à nossa consciência devemos imergir a profundeza de nosso próprio ser. Quando isso acontece nos deparamos com a nossa verdadeira realidade e identidade. Deparamos-nos com nosso próprio “eu real” tal e qual, na perfeita realidade, livre de ilusões e auto-afirmações de nós mesmos. Encontramo-nos como Deus encontrou nossos primeiros pais depois deles terem pecado: nus e totalmente humanos necessitados da graça de Deus, tal como eles eram, criaturas. Essa auto-percepcão nos é concedida por Deus a fim de nos mostrar quem realmente somos.
É a partir da descoberta dessa nossa dimensão – a espiritual – que começamos a evoluir espiritualmente. Pois, é nela que nos vemos como somos. Mas, o elemento que é a chave para uma verdadeira espiritualidade, além dessa descoberta, é aceitação de nós mesmos como somos de fato. Do que serviria nos conhecermos no mais alto grau, senão nos aceitássemos a nós mesmos com nossas capacidades e incapacidades e limitações? Mas não esqueçamos de que nesta vida, a morte que nos assalta é potencial. Eis que virá o dia, a hora e o “lugar” onde a potência se tornará ato. E em ato já não será a morte, mas vida e vida no sentido pleno. E a morte será de uma vez por todas aniquilada. Pois, Cristo disse: Ó morte eu serei a tua morte.

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